A  Páscoa

D.R.

A palavra Páscoa significa passagem.  Nas línguas grega e latina a palavra Páscoa é derivada do grego Pascha, por sua vez derivada do hebraico Pesah ou Pesach, através do aramaico, a língua que Jesus falava. 

Os Judeus celebravam nesta festa a saída do Egipto, libertando-se da servidão que viveram durante quatrocentos anos. Foi o Êxodo, deixando para trás o exército do Faraó que os perseguia. Esta é a Páscoa Judaica, que continua a ser comemorada pelos judeus. 

Para os cristãos, a Páscoa celebra a Ressurreição de Jesus, igualmente a passagem da morte à vida. Nesta época, é bom saborearmos os relatos feitos pelos quatro evangelistas com as suas diferenças e semelhanças. Os factos são os mesmos, mas diferem em alguns pormenores. É interessante comparar e ver essas diferenças, que revelam, parece-me a mim, a sensibilidade de cada evangelista. 

Claro que também podemos fazer uma leitura pondo em relevo os pontos comuns. Mas vamos ater-nos às diferenças. 

Que diz Jesus no momento em que morre na cruz? Clamou «Senhor, porque me abandonaste», como lemos em Mateus (27:46) e Marcos (15:34? Ou «Pai, nas tuas mãos coloco o meu espírito? (Lucas 23:46)? Ou simplesmente disse apenas: «Está cumprido» (João 19:30)? E a famosa e belíssima frase «Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem» é colocada na boca de Jesus apenas por Lucas (23:34). E quem carregou a cruz até ao Gólgota? Foi Simão, o Cireneu, habitante de Cirene, como dizem Mateus (27:32), Marcos (15:21) e Lucas (23:26)? João afirma explicitamente que foi Jesus a carregar a sua própria cruz. 

João viu a crucificação com os seus próprios olhos. Ele esteve lá (João 19:26). O ato de Jesus lavar os pés dos apóstolos só acontece em João. O último milagre praticado por Jesus foi curar a orelha do escravo cortada por Pedro. Mas este milagre só é referido por Lucas. E há um momento, tremendo para Pedro, em que Jesus o encara, depois de Pedro o ter negado três vezes, antes de o galo cantar: «E o Senhor, voltando-se, olhou para Pedro; e Pedro lembrou-se da palavra do Senhor, quando lhe disse: antes de o galo cantar, hoje, irás negar-me três vezes». E saindo lá para fora chorou amargamente. Este momento, em que o olhar de Pedro e de Jesus se cruzam, é registado apenas por Lucas (61:62). Jesus estaria naquele momento a ser levado da casa do sumo sacerdote para outro lugar onde continuaria o seu julgamento. 

No que respeita ao túmulo vazio e à ressurreição, em Lucas e em Marcos, temos três mulheres como testemunhas: Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e Joana (Marcos, em vez de Joana, cita Salomé). Lucas, além destas três mulheres, refere outras que não nomeia, como se fossem uma espécie de coro trágico. É o único que o faz. Em Marcos, as três mulheres chegam ao túmulo, no domingo de manhã, e veem que a pedra que fechava a entrada do sepulcro tinha sido removida. Entram e ficam apavoradas: o morto tinha desaparecido. Lá dentro, sentado, um jovem vestido de branco, que elas não conhecem, pergunta-lhes: «É Jesus, o Nazareno, que procurais, o crucificado?

Ressuscitou. Não está aqui.» (Marcos16:6). O jovem recomenda às três mulheres que vão dizer a Pedro e aos outros discípulos que Jesus foi à frente, rumo à Galileia. As mulheres fogem do sepulcro a tremer e tresloucadas. No Evangelho de Lucas, estas mulheres veem dois homens, vestidos de trajes resplandecentes, que lhes dão a notícia fulminante de que Jesus ressuscitou. Tal como as mulheres em Marcos, estas também ficam apavoradas, mas ao contrário do que fazem as duas Marias e Salomé em Marcos, estas vão contar tudo aos apóstolos. No entanto, estes acham que é uma parvoíce de mulheres, mas Pedro levanta-se e vai a correr ao sepulcro para ver o que se passa com os seus próprios olhos. Olha para dentro e apenas vê, abandonadas, as ligaduras com que o corpo de Jesus tinha sido envolto. Consideremos agora o relato de Mateus: ele apresenta-nos apenas as duas Marias: Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago. Unicamente neste evangelho, refere-se um terramoto e as mulheres veem então um anjo do Senhor «com aspeto de relâmpago» (Mateus 28:3). Os guardas que estão a vigiar o túmulo ficam «como mortos». Estes guardas só existem no Evangelho de Mateus. O anjo informa as duas mulheres que Jesus ressuscitou. Elas saem depressa, eufóricas e não apavoradas. 

O Evangelho de João afasta-se substancialmente dos três anteriores: ele é o único que afirma categoricamente que viu o túmulo vazio; foi o primeiro a vê-lo mesmo antes de Pedro. E, quanto às mulheres, João apresenta apenas uma: Maria Madalena, único denominador comum dos quatro relatos sobre o túmulo vazio. É sobre ela que recai a responsabilidade de garantir a verdade da ressurreição. Mas qual será essa Verdade? Para o crente, é indissociável da própria fé. Para o ateu, a verdade encontra-se no boato que Mateus pretende combater no final do capítulo 27 do seu Evangelho: os discípulos fizeram desaparecer o corpo de Jesus, de modo a dar a ilusão da Sua ressurreição. 

Para aqueles que não são crentes nem ateus, mas que leem de espírito aberto estes textos magníficos e indispensáveis, constitui ressurreição bastante o facto de Jesus continuar a ser uma personagem apaixonante, objeto de estudo por parte de crentes e não crentes, enquanto houver seres humanos. 

A Sua mensagem continua a ser tão válida hoje como foi há dois mil anos. E lembremo-nos: sempre que dizemos uma data referimo-nos ao nascimento de Jesus. As discrepâncias que encontramos nos quatro Evangelhos não invalidam de forma alguma o valor espiritual destes quatro textos, enquanto testemunho da vida de Jesus e enquanto base de uma opção de vida cristã. 

São quatro textos, cada um deles com o talento e a arte de nos fazer compreender esse homem que é  o «Filho de Deus» para alguns, e o «Filho do Homem» para todos.

Cecília Rezende