Filhos das luzes e das trevas

D.R.

“ …um homem que caminhava na noite fria de Primavera ao som da Ode à Alegria de Beethoven.

Percebia-se que o momento era solene, que a marcha era iniciática e que a encenação fora pensada ao pormenor.

À medida que o caminhante progredia, viam-se as fontes, os repuxos e a frontaria do maior palácio da Europa…No podium, abre um sorriso adolescente, cansado e feliz…”

A Europa está de olhos postos nele, no espírito das Luzes, qual candeia destinada a ser a luz do mundo, não a da mensagem divina envolvida nas trevas do cristianismo, mas da luminária herdada da Revolução Francesa, envolta em Liberté, Egalité e Fraternité.

Os novos iluminados, herdeiros do Iluminismo, denunciam e pretendem esmagar os bárbaros e os hereges que não professavam a fé laica do humanismo e vivem nas trevas da ignorância e do preconceito.

Este candidato eleito, Macron, filho das Luzes, secundado pelos poderes do mundo – pelas élites do dinheiro e da política, os media, os intelectuais de referência, as estrelas do show business, unindo neoconservadores e LGBTs, afirmando-se ideologicamente de toda a parte e de parte nenhuma, prosseguiu demonizando a Besta Loira, Le Pen, candidata e sua adversária. 

Na noite de 7 de maio de 2017, um pouco à tangente, nas palavras do vencedor, na Pátria das Luzes, aconteceu a vitória do bem sobre o Mal. 

Já não ao som da Marselhesa, hino nacional, mas ao som da Ode à Alegria, hino europeu, a nova versão das Luzes surge em tons de globalização económica irreversível, mundo sem limites, moral libertária, sem preconceitos, tabus ou outros. 

Imperará agora a gestão dos desejos, das necessidades, onde o cidadão é um mero cliente, na procura de maior felicidade, a curto prazo, sem dó nem piedade.

Pode o leitor não apreciar política, nem tão pouco algumas associações. Este texto foi inspirado no livro “Bárbaros e Iluminados”, de Jaime Nogueira Pinto. O que sinceramente me seduziu foi o fair play do autor, num tom de ironia sarcástica, muito seguro do que diz, porque sabe e sabe que sabe. Não obstante não se considerar um iluminado e admitindo mesmo que alguns leitores não se identifiquem com as suas ideias, um facto é que os seus livros são verdadeiras aulas de História.

Gustavo de Almeida, analista e investigador