Há 70 anos o Pe. Laurindo partiu para o Céu

Dia da chegada dos salesianos à Madeira, ao centro o Pe. Laurindo.

A 3 de abril de 1951 partia para o Céu o “Apóstolo” da juventude madeirense, Pe. Laurindo Leal Pestana, pároco de Santa Maria Maior (vulgo Socorro) e responsável/fundador da Escola de Artes e Ofícios dedicada aos rapazes e do Patronato de Nossa Senhora das Dores, para abrigo e educação das meninas pobres e órfãs.

Seus pais João Augusto Pestana e Etelvina Leal, eram católicos praticantes. Viviam uma espiritualidade cristã sã e consequente. 

Maria da Conceição Caldeira, sobrinha-neta do Pe. Laurindo, descreve que: (…) «Desde sempre, o pequeno Laurindo ouviu a sua mãe tratá-lo por “o meu padre”», acrescentando que, ainda em criança, ele «entretinha-se a brincar às missas». 

Depois, «quando chegou a idade de aprender a instrução primária (…) ofereceu-lhe um livro sobre a vida de S. João Bosco. Daí em diante, esse foi o livro preferido. Depois, na idade própria foi para o seminário, talvez já sonhando ser um padre seguidor dos exemplos de D. Bosco.» e, de facto, foi.

Quando a 29 de Setembro de 1915 foi nomeado pároco de Santa Maria Maior, pôde, dar largas ao seu desejo de socorrer jovens marginalizados. 

«Ao anoitecer, ia até à beira-mar, pois sabia que muitos rapazes, não tendo onde dormir, aproveitavam o interior dos barcos para aí dormitarem. 

«Falava-lhes com bondade e carinho, cativando as suas almas esquivas e, por vezes, desconfiadas. Trazia-os para casa onde os abrigava como podia, e fornecia-lhes algum alimento, um pouco de pão ou de sopa feita de boa vontade pela sua criada Mariquinhas» 

É impressionante a semelhança da vida deste bondoso sacerdote com a do santo pedagogo do séc. XIX, S. João Bosco.

No fim dos anos 40, um cancro na garganta leva-o a Lisboa para tratamentos.

Há anos, em conversa com o Salesiano, Pe Bartolomeu Valentini, confidenciou-me mais ou menos nestes termos: 

«Acabara de celebrar uma missa algures em Lisboa e dirigia-me à paragem do eléctrico com destino à Casa-Mãe dos Salesianos. Atravessando o Jardim da Estrela, deparei-me com um padre meio-sentado, meio-deitado de lado, num dos bancos. Estava pálido, ofegante e, aparentemente, solicitava ajuda… 

Abeirando-me dele, predispus-me a ajudá-lo dentro das minhas possibilidades, e saber o que o preocupava. 

A sua pronta resposta foi: “O que se passa comigo não me preocupa,… Preocupa-me, sim, os meus “filhos” que deixei na Madeira e não os posso valer… pedi aos Padres Salesianos para tomar conta deles mas, até agora, ainda não decidiram nada…. Queria ver se falava com o Pe Superior, mas não tenho forças…» 

O Padre Valentini respondeu:

«Eu sou padre salesiano. Venha comigo». 

E lá foram, trocando impressões sobre a realidade da Escola de Artes e Ofícios na Madeira.

O resultado da conversa com os Superiores Salesianos foi a chegada dos Filhos de D. Bosco à Madeira no dia 25 de Outubro de 1950, com a missão de prosseguir a Obra do Padre Laurindo.

Após longo sofrimento, a 3 de Abril de 1951, era chegada a hora do bondoso sacerdote receber a coroa de glória que Deus lhe havia reservado no Paraíso. Contava 68 anos de idade. 

O Funchal e a Madeira inteira chorou, intensamente, a perda deste seu filho… 

O então “O Jornal” da Madeira, na sua edição de 5 de Abril desse ano, referia na sua “Nota do Dia”: «Foi ontem a enterrar o Rev.o Padre Laurindo. Imponente funeral, lágrimas nos olhos de pobres e ricos e uma multidão imensa acompanhando o funeral ou assistindo silenciosa e triste ao seu desfile. 

E que fez o Padre Laurindo para tudo isso? 

Deu o coração em bocadinhos a todos, consolou os tristes, amparou os pobres, deu-se totalmente ao seu sacerdócio. 

Em sinal de gratidão, logo, pelas 16.30h, na Paróquia de Fátima, entregue aos Salesianos, celebra-se eucaristia pelo saudoso Padre Laurindo. Para concluir, deixo a pergunta: Quem terá a responsabilidade da abertura de um processo de beatificação deste santo sacerdote madeirense?…

Paulo Gilberto Camacho