D. Nuno presidiu ao encerramento da Fase Diocesana do Processo de Beatificação da Madre Virgínia 

O prelado agradeceu a todos quantos colaboraram neste processo e pediu para que se reze para que o nome de Deus seja glorificado na santidade da Madre Virgínia e para que esse momento se apresse.

Foto: Duarte Gomes

Celebrou-se ontem de manhã, dia 2 de outubro, na igreja paroquial de Santo António, a missa de encerramento da Fase Diocesana do Processo de Beatificação da Madre Virgínia Brites da Paixão.

Presidida pelo Bispo do Funchal, a Eucaristia foi concelebrada pelos bispos eméritos do Funchal, D. Teodoro de Faria e D. António Carrilho, pelo emérito de Bragança/Miranda D. António Montes, por vários sacerdotes diocesanos e não só, tendo contado na assembleia com a presença do presidente da Assembleia Legislativa da Madeira entre inúmeros fiéis.

Na homilia, D. Nuno Brás começou por lembrar “os 15 longos anos de trabalho histórico” sobre a vida e obra deixada pela Madre Virgínia, congratulando-se pelo facto de a Comissão Diocesana ter conseguido finalmente enviar para Roma tudo o que foi reunido de modo a que o Santo Padre se possa pronunciar acerca da santidade da religiosa madeirense.

O Bispo do Funchal disse, no entanto, que “este processo diocesano não encerra, portanto, qualquer juízo acerca da vida de Madre Virgínia. Tal juízo cabe apenas a Deus e à autoridade suprema da Igreja, e por ele aguardamos e rezamos”. 

A propósito, acrescentou, “pedimos que seja reconhecida a sua consagração, o testemunho da sua vida cristã, o testemunho da sua vida de religiosa, o modo como Deus se encontrava presente na sua vida e que, por meio dela, a todos atraía”.

Depois de lembrar que “celebramos hoje a memória dos Santos Anjos da Guarda”, D. Nuno frisou que “sabemos que o mundo não se resume ao que vemos, ao que tocamos, às realidades existentes dentro dos limites do espaço e do tempo. Sabemos que, não raras vezes, Deus envia os seus anjos a anunciar, a curar, a ajudar na luta que nós, seres humanos, constantemente travamos”.

“Deixai que nesta celebração reconheça na biografia e na memória de Madre Virgínia Brites da Paixão a presença de um outro modo de mensageiro e de mensagem divina. Madre Virgínia — creio que o podemos dizer — foi “um anjo” em toda a sua vida. Não apenas no sentido da inocência procurada e vivida, mas, precisamente, no sentido de uma presença de Deus para aqueles que ela encontrou”, frisou ainda o prelado.

Pe. Estêvão levará processo para Roma 

Terminada a Eucaristia realizou-se a última sessão do processo que antecede o envio dos autos do processo para a Congregação das Causas dos Santos em Roma, para novo processo de estudo, tempo para os fiéis rezarem por milagres, que garantirá a subida da Madre Virgínia as altares.

O processo da Madre Virgínia foi aberto a 29 de dezembro de 2006, com sessão no Mosteiro da Caldeira, Câmara de Lobos. Ao longo destes anos foram ouvidas 15 testemunhas e recolhidas mais de 5.300 páginas de autos processuais e documentos sobre a vida, virtudes da religiosa, que nasceu em 1860 e viveu até 1929.

Reunida, examinada e feita uma síntese dessa documentação, conforme explicou de forma exaustiva D. António Montes, bispo emérito de Bragança/Miranda e presidente da Comissão Histórica, entretanto nomeada, cabe agora ao Pe. Estêvão Fernandes, vice-reitor do Pontifício Colégio Português e aluno na Faculdade de História e Bens Culturais da Igreja, da Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma para ser “portador” destes documentos, levando-os até Roma, para seguirem os próximos passos.

Caberá, em última instância, ao Papa declarar as virtudes e a autenticidade dos milagres, para que se siga a beatificação e no final a canonização.

Leia na Integra a homilia de D. Nuno Brás na Eucaristia que antecedeu o encerramento diocesano deste processo:

ENCERRAMENTO DO PROCESSO DIOCESANO DA MADRE VIRGÍNIA

Santo António, 2 de Outubro de 2021

Alegramo-nos hoje porque terminou o processo diocesano que tinha por objectivo reunir todos os dados disponíveis acerca de Madre Virgínia Brites da Paixão. Alegramo-nos e damos graças a Deus. Durante 15 longos anos de trabalho histórico, foram compilados todos os seus escritos (os últimos chegados ao nosso conhecimento há apenas um ano) e os elementos principais da sua extensa biografia (69 anos de vida). 

Hoje, a comissão diocesana constituída propositadamente para esse fim pode, finalmente, enviar para Roma tudo o que foi reunido, de modo que o Santo Padre se possa pronunciar acerca da santidade desta nossa conterrânea.

Este processo diocesano não encerra, portanto, qualquer juízo acerca da vida de Madre Virgínia. Tal juízo cabe apenas a Deus e à autoridade suprema da Igreja, e por ele aguardamos e rezamos. Pedimos que seja reconhecida a sua consagração, o testemunho da sua vida cristã, o testemunho da sua vida de religiosa, o modo como Deus se encontrava presente na sua vida e que, por meio dela, a todos atraía.

Deus. É precisamente a Sua presença na vida de Madre Virgínia que fez com que esta pequena religiosa clarissa se tornasse para toda a nossa Ilha um ponto de interrogação, um convite. Independentemente de qualquer juízo definitivo acerca da sua vida mística, das suas visões e dos seus diálogos com Jesus, não podemos deixar de fazer nossas as palavras do então bispo do Funchal, D. António Pereira Ribeiro, a 1 de agosto de 1915: Madre Virgínia — dizia ele — “é não só uma alma muito simples, humilde e obediente, mas uma alma verdadeiramente privilegiada, introduzida por Deus em vias extraordinárias desde pequenina”. Ou as do Senhor D. António Montes, proferidas há dias ao jornal “Pedras Vivas”: “A busca da união com Deus marcou a linha de rumo da caminhada espiritual de Madre Virgínia, dentro e fora do convento”.

Deus: com Ele ou sem Ele, tudo muda. A vida humana continua a decorrer, como nos mostram as vidas de tantos nossos contemporâneos que ignoram Deus, que vivem como se Ele não existisse. Mas quando nos damos conta da Sua presença e com ela contamos, tudo se torna diferente. Não nos é retirada a capacidade de construir, a capacidade técnica — mas muda o sentido da construção: de uma vanglória humana, da ilusão de tudo poder, à humilde, mas ousada e persistente, glória de Deus. 

Nem nos é retirada a capacidade de sentir, de sofrer, de chorar ou de nos alegrarmos. Mas deixamos de o fazer sozinhos, para o vivermos no seio dos braços do Pai, na confiança que a presença divina nos oferece. 

Não nos é retirada a liberdade — pelo contrário a escolha livre é mesmo constantemente exigida! — mas esta liberdade humana, limitada pela nossa história e pelo nosso contexto de vida, vê-se elevada pela infinita liberdade divina. 

Com Deus, o sentido da vida humana deixa de ser determinado pelo simples aqui e agora (ou, quando muito, por algumas dezenas de anos ou pela memória daqueles que nos sucedem), para adquirir o horizonte da eternidade. E como é diferente viver no horizonte da eternidade!

Com Deus, o outro passa a ter um rosto divino. Já não é simplesmente alguém que posso reduzir a um objecto para usar ou manipular; já não é simplesmente um concorrente que ocupa o lugar a que eu julgava ter direito; nem sequer é apenas um tu, um rosto com quem posso colaborar na construção do mundo: é o rosto, a presença — imagem e semelhança — de Deus, que não posso ignorar: que mostra a presença divina ao meu lado e que transforma a vida, a existência quotidiana, em oração.

Deus, revelado em Jesus Cristo. Deus, contemplado pelos mais pequenos e humildes. Deus, o amor que nos envolve e transforma. Deus, que se faz um connosco no mistério da Eucaristia. Deus, coração vivo e infinito a palpitar, a mostrar o seu amor, maravilha que dá sentido ao mundo e à nossa existência. Deus, que transforma o nosso viver em louvor. Deus, que converte o nosso olhar para o próximo em ações de amor e misericórdia. Deus, esse Alguém que nunca desiste de nós, de nos perdoar e de nos elevar.

Esse foi o segredo nunca guardado (bem ao contrário!) de Madre Virgínia. O centro da sua vida. A realidade que transformou, desde cedo, a sua existência. Aquele que, por meio desta humilde e simples religiosa tocou o coração, a vida e as obras de tantos madeirenses.

Celebramos hoje a memória dos Santos Anjos da Guarda. Sabemos que o mundo não se resume ao que vemos, ao que tocamos, às realidades existentes dentro dos limites do espaço e do tempo. Sabemos que, não raras vezes, Deus envia os seus anjos a anunciar, a curar, a ajudar na luta que nós, seres humanos, constantemente travamos.

Mas deixai que nesta celebração reconheça na biografia e na memória de Madre Virgínia Brites da Paixão a presença de um outro modo de mensageiro e de mensagem divina. Madre Virgínia — creio que o podemos dizer — foi “um anjo” em toda a sua vida. Não apenas no sentido da inocência procurada e vivida, mas, precisamente, no sentido de uma presença de Deus para aqueles que ela encontrou. Uma mensagem viva (a Boa Nova do Evangelho) que o Senhor deu a graça de ser proclamada a quantos com ela se cruzavam, e que ainda hoje perdura — na sua lembrança e nas graças obtidas por sua intercessão — como perduram sempre aqueles que se deixaram apaixonar pelo Evangelho e deixaram que neles, como na Virgem Maria, Deus fizesse maravilhas!

Roguemos ao Senhor que em breve nos dê a graça de vermos a nossa “Santa Freirinha”, a nossa Madre Virgínia, colocada publicamente aos olhos de todos os cristãos como exemplo de virtudes cristãs e intercessora junto de Deus.