A temática da Redenção (II)

D.R.

A «Redemptor hominis», cujo binómio é Cristo-homem, aparece, antes de mais, como confissão de fé do próprio S. João Paulo II e da Igreja conciliar; profissão de fé marcada fortemente pela centralidade do Mistério de Cristo Redentor, no universo e na história1. A Carta Encíclica aprofunda num esforço catequético, à procura das raízes últimas da antropologia cristã2. O Redentor revela plenamente o homem ao próprio homem, dando-lhe a conhecer a verdadeira dimensão da sua grandeza, dignidade e valor3. Por isso, é necessário ao homem aproximar-se de Cristo para compreender profundamente a si mesmo4. A Redenção de Cristo restitui definitivamente ao homem a dignidade e o sentido da sua existência5. A Igreja tem a tarefa fundamental de dirigir o olhar do homem e encaminhar a consciência e experiência de toda a humanidade para o mistério de Cristo.

Jesus Cristo é o caminho principal da Igreja, caminho para a casa do Pai (Cf. Jo 14, 1) e o caminho de cada homem. A Igreja não pode ser afastada por ninguém neste caminho de Cristo indicado ao homem e pelo qual Cristo se une a cada homem. A Igreja não pode abandonar o homem, cada homem desta terra, porque o homem é o primeiro caminho que a Igreja deve percorrer no cumprimento da sua missão, ou seja, é o primeiro e fundamental caminho da Igreja, via traçada pelo próprio Cristo6. Assim sendo, impõe-se à Igreja o conhecimento sempre renovado da situação do homem e das suas possibilidades. Os cristãos devem ser os primeiros a despertar para o problema do homem. Cristo sensibilizou de modo universal. O cuidado pelo planeta em que vivemos é também sinal de um amadurecimento espiritual e responsável e aberto aos outros7. Assim, a Igreja, animada pela fé escatológica e relendo a situação do homem à luz de Cristo, considera esta solicitude pelo homem pela sua humanidade e pelo futuro dos homens sobre a face da terra como elemento essencial da sua missão8.

A Encíclica, ainda que breve, faz uma referência ao espírito da vida social e pública, citando a Declaração universal dos direitos do homem. O dever fundamental do poder é a solicitude pelo bem comum, que tem por base o respeito pelos direitos objetivos e invioláveis do homem9.

O contexto do homem no mundo contemporâneo – apresenta-o uma vez mais a Encíclica – é Cristo e o mistério da sua Redenção, onde o problema do homem se acha inscrito com especial força de verdade e de amor. Indiretamente, apresenta um desejo de uma Igreja mais firme e adulta na sua autoconsciência mistérica, como o centro de gravidade no Mistério de Cristo, para se tornar mais próxima, atenta e eficaz em relação ao homem e suas vicissitudes10. Cristo uniu-Se à Igreja no seu mistério de Redenção, e esta, por sua vez, deve estar fortemente unida a cada homem. A Igreja vive esta realidade, vive desta verdade sobre o homem. «Ao procurar ver o homem com os olhos de Cristo, a Igreja de facto, torna-se mais consciente de ser a guardiã de um grande tesouro»11.

Também a Assembleia dos Sínodo dos Bispos de 1977, dedicado à catequese no mundo contemporâneo, sublinha que a catequese é a «forma perene e fundamental da atividade da Igreja, onde se manifesta o seu carisma profético: testemunho e ensino andam juntos»12. Essa Assembleia sinodal como habitualmente, daria origem a uma Exortação Apostólica Catechesi Tradendae, publicada a 16 de outubro de 1979, no pontificado do mesmo João Paulo II.

Para S. João Paulo II, é a partir da fé em Deus, e nomeadamente da fé numa Redenção que nos vem de fora, que se fundam a doutrina e o edifício de um humanismo integral. A quando da sua visita a França, no seu discurso aos bispos franceses, o mesmo Papa afirmava com clareza que o homem contemporâneo está submetido à tentação da recusa de Deus em nome da sua própria humanidade, e que o ateísmo era uma preocupação pastoral prioritária, pela simples razão de que o homem pode ter sentido apenas como imagem e semelhança de Deus13. A Encíclica Dives in Misericordiaprolongava essa reflexão realçando o facto de Deus ser a condição de liberdade do homem ao figurar o rosto de Deus debruçado sobre o homem como Deus criador. Em resumo, o Papa João Paulo II juntava a perspetiva da Redenção à Criação. Ao descrever o mistério da Revelação, numa linguagem moderna e sempre numa perspetiva antropológica Deus aparece sendo a transcendência do homem, sendo o homem a imagem de Deus14.

Carlos Araújo, scj

1 Ibidem.

2 Ibidem, 492.

3 Cf. Ibidem, 495.

4 Cf. Ibidem.

5 Cf. Ibidem.

6 Cf. Ibidem, 496.

7 Cf. Ibidem, 497.

8 Cf. Ibidem.

9 Cf. Ibidem, 499.

10 Cf. Ibidem.

11 Ibidem, 500.

12 Ibidem.

13 Cf. A. PINHO, Fé/Cultura, Editorial Perpétuo Socorro, 169.

14 Cf. Ibidem.