“Com o campo, dá-me mais vontade de voltar para a Igreja”

O campo de férias “Buzicos” reuniu 43 participantes

Realizou-se entre os dias 22 a 27 de agosto na Quinta de São Jorge o campo de férias “Buzicos” que reuniu 43 crianças e adolescentes dos 11 aos 18 anos. O evento contou com a organização de uma equipa de 2 diretores e 16 animadores e com o acompanhamento espiritual dos padres Carlos Almada e João Gonçalves. O Jornal da Madeira recolheu testemunhos de alguns animadores e participantes*. 

Leonardo, 21 anos, co-diretor

O que é o “Buzicos”?

Leonardo – O “Buzicos” é um desafio, temos a enorme responsabilidade de ter crianças connosco. A nossa missão não é só fazermos os jogos ou termos preparado a logística, as tendas, as refeições, a segurança, mas o mais importante é levarmos Deus a estas crianças e mostrar-lhes que o encontro com Jesus não é só na missa aos domingos, mas também pode estar nas brincadeiras, nas tarefas, no lavar pratos, nas brincadeiras na lama… E tornar tudo um pouco mais alegre.

Porque considera o “Buzicos” como um desafio? 

Leonardo – Eles vêm sem telemóveis, não têm relógios. Não fazem ideia das horas, dos dias. Não estão nas redes sociais. É um pouco o largar essas dependências que os jovens e as crianças já vão tendo e se concentrarem naquilo que realmente importa e nas pequenas coisas. Em vez de necessitarem do telemóvel para irem ao Instagram ou Tik Tok, divertem-se com uma bola com os amigos, com as ervas, com a lama, jogos simples. É essa simplicidade que nós queremos que eles vejam e que encontrem quando voltarem a casa”. Aqui estão todos em igualdade de circunstâncias. Aqui ninguém tem mais do que o outro. Estão todos na mesma tenda, todos sem telemóveis, todos sujos, todos a comer na roda. 

É uma desconstrução, ao mesmo tempo que integramos o essencial. Temos todos os dias missa e fazemos questão que as crianças se envolvam, seja a preparar as leituras, seja a acolitar, seja eles próprios a escolherem as canções, a trazerem os seus instrumentos e a tocarem”.

Estes eventos são importantes para a sua vida?

Leonardo – É muito gratificante. Começamos a preparar o campo há alguns meses e tudo realiza-se aqui com o sorriso das crianças. Às vezes não é tanto o nosso testemunho, mas é o testemunho deles, que eles têm e às vezes não sabem. Eles nos ensinam imenso. A maior riqueza é durante o campo. Crescemos com eles e os testemunhos deles. Histórias de vida incríveis.

Foto: Jornal da Madeira

Pedras Vivas 05 de setembro de 2021 (A4)

Pedras Vivas 05 de setembro de 2021 (A3)

Margarida, 21 anos, co-diretora

Como surgiu a sua participação neste campo?

Margarida – Eu fiz “Buzicos” a primeira vez em 2018, há três anos. A pessoa que começou cá, o Francisco Barcelos, era muito meu amigo e teve a ideia do campo assim numa noite de “Missão País” em que eu estava presente, e por isso acabou por me convidar.  Este ano convidaram-me para ser diretora e eu aceitei. 

Como é a organização do campo ?

Margarida – Os dias têm mais ou menos a mesma estrutura. Começamos com uma oração da manhã, depois pequeno almoço, depois temos um jogo da manhã, o almoço e a seguir ao almoço tarefas em que os miúdos ajudam a limpar o campo, a lavar a loiça, para eles próprios estarem integrados na construção do campo  e não ser simplesmente uma coisa que lhes aparece, aprendendo também o que é servir os outros e a ajudar a construir isto. À tarde temos um jogo e à seguir temos missa todos os dias, jantamos, temos a “novela”, que é um momento de palhaçada preparado pelos nossos animadores, e terminamos com o jogo da noite e a oração da noite. Alguns dias são um bocadinho diferentes. Este ano fizemos um dia ao contrário, em que trocámos a estrutura do dia para eles aprenderem a confiar. O tema do dia era ser corajoso. Então achámos que era uma boa maneira de sermos corajosos, viver com o desconhecido de um dia que está trocado.

Como é estruturada a missão dos animadores?

Margarida- Conto com o Leonardo, que é co-diretor. Temos uma cozinha, é a “mamã”, a Clara, e o “tios”, a Maria e o Jonathan que cozinham todas as refeições e são um bocadinho a família do campo. As pessoas que os miúdos identificam como figuras maternais e paternais são a estrutura familiar. Mostrar que é à volta de uma família que tudo se constrói. Temos uma equipa de 14 animadores. Metade são animadores de equipa, que estão sempre com uma equipa de miúdos, e a outra metade são animadores livres. São os animadores que organizam os jogos e garantem que tudo acontece às horas que pensámos. 

Como integra estes eventos na sua vida de fé? 

Margarida – Na minha vida pessoal encontrei uma alegria enorme, que é a alegria de seguir Cristo. E por isso quando há um projeto destes, que eu vejo que me permite transmitir esta alegria a outras pessoas e a particular a crianças, mais ou menos a idade em que eu também fui tocada por Cristo, não posso dizer que não e é por isso que, ano após ano, tenho aceite fazer parte deste projeto, um bocadinho com esta missão de levar Cristo aos outros, de levar Cristo às periferias. Eu sou de Lisboa e sempre cresci num ambiente onde havia imensos movimentos e propostas para os jovens viverem a fé de maneira alegre e é muito bom estar a participar agora nisso aqui na Madeira.

É o terceiro ano que venho, eu gosto mesmo muito disto, encaro isto como uma missão. Quando encontrei uma coisa tão grande para mim, não posso dizer que não a comunicá-la aos outros, e que os outros a possam encontrar como eu encontrei.

Foto: Jornal da Madeira

Maria, 21 anos, animadora

Qual foi a sua missão neste campo?

Maria – A minha missão neste campo foi fazer parte da equipa da cozinha, sou a “tia”. Foi uma missão que me encheu o coração. É uma grande responsabilidade ficar responsável pela alimentação destes miúdos todos e dos animadores. Sinto que foi um desafio. Nunca cozinhei na vida para tanta gente, mas sinto que correu muito bem e é muito bom ver toda a gente sentada à espera das nossas refeições, vê-los a servir e a comer com alegria. Foi muito bom. 

Como conseguiu conciliar o trabalho na cozinha com a ligação com os miúdos?

Maria – Passamos realmente bastante tempo na cozinha. No início foi difícil gerir isso, mas nós somos uma equipa que conseguimos revezar uns aos outros e temos sempre os diretores e outros animadores a nos apoiar e sinto que, enquanto tia, nós andamos sempre com um avental, trazemos uns docinhos no bolso. Os miúdos sabiam que nós tínhamos aqueles docinhos, vinham ter connosco. E o facto de estar na cozinha é bom porque nós não temos uma equipa, temos os miúdos todos. Eles vêm ter connosco, sabem que nós somos a “família” do campo. Sinto que foi bastante fácil, conseguir conciliar o trabalho na cozinha com a integração no campo”. O “tio” Jonathan e a “mamã” Clara também foram bastante importantes nessa função. Porque conseguimos nos revezar uns aos outros e conciliar bem o estar na cozinha com o estar no campo. 

Como aconteceu o convite para participar neste campo?

Maria – É a minha primeira vez a fazer o campo. No ano passado tinha sido convidada, mas por causa do covid não houve campo. Foi através do padre Carlos, que penso que me recomendou aos diretores. Recebi o convite e aceitei. Não estou habituada a cozinhar para tanta gente mas aceitei o desafio. 

Participa também noutros eventos ou grupos? 

Maria – Há cerca de dois anos, quando entrei na universidade, entrei para a pastoral. Conheci o padre Carlos e sinto que a minha vida espiritual se intensificou, principalmente com a “Missão Aqui”, que foi a minha primeira participação. Depois continuei na pastoral, fizemos “Missão País”. Faço parte do coro das vinte e uma, na missa ao domingo, e a partir desses grupos aprofundei a minha vida espiritual.

Foto: Jornal da Madeira

Pedro, 22 anos, animador

Como começou a sua participação no evento deste ano? 

Pedro – Eu conheço os dois diretores, a Margarida Grilo e o Leonardo, que são meus colegas da faculdade. Estudo medicina como eles. Estou no ano do Leonardo, vamos para o 5º ano, a Margarida vai para o 6º ano. É curioso porque não estava nada à espera do convite. Nunca me passou pela cabeça vir animar o campo. Já tinha animado um outro campo, chamado “Fé, mais longe”, também ligado com a nossa faculdade. Este ano não tinha nada em mente. O convite surgiu pela Margarida Grilo, que já me conhecia doutras situações, nomeadamente da “Missão País, mas também sou muito amigo dela fora deste ambiente. Inicialmente não aceitei porque já tinha planos, mas depois acho que foram os desígnios de Deus, e aconteceram uma série de coisas. Esses planos que tinha feito, por algumas razões, tiveram que ser cancelados e o convite manteve-se. Depois acabei por vir para cá. 

O que é estar uma semana com estes miúdos?

Pedro – É muito reconfortante e faz-nos pensar muito sobre a simplicidade do ser humano. Depois de um ano muito intenso e de muita tribulação, chegamos aqui e percebemos que a vida não é tão complicada quanto isso. Aqui é mesmo viver uma semana na simplicidade. Dormir em tendas, comer no chão, tomar banho de mangueira. É reconfortante. É quase um recarregar de baterias para depois enfrentar um novo ano. E no centro ter Jesus, tornam as coisas totalmente diferentes e gratificantes. 

Como é fazer parte do grupo de animadores? 

Pedro – Quando cheguei aqui ao campo, conheci muito poucas pessoas deste grupo de animadores e agora sinto que tenho uma amizade e um grau de união com eles brutal. Aqui há um sentimento de companheirismo, de inter-ajuda, de perceber o outro, de escutar o outro. Temos até um quadro ali na sala dos animadores, em que um dos pontos que tomamos por principal é “animador cuida de animador”. O que senti muito é que nós éramos quase que pais e filhos de cada um, sempre com preocupação. “Há uma pessoa que está mais cansada, vai descansar um bocadinho que eu agora cubro-te esta parte”, e houve um sentimento de grande companheirismo, grande amizade, que se criou de uma forma muito natural, mas eu sinto de uma forma muito sólida.

Foto: Jornal da Madeira

Testemunhos de alguns participantes

Marcos, 15 anos, segunda vez que participa

Porque vens a estes encontros? 

Marcos- Sinto que consigo encontrar fé quando nos juntamos, e consigo ver a fé nas ações e nos olhos das outras pessoas. 

Isto ajuda-te no teu dia-a-dia?

Marcos – Todos os anos o “Buzicos” mudam-me, tanto como pessoa, como indivíduo na sociedade. Eu encontro-me no “Buzicos”, todos os anos. Eu não sou batizado, nem fiz a primeira comunhão, nem fiz o crisma. Mas devido à ligação que tenho com os padres e com Jesus, eu gostava de o fazer com o padre Carlos e com o padre João. 

Estou a ver-te com uma viola?

Marcos – Por acaso, a história da viola é uma coisa engraçada. Há dois anos que tinha desistido de tocar viola. Nunca mais tinha tocado nada. Voltei para o “Buzicos” e o padre João deu-me motivação para voltar a tocar. 

Rita, 18 anos, participa pela terceira vez

O que te fez participar nestes encontros? 

Rita – Fico muito feliz quando chega a semana do “Buzicos”. É um encontro muito especial para mim porque é um reencontro de todos os animadores, é uma experiência muito única. É uma aproximação de Deus. 

Que mensagens retiras?

Rita – Nós temos vários temas, e um dos temas foi sobre a coragem. Podemos ter medo mas temos que ter coragem para seguir em frente, fazer as coisas. Temos missa todos os dias e um tema, uma mini-catequese. Isso ajuda-nos. Fiz catequese até ao 12º ano e fiz o crisma, mas eu estava um pedacinho afastada da igreja. Com o campo, dá-me mais vontade de voltar para a Igreja, de rezar mais. 

Duarte, 18 anos, terceira vez que participa

Como conheceste o “Buzicos”?

Duarte – Comecei a participar em 2018, através da minha prima que me perguntou. Vim e gostei. Nestes dias saímos da nossa rotina, da nossa zona de conforto. Aprendemos a trabalhar em equipa e tentamos darmo-nos bem com todos. 

Qual a lição que retiras para a tua vida?

Duarte – “É bom porque nos ensina a lidar com o próximo, com o que está ao nosso lado. A família, os amigos. A saber lidar com o outro a compreender a nossa vida, os nossos problemas. A missa e os temas enriquecem muito e tornam-nos melhores pessoas. É uma semana fora das tecnologias, sem saber horas, sem receber notificações, sem estar preocupados nos jogos. É uma semana de descontração total e não nos damos conta do tempo a passar. Quando olho já é de noite e um dia já passou. No início estava apreensivo. Mas já é a terceira vez que venho. Tomei gosto. È uma experiência que vem nos enriquecer e qualquer um pode participar mesmo que não esteja na igreja”.

Maria Clara, 10 ano, primeira vez que participa 

Como é que conheceste o “Buzicos”

Maria Clara – “Foi a minha mãe que me inscreveu e as minhas irmãs me falaram para experimentar uma coisa nova. Eu tinha pedido a Jesus para experimentar uma coisa nova e então surgiu este acampamento.

Como correu estes dias? 

Maria Clara – “Foram muito divertidos, cheio de aventuras. Experimentei comidas que nunca tinha comido e coisas que nunca tinha feito, por exemplo dormir numa tenda, tomar banho com uma mangueira”.

*Todos os participantes neste campo de férias foram testados à COVID 19. De acordo com as autoridades de saúde, as atividades ao ar livre foram realizadas sem máscara. No interior dos espaços a máscara era obrigatória.