“O que nos move é o amor a Deus e ao próximo”

O Pe. Bernardino e a Dr.ª Bina falam sobre a nova Unidade de Alzheimer na Ribeira Brava 

A nova Unidade de Alzheimer “Dragoeiro” do Centro Social e Paroquial de São Bento da Ribeira Brava, vai acolher os primeiros utentes a partir de segunda-feira. Com capacidade para 18 pessoas a nível de internamento e 45 na unidade de dia, esta instituição tem como objetivo cuidar das pessoas com doença de Alzheimer e apoiar as suas famílias. 

O Jornal da Madeira conversou com o padre Bernardino Trindade, dehoniano, pároco da Ribeira Brava e presidente do Centro Social e Paroquial de São Bento e com a Dr.ª Bina Pereira, diretora técnica desta Unidade de Alzheimer.

Entrevista ao Pe. Bernardino Trindade, scj

O que faz o Centro Social e Paroquial de São Bento na Ribeira Brava?

Pe. Bernardino Trindade – O Centro Social e Paroquial de São Bento na Ribeira Brava teve fulgor com a inauguração do lar, que é a sede desta instituição, a 11 de agosto de 1996, na altura, com o padre Gil e um grupo de paroquianos que acharam por bem, e por necessidade, dar respostas sociais a vários casos que apareciam aqui na freguesia. Assim surgiu, da boa vontade e da colaboração entre a paróquia e a diocese, a origem do Lar de São Bento. Ao longo destes 25 anos fomos crescendo em parceria com o Governo Regional. O Lar começou com a ajuda domiciliária, temos a Unidade Regional de Cuidados Continuados, as refeições, lavagem de roupa do Campanário, a Casa Abrigo, residência de idosos e, por último, a unidade de Alzheimer. 

Foto: Jornal da Madeira

Pedras Vivas 19 de setembro de 2021 (A4)

Pedras Vivas 19 de setembro de 2021 (A3)

Como surgiu o projeto para a unidade de Alzheimer?

Pe. Bernardino Trindade – Ao longo destes anos, notámos que era um problema para as famílias e um problema também para nós, quando recebíamos no Lar alguém com Alzheimer. A filosofia do Lar era ter as “portas abertas”. Os idosos eram independentes e podiam sair e entrar, as suas famílias também. Estamos no centro da vila, de fácil acesso e fácil locomoção. Podiam ir ao café, comprar a sua roupa… Quando começámos a receber pessoas com Alzheimer, já não pudemos continuar com a “porta aberta”. Ainda colocamos um pin em cada pessoa e, na porta, um detetor. Depois tivemos mesmo de passar a fechar as portas à chave porque saíam e precisávamos de andar à procura.  

A Unidade de Alzheimer não é um lar. O lar é uma estrutura residencial de pessoas idosas. Esta Unidade destina-se ao cuidado de pessoas que estão diagnosticadas com a doença de Alzheimer. É uma unidade exclusiva para estes casos. Tem valência de dia para 45 pessoas e valência de internamento para 18. Nós apostamos mais na valência de dia e estamos a oferecer um horário de ajuda às famílias das 7h30 até às 21 horas. Significa que é um período alargado, onde as famílias podem fazer a sua vida, os seus trabalhos. Podem trazer o idoso, logo de manhã, e após os trabalhos podem vir buscá-lo. Neste sentido, podemos dar uma ajuda mais cabal às famílias do que se fosse das 9h às 17h, porque aí as pessoas estão a trabalhar. 

Este projeto levou vários anos a colocar de pé. Agora está inaugurado. Estamos prontos iniciar as atividades. Sabendo que esta semana, chamada de semana aberta, as pessoas da parte da manhã podem visitar a unidade. Uma vez que a unidade esteja a funcionar, só os familiares poderão fazer visitas. 

Como vê a missão da Igreja neste apoio aos mais frágeis e doentes?

Pe. Bernardino Trindade – A igreja, desde o seu início, apoiou os mais frágeis, pobres, idosos, crianças.  Na igreja não falamos só de solidariedade, mas de caridade. O que fazemos aos outros, fazemo-lo por amor a Deus e ao próximo. A caridade é o fundamento da própria fé e da presença de Deus. É a prática das Bem-aventuranças e também, de modo especial, das obras de misericórdia. Neste tempo em que se fala tanto dos frágeis, vemos esta fragilidade sobretudo nas pessoas idosas. 

“A Unidade de Alzheimer não é um lar. O lar é uma estrutura residencial de pessoas idosas. Esta Unidade destina-se ao cuidado de pessoas que estão diagnosticadas com a doença de Alzheimer. É uma unidade exclusiva para estes casos” – Pe. Bernardino

Como a comunidade percebe esta acção da igreja?

Pe. Bernardino Trindade – Sobre a perceção da comunidade local, temos uma faca de dois gumes. Há quem veja muito bem, pois está em sintonia com o próprio evangelho. O que nos move como igreja, e particularmente como padre e como dehoniano, é o amor a Deus e ao próximo. Não outras realidades. Mas há também quem deite abaixo. Nestas instituições há sempre alguém insatisfeito, faz parte do ser humano. Agora ser maldizente e ser mordaz na crítica e nas atitudes, isso é o que lamento. Mas talvez seja por causa do contexto pequenino onde estamos. O mar que nos devia abrir horizontes, se calhar também nos limita…

Como foi a aquisição deste edifício? 

Pe. Bernardino Trindade – Foi um momento oportuno, quando nós adquirimos este espaço em 2014, onde estava a antiga Panriva que entrou em insolvência. Nós já tínhamos este projeto, que era preciso dar uma resposta a estes doentes de Alzheimer, pela nossa experiência aqui no Lar.  Vimos que este prédio estava bem situado e tinha as condições, ao nível do tamanho que nós precisávamos. No dia 24 de dezembro de 2014, depositamos a caução que era obrigatória para a aquisição, de 50 mil euros, e o prédio custou 250 mil euros. O processo foi andando. Parece que não apareceram outras propostas. Então foi-nos entregue, através do tribunal, todo este prédio no centro da Ribeira Brava. Antes disso, tive o cuidado de falar com o senhor presidente da câmara, a perguntar se ele não queria comprar isto para a Casa da Cultura, o famoso auditório ou outras coisas. Não se proporcionou. Então foi quando disse que o Lar ia avançar, com esta finalidade. Ele apoiou. Portanto, foi nessa conjugação de conversas e esforços que surgiu esta oportunidade. Finalmente, começamos a lançar os projetos, em conversa com o Governo Regional e diversas secretarias, para a possibilidade de colocar isto no programa Madeira 14-20. O custo da obra é um milhão e 42 mil euros e alguns cêntimos e temos a participação de 80% do programa Madeira 14-20 e 20% do Lar. Significa que vamos receber 800 mil euros. Meia fatia está recebida. Realmente foi uma verba astronómica. Agora está a funcionar e é uma resposta social. Aqui não se olha aos gastos, ao investimento que foi necessário. O que interessa é o bem que vai realizar na comunidade. Como sabemos, esta Unidade não é só para a Ribeira Brava, vai funcionar para toda a Madeira, porque estamos numa zona central. A conjugação entre Segurança Social, Lar de São Bento, famílias e sociedade civil está ao serviço da qualidade de vida, naturalmente dos idosos, mas também das famílias. Por isso não olho tanto para os gastos, olho mais ao bem que é feito. 

Entrevista à Dr.ª Bina Pereira, diretora técnica da Unidade de Alzheimer Dragoeiro

Na segunda-feira, dia 20 de setembro, a Unidade de Alzheimer vai iniciar a sua atividade. Pode explicar como vai ser este início?

Dr.ª Bina Pereira – Nós temos capacidade para 18 pessoas a nível de internamento e 45 a nível da unidade de dia. A partir do dia 20, vamos receber os primeiros utentes. São utentes que vêm do nosso Lar, que têm a demência de Alzheimer e já que o centro possuiu uma resposta específica a estes doentes, achamos por bem estes nossos utentes, que já estão integrados na nossa reposta social, passarem aqui para esta unidade. Serão as primeiras pessoas a entrarem cá. Teremos uma semana para adaptação, onde está a equipa já toda preparada para recebê-los e para trabalhar com eles nesta fase de integração. Posteriormente, na semana seguinte, começaremos a receber os processos que nos vêm encaminhados da Segurança Social, de pessoas do exterior. Também teremos casos para a unidade de dia. Um deles passará do centro de dia de São Bento para aqui, porque é uma pessoa que tem a demência de Alzheimer, e já temos alguns processos encaminhados do instituto de Segurança Social, para integração em centro de dia.

Como é composta a equipa da Unidade de Alzheimer?

Dr.ª Bina Pereira – É uma equipa multidisciplinar que irá trabalhar com estas pessoas a nível da estimulação cognitiva. Sabemos que a doença de Alzheimer não tem cura, infelizmente, não podemos oferecer esse bem às pessoas, mas podemos oferecer um trabalho cognitivo que sabemos que tem grandes resultados, e está comprovado que é a intervenção mais benéfica para este tipo de demência. E tentar retardar ao máximo a progressão da doença. 

Esta é uma unidade de prestação de cuidados. Não é uma unidade hospitalar, mas prestamos cuidados a nível mental, psicológico, de apoio emocional. Acho que é nessa dimensão do cuidar que diferenciamos. Ir ao encontro das especificidades desta demência e cuidar das pessoas com esta demência, e poder partilhar momentos de bem-estar, estabilidade, quer seja com o utente, quer seja com a família.

Temos uma psicomotricista, a Dr.ª Sara Teixeira, que irá trabalhar o psíquico e o físico, aplicando algumas intervenções para estimular tanto o movimento como o nosso trabalho mental, exatamente nessa amplitude do corpo humano. Temos uma psicóloga. a Dr.ª Margarida Abreu, que irá trabalhar nessa estimulação e avaliação contínua do diagnóstico da demência da doença de Alzheimer. Temos também uma gerontóloga, que se tem aperfeiçoado no conhecimento da doença de Alzheimer. Depois, temos um grupo de ação direta que já está contratado e a quem demos formação com pessoas ligadas à enfermagem e à psicologia que situaram estes profissionais de como prestar cuidados a um doente de Alzheimer: os cuidados de higiene, os cuidados de alimentação que são importantes. O bem-estar geral dos doentes não vem só da estimulação, vem tanto do bem-estar físico, como mental, e temos aqui esta equipa multidisciplinar preparada para este tipo de intervenção. Depois contamos com alguns apoios ao nível de um nutricionista, uma neurologista e um médico de saúde familiar. 

Da sua parte, como foi abraçar este projeto? 

Dr.ª Bina Pereira  – Eu tenho formação em Educação Sénior, fiz a minha licenciatura na Universidade da Madeira. Já estou há oito anos no Centro Social e Paroquial de São Bento. Já tive experiências em centro de dia, centro de convívio e no Lar de São Bento. Trabalhei com grupos onde havia pessoas ditas com “envelhecimento normal” e outras pessoas com demência. É um pouco difícil coordenar atividades para este grupo diversificado, porque as pessoas com esta demência apresentam comportamentos diferentes do envelhecimento dito “normal”. Precisam de uma atenção e precisam de uma estabilidade emocional e espaço físico muito controlado. Numa casa destas, tenho oportunidade de intervir em separado com pessoas com demência de Alzheimer. Neste momento, estão a ser-me dadas todas as condições para fazer um bom trabalho. Estou motivada no sentido de aplicar este projeto. Julgo que teremos sucesso e faremos o bem, tanto aos utentes, como às famílias. Sabemos que é muito difícil para as famílias. É difícil nós assistirmos no dia a dia a um nosso familiar que já não nos reconhece. Por isso, também estamos muito direcionados na unidade de dia para este apoio à família. Não só dar o bem-estar emocional aos utentes, como também aos familiares.

“Esta é uma unidade de prestação de cuidados. Não é uma unidade hospitalar, mas prestamos cuidados a nível mental, psicológico, de apoio emocional. Acho que é nessa dimensão do cuidar que diferenciamos” – Dr.ª Bina

O que se poderia dizer às famílias que lidam com esta demência?

Dr.ª Bina Pereira  – Em primeira mão, acho que devemos dizer a estas famílias que não devem ter preconceitos em colocar o seu familiar aqui no Centro. A Unidade de dia é uma unidade aberta ao exterior, no sentido do utente vir cá passar o dia e usufruir da estimulação, das práticas que nós vamos aplicar. Podemos comparar a uma escola. Essa ideia de vir cá depositar o seu familiar, num lar, já está ultrapassada nos dias de hoje. Apelo que as famílias nos vejam como um centro de apoio que pode intervir no sentido do não avançar da demência no seu familiar. É um horário alargado. Não significa que a pessoa esteja cá o tempo inteiro e os dias todos. Podemos articular de forma a que venham, por exemplo, três ou quatro dias por semana. O horário pode ser estipulado connosco, não tem de cumprir o horário desde o início da manhã até ao final da tarde. 

Aqueles que permaneçam em casa com os seus familiares, nós temos sempre a boa prática de apelar para que respeitem cada pessoa na sua individualidade, apliquem sempre tudo aquilo que os possa estimular, e ainda aquilo que os torne capazes. Porque não deixam de ser capazes de fazer, apenas fazem num “timing” um pouco mais reduzido que o nosso. Devemos preservar as capacidades que eles ainda mantêm, e deixá-los fazer, sempre com alguma vigilância, aquilo que ainda são capazes, e tentando fazer sempre por eles. Se acharmos que já não são capazes de andar, de fazer uma tarefa no jardim, de plantar, eles deixam de fazer. E rapidamente tornam-se, aí sim, incapazes.