As crises de Francisco

Foto: Jornal da Madeira

Nesta semana tive a graça de realizar um tempo de retiro. Durante as refeições, feitas em silêncio, foram lidas algumas passagens de um livro em que o Papa Francisco falava das suas três situações de “Covid” pessoais, ou seja, situações de “paragem” ou de crise.

“A minha primeira experiência de limite, de dor e de solidão foi quando adoeci com gravidade, aos 21 anos. Isso mudou a minha forma de ver a vida. Durante meses, não sabia quem era e se iria viver ou morrer”, disse o Papa no livro, “Sonhemos juntos. O caminho para um futuro melhor” (2021). Quando chegou ao hospital retiraram do pulmão um litro e meio de água. “Ali fiquei a lutar pela vida” afirmou Francisco. Alguns meses depois de ter sido internado foi-lhe retirado o lóbulo direito superior de um pulmão.

Deste momento difícil, o Papa saiu “melhor” e “mais realista”. “A doença grave que vivi ensinou-me a depender da bondade e sabedoria dos outros. Os meus companheiros seminaristas vieram doar sangue, visitar-me e acompanhar-me, noite após noite”.

Ao segundo momento, Francisco chamou de “Covid do desterro”. Passou-se na Alemanha, em 1986. O Papa tinha ido estudar o alemão e fazer investigação para a tese. “És tirado de onde estás e enviado para o desconhecido, e nesse processo aprendes que o que é realmente importante é o lugar que deixaste”.

A terceira situação foi entre os anos 1990 e 1992, quando o Papa foi enviado para Córdova, uma cidade entre montanhas, situada no centro da Argentina. “Passei um ano, dez meses e treze dias nessa residência jesuíta. Celebrava missa, confessava e oferecia orientação espiritual, mas praticamente nunca saía de casa, a não ser para ir ao correio”. Nesse período, Francisco sentiu-se “como quando te retiram do campo num jogo de futebol e te mandam para o banco de suplentes”. Esse tempo também foi importante. “A ‘Covid’ de Córdova foi uma autêntica purificação. Deu-me maior tolerância, compreensão e capacidade de perdoar”.

Sobre estas três situações de “Covid” pessoais, Francisco diz que: “O que aprendi é que se sofre muito, mas se permitirmos que o sofrimento nos mude, saímos melhores. Mas se nos entrincheirarmos, saímos piores”.

Qual será o maior fruto de uma “Covid” pessoal? Baseado na sua experiência, o Papa responde: “Eu diria que é a paciência, condimentada com um sadio sentido de humor, que permite que aguentemos e criemos espaço para a mudança”. Sendo assim, resta-nos dizer: Oh, ditosas crises!