“A renovação da linguagem é absolutamente essencial”

O padre jesuíta Nuno Tovar de Lemos orientou o retiro do Clero

Ao longo desta semana, de 6 a 10 de setembro, o padre Nuno Tovar de Lemos, esteve a orientar, na casa de retiros do Terreiro da Luta, o retiro do clero da Diocese do Funchal, que contou com 13 participantes. 

O padre Nuno Tovar de Lemos, 60 anos, é natural de Lisboa. Entrou para a Companhia de Jesus com 24 anos e foi ordenado sacerdote em 1995. Durante 20 anos esteve ligado à pastoral universitária. Atualmente integra a comunidade jesuíta no Algarve onde é diretor da casa de retiros da diocese e pároco em Portimão. A meio da semana de retiro, o Jornal da Madeira esteve à conversa com este jesuíta. 

Durante esta semana está a orientar o retiro do Clero da Diocese do Funchal. Quais foram as suas propostas de reflexão e oração? 

P. Nuno Tovar de Lemos – O retiro ainda vai a meio, mas tenho feito uma série de propostas diferentes, não é um retiro propriamente de conferências. É um retiro onde eu lanço alguns temas e depois dou sugestões para a oração individual. Já sugeri um primeiro tempo de oração, para cada um fazer a revisão deste ano, do ano que passou. Tentasse perceber o que aconteceu, como é que está, como é que não está. Como é que eventualmente Deus está a agir na sua vida. Também fiz uma proposta para recordar as agressividades que muitas vezes sofremos e que muitas vezes também somos nós a fazer os outros sofrer, a partir da parábola do bom samaritano. Agora estamos a ver uma série de textos do evangelho, onde vemos Jesus a atuar e tentamos aprender com Jesus a maneira de sermos padres. 

Foto: Jornal da Madeira

Pedras Vivas 12 de setembro de 2021 (A4)

Pedras Vivas 12 de setembro de 2021 (A3)

Estamos a iniciar um novo ano pastoral. Que elementos considera importantes para um recomeço?

P. Nuno Tovar de Lemos – Todos os anos recomeçamos, mas este ano há uma situação muito particular que tem a ver com o Covid. Recomeçar a partir do Covid. O Covid ainda não é uma questão do passado. Ainda está presente com uma série de restrições. Creio que os elementos principais para recomeçar são sempre, primeiro, o entusiasmo, que no nosso caso é fácil porque estamos ao serviço de Deus, é importante ir buscar aí a nossa força. Segundo elemento, a criatividade. É muito fácil nos tornarmos rotineiros, repetidores. Nesta situação de Covid, muitas vezes o que se fez foi simplesmente deixar de fazer algumas coisas. Podíamos ter aproveitado a situação para pensarmos em coisas novas, algumas criativas e creio que em muitos sítios se fez isso.

Que fazer para encontrar criatividade?

P. Nuno Tovar de Lemos – A questão muitas vezes não é a criatividade, é o entusiasmo, ou falta de entusiasmo, ou aquilo que em linguagem cristã se chama a esperança. A esperança é uma virtude teologal, é um dom do Espírito Santo. Primeiro, quanto mais unidos a Deus de coração, tanto mais esperança temos porque a nossa força vem d’Ele não vem nossa. Mas depois também creio que muitas vezes deixamos que se instale dentro de nós um certo desânimo. Estou a falar da população em geral. Há um grande desânimo na nossa cultura ocidental. Mas também curiosamente, por vezes, dentro de certas paróquias e de certos grupos de igreja, não todos, um certo desânimo, que é preciso combater, tal como combateríamos alguma grande tentação que soubéssemos que vem do diabo. Outras tentações, nós enfrentamo-las e chamamos pelos nomes, o desânimo achamos que é normal passarmos a vida a queixar. E não percebemos que é obra do diabo e que tem que ser combatido. Acho que os padres têm aqui um papel muito importante. Não é o papel de fazer tudo, mas é o papel de comunicar o entusiasmo, de potenciar quem tem vontade de fazer coisas, mesmo que sejam coisas diferentes daquelas que se faziam. Nós, padres, não podemos ser daqueles que cortam as pernas a quem quer fazer, pelo contrário, devemos potenciar quem na comunidade quer fazer, desde que evidentemente aquilo que queira fazer esteja dentro do objetivo da comunidade. 

Para além do entusiasmo e criatividade, que outras sugestões para este recomeço?

P. Nuno Tovar de Lemos – A principal sugestão que poderia dar é haver um ambiente de conversa nas nossas paróquias, de participação. Muitas vezes estamos habituados a que seja o padre a fazer tudo, isso é terrível porque o padre não pode fazer tudo, porque há muito a fazer e o padre não tem tempo, mas também o padre não tem o carisma para fazer tudo. O padre tem o carisma para potenciar o outro e fomentar a união dentro da comunidade e da comunidade com a Igreja. Promover conversas, sobretudo entre pessoas mais ativas, com vontade de fazer coisas. Conversas misturadas com oração. Deste processo que poderíamos chamar, assim genericamente, de discernimento, muitas vezes surgem ideias que resultam da conversa. É claro que tem que haver uma cultura de liberdade para se experimentar coisas novas.

“Não há outra forma de fidelidade à tradição da Igreja, nem ao Evangelho. Não há outra forma de fidelidade que não seja a fidelidade criativa, buscar novos caminhos”.

Durante muitos anos acompanhou jovens da pastoral universitária. Pela sua experiência como podemos chegar aos jovens? 

P. Nuno Tovar de Lemos – Algumas ideias gerais. Primeira ideia geral: não se pode trabalhar para jovens sem trabalhar com os jovens. Ou seja, não somos nós padres que temos as soluções e que temos as ideias. Um aspeto muito importante do nosso trabalho com os jovens, falo do trabalho dos jesuítas, concretamente com estudantes universitários, foi termos sempre connosco uma equipa de estudantes que convidávamos. Todo os anos convidávamos elementos novos. Uma equipa para pensar a pastoral connosco e depois levar a sério a conversa dentro dessa equipa. Tipicamente são uns 12 estudantes. Mas estou a falar de centros universitários que já estão a funcionar há muitos anos, onde se conseguem convidar 12 estudantes para serem parceiros, nem sempre é fácil. 

A primeira coisa para o trabalho com jovens é nós escutarmos os jovens e trabalharmos com alguns jovens para outros jovens. É a primeira coisa. Segundo: aprender a linguagem. Se eu quero fazer um trabalho pastoral com alemães, eu posso saber italiano lindamente, mas não adianta nada, tenho que saber alemão. O que acontece é que nós, padres, falamos e o jovem nem percebe sequer de que é que estamos a falar. Não é concorda ou não concorda. Não percebe do que estamos a falar sequer. 

Outra coisa muito importante são as relações pessoais de amizade. Qualquer pastoral se baseia num querer bem às outras pessoas, que têm nomes, que não são grupos, que são pessoas concretas com histórias concretas. A relação pessoal é muito importante. Às vezes não saímos do nosso pedestal, nunca temos uma relação pessoal, é sempre institucional. Alguns jovens até ficam espantados quando conhecem o padre pessoalmente, porque desde pequeninos, os que foram à missa, estão habituados a vê-lo no altar. 

Depois, dentro de cada pessoa e, concretamente, dentro de cada jovem, há uma sede muito grande, que é ultimamente uma sede de Deus. Uma pastoral baseada só em animação, mas que não dê conteúdos, não dê coisas para a alma, até pode atrair jovens para algumas festas e uns peddy-pappers mas depois, na prática, não fideliza, porque não há aquilo que nós mais procuramos que é o alimento para a alma. Como se faz isso? Sem os nossos clichés eclesiais, falando aos jovens na sua linguagem e respondendo às suas necessidades. Tem que se fazer com eles e com treino e ir avaliando.     

Depois, o trabalho de pastoral com jovens é muito um trabalho de estar. Nós estamos habituados na nossa cultura a fazer atividades. Não podemos ter um centro para estudantes onde nós vamos às terças e às quintas. Se é para ter um centro, temos que estar lá. E é preciso sacrificar outras coisas para poder estar. Porque muitas vezes o mais importante do trabalho com jovens nem acontece durante as “atividades”, acontece nos momentos completamente informais. Para isso é preciso tempo como Jesus tinha, quando se sentou ao poço com a samaritana, ou quando estava com os apóstolos. É preciso tempo para estar. Não é só um ativismo de fazer atividades bombásticas. E fazer coisas que nós achamos que vão ser muito cativantes para os jovens. Depois acho que não se deve tentar seduzir jovens. Acho que isso é uma falta de respeito. Nem jovens, nem ninguém. Seduzir significa atrair para si. Sempre me irritou quando diziam que nós, jesuítas, tínhamos um bom marketing. O nosso marketing consiste em não querer fazer marketing. Fazer tudo isto que eu disse antes, mas sendo quem somos, sem truques. 

Na paróquia onde está há uma vertente de solidariedade, como se desenrola esse trabalho?

P. Nuno Tovar de Lemos – A nossa paróquia tem uma tradição muito antiga de solidariedade. Temos um centro social, temos um dispensário de roupa, tínhamos um centro de dia que agora com o Covid está suspenso, e temos um refeitório social para os amigos da rua, onde vão comer ao almoço. Servimos entre 70 a 80 almoços. E não é só servir o almoço: é procurar ter um ambiente acolhedor, onde eles sejam conhecidos pelos nomes e muitos já lá vão há muitos anos, portanto conhecem. Este trabalho é todo baseado em voluntários. Temos só uma pessoa assalariada. A maior parte dos bens chegam-nos por donativo de pessoas individuais ou por hotéis, mercado e lota, porque o centro é conhecido na cidade. Aqui, a única coisa que estou a fazer é tentar dar continuidade. Não comecei nada. Acho muito importante uma comunidade cristã ser uma comunidade de fé e uma comunidade de caridade. Nem só uma coisa, nem só outra. Mas as duas complementam-se e que a parte da caridade, de preferência, não seja tão institucionalizada que os paroquianos depois não tenham um lugar aí. Porque acontece muitas vezes, como o trabalho social é muito difícil. É preciso financiamentos e começam-se com acordos com a segurança social e outros acordos, está muito bem, mas depois com o andar dos tempos cria-se uma instituição paralela à paróquia. Onde os paroquianos, de facto, nem sequer conhecem, não são eles que lá trabalham. Quanto muito, ouvem falar nas missas às vezes. Até podem dar algum dinheiro de vez em quando, mas não estão pessoalmente envolvidos.

Foto: Jornal da Madeira

Como vê a Igreja na atualidade? Como lê os “sinais dos tempos”?

P. Nuno Tovar de Lemos – O primeiro pressuposto: estamos numa fase de transição. De transição cultural. O nosso mundo ocidental, concretamente, está em mudança. O Covid veio acelerar essa mudança. Não veio provocar, veio acelerar. Segundo: a Igreja também está em fase de mudança porque a igreja não existe independentemente do mundo. Dentro da Igreja a situação é de alguma instabilidade, de alguma insegurança. Como sempre, em fases de mudança, a sensação que fica é de alguma insegurança e pode-se reagir a essa insegurança de duas maneiras: ou tentando agarrar o passado e voltar ao que foi; ou então desbravar caminhos novos para o futuro. O que o Papa Francisco vem dizer é que a única solução é a segunda. A primeira dá uma aparente segurança, é uma aparente resposta, mas de facto não responde nada, apenas atrasa os processos. Nisto de encontrar os caminhos novos, se tivéssemos um mapa com os caminhos já feitos, seria muito bom. Mas não temos. Temos uma bússola, temos a fé, temos Nosso Senhor Jesus Cristo, temos a Igreja, a tradição da Igreja, que não dá respostas, mas que abre caminhos para se experimentarem coisas novas. Portanto, eu creio que esta fase é muitíssimo importante e como qualquer fase de mudança é essencial: primeiro, agarrarmos a Deus e ao essencial do Evangelho. Se calhar muitas coisas já caíram, outras irão cair, mas não se pode deitar fora a água e o menino. Portanto, agarrarmos o essencial. Quanto mais centrados no essencial, tanto mais livres para poder ver para onde é o caminho. Depois, muita oração. Porque senão caímos em lutas ideológicas. Uns querem puxar a manta para a direita, outros querem puxar a manta para a esquerda. Não. Isto vai à base de muita oração, porque nós acreditamos que o Espírito Santo é que conduz a Igreja e que o Espírito Santo mostrará caminhos. Não podemos ficar nas nossas ideologias. Temos que estar próximos de Deus, rezar e pedir ao Espírito Santo que ilumine, e a conversar uns com os outros acerca do que cada um sente. Aqui a questão da sinodalidade é absolutamente essencial, como o Papa Francisco tem referido, mas não é só a sinodalidade aos mais altos níveis, é a sinodalidade também nas paróquias. Que os padres saibam promover ambientes onde se reze, onde se converse e onde se abram caminhos para o futuro. A situação não é nova. A história da Igreja sempre foi uma história com momentos chave, a ter que se refazer com base no essencial. Isto é o normal para a Igreja.

Por vezes, usa-se a expressão fidelidade criativa. Costumo dizer que é uma redundância, porque toda a verdadeira fidelidade é criativa. Ou seja, a fidelidade repetitiva não é fidelidade, é infidelidade. Eu repetir o passado é infidelidade, porque repetir num outro contexto o que se fez antes, é estar a fazer uma coisa diferente do que se fez antes. As coisas têm o seu tempo, têm o seu contexto. Não há outra forma de fidelidade à tradição da Igreja, nem ao Evangelho. Não há outra forma de fidelidade que não seja a fidelidade criativa, buscar novos caminhos. Por muito que isso provoque alguma insegurança. 

“a questão da sinodalidade é absolutamente essencial, como o Papa Francisco tem referido, mas não é só a sinodalidade aos mais altos níveis, é a sinodalidade também nas paróquias. Que os padres saibam promover ambientes onde se reze, onde se converse e onde se abram caminhos para o futuro”.

Como estabelecer o diálogo com os cristãos afastados da igreja?

P. Nuno Tovar de Lemos – O Papa Francisco tem falado de uma Igreja em saída e tem dito que a vocação missionária da Igreja é absolutamente primordial. Um ponto muito importante é a linguagem. Temos de distinguir dois tipos de linguagem. A linguagem do Evangelho e a linguagem clerical. A linguagem do evangelho fala de senhoras que perderam moedas e que varrem a casa à procura das moedas, fala de sementes que se lançam à terra e que crescem não só de dia quando o lavrador está lá, mas também de noite quando ele está a dormir. A linguagem do Evangelho é completamente acessível a qualquer pessoa, o que não é acessível a qualquer pessoa é a linguagem clerical, são os clichés, são as palavras caras. Para o trabalho missionário da Igreja, a linguagem clerical é um muro e é um enorme impedimento, porque faz com que falemos alemão para italianos. Não se percebe. Mas os de dentro também não percebem, na maior parte das vezes. A renovação da linguagem é absolutamente essencial. 

Depois, também termos uma vivência cristã centrada no essencial. As vezes as nossas energias vão só para a música do salmo se é esta música ou se é aquela. Tudo coisas boas. As rubricas litúrgicas, os papéis do cartório. Tudo coisas que são importantes mas que são relativas, não absolutas, ou seja, são meios para o fim. As pessoas que por acaso entram na igreja porque vão a um funeral, ou vão a um casamento, muitas vezes veem rituais repetidos, uma linguagem que não se entende, não veem muita esperança ou muita alegria na comunicação. Como já tenho ouvido de várias pessoas: “Quando vou, saio mais vazio do que entrei”. O problema não é arranjarmos um marketing para atrair as pessoas. O problema é sermos fiéis ao essencial. Se formos fiéis ao essencial, as pessoas, ao terem algum contacto com a Igreja, sairão mais cheias do que entraram e da próxima vez vão trazer um amigo. Temos que pôr em questão a nós próprios e aqui o desafio creio que é sempre agarrarmos o essencial, voltarmos para o essencial e por causa disso termos liberdade interior para rever o que for preciso rever.

Também nos deve levar a pensar porque é que alguns movimentos da igreja têm tanta gente e outros não. E porque é que alguns fenómenos religiosos, de facto, têm hoje em dia tantas pessoas. Claro que podemos ter muitas reservas em relação a alguns desses fenómenos religiosos. Estou a pensar em igrejas novas que nasceram, que apelam muito à sensibilidade e emotividade. Evidente que teríamos algumas questões a pôr-lhes, mas por outro lado, se calhar, temos alguma coisa que aprender. 

“A linguagem do Evangelho é completamente acessível a qualquer pessoa, o que não é acessível a qualquer pessoa é a linguagem clerical, são os clichés, são as palavras caras”.

Finalmente, gostaria de perguntar, onde se insere na sua vida a dedicação à escrita e à publicação de livros? 

P. Nuno Tovar de Lemos- Não foi assim uma coisa que eu antecipei. Aconteceu. O primeiro livro foi um editor que conhecia algumas conferências que tinha feito em forma narrativa, com histórias, e andou atrás de mim mais de um ano para publicar. Não estava muito convencido, mas depois acabou por ser uma experiência da qual eu tive de tirar conclusões. E as conclusões são: isto pode fazer bem a pessoas. Segundo, isto chega a pessoas onde habitualmente eu não chego, através do trabalho mais eclesial, dentro das nossas instituições. E, portanto, essa preocupação missionária. Um livro pode ajudar a levar a palavra mais longe e aproximar algumas pessoas da igreja. Eu tenho histórias dessas. É muito bonito e muito gratificante. Um livro a partir do momento em que está escrito, voa e a pessoa não sabe o que vai provocar. Se calhar provocou algumas coisas más os livros que escrevi mas, essas, as pessoas não me dizem tanto. 

Um dos meus livros foi traduzido em várias línguas. É incrível ter notícias de vidas que mudaram no México, por exemplo, como soube há pouco de uma. Um rapaz que entrou na companhia de Jesus. Um livro meu ajudou-o na sua conversão. 

Hoje em dia tenho vários projetos e sei que são coisas importantes, mas, claro, um livro exige, pelo menos a mim, imenso tempo. Tem que se deixar de fazer outras coisas. Sei de outras coisas que Deus já me pediu. Fico sempre a ver quando é que sobra tempo para escrever. 

Foto: Jornal da Madeira

(atualizado a 13.09.2021 às 10h42)