Via Dolorosa

D.R.

Dentre os tantos lugares venerados pelos cristãos na Terra Santa, nem todos tem comprovação arqueológica científica irretorquível. Isto não significa que sejam fraudulentos, que tenham sido criados para exploração da fé e da ingenuidade alheias. Significa apenas que até hoje não se encontraram evidências incontestáveis. Um bom exemplo é o local da condenação de Cristo por Pilatos, aquele mesmo que inutilmente lavou as mãos ao sentenciar um inocente. A primeira estação da Via Crucis, por exemplo, não seria na Igreja normalmente aceita. O pátio do pretório estaria algumas dezenas de metros a oeste, dentro de uma escola muçulmana atual. Em ocasiões especiais a escola permite que grupos de religiosos franciscanos – dentre os quais contam-se os mais respeitáveis arqueólogos de todo o Oriente Médio,- comecem o caminho de Cristo daquele local. Qual a importância da localização precisa, milimétrica? Nenhuma. A fé independe de materialidade, só não pode ser nocauteada por um direto de evidências racionais.

Antes de empreender a Via Crucis visitei uma gruta ortodoxa grega que teria sido a prisão de Cristo. Cavada na rocha, pode ter sido de fato uma prisão. Dois pisos abaixo o indultado Barrabás teria aguardado numa cela o julgamento que o livraria dos crimes cometidos como guerrilheiro zelota para condenar o Cordeiro de Deus, que só pregou o amor e entregou-se em holocausto para a remissão de nossos pecados. Não havia outro visitante. Num dos espaços cavados para que os presos pudessem deitar fiz de um livro que portava precário travesseiro e me deitei. Não padeço de claustrofobia e fiquei a observar toda a brutal estrutura monolítica rochosa acima de mim, como a mais absoluta supressão de liberdade, com um peso infinito para nossa fragilidade. Teria até dormido pela dureza do leito mas seria bem mais difícil por conta do esmagamento de toda a condição humana. Aquela prisão cumpria de imediato o objetivo de qualquer instalação desta natureza: quebrar a estrutura psíquica do aprisionado. Sem luz natural e desprovido por completo da liberdade e do planejar seus passos. Um pouco acima fica a suposta cela ocupada por Cristo. Era o início do plano para matá-lo, sob o poder das trevas como Ele próprio enunciou no Gêtsemani quando, traído por Judas, o capturavam.

Do ponto da condenação passei para a estação segunda e ganhei a rua. Caminha-se cerca de cem metros, em trajeto quase plano, para chegar no ponto em que Cristo cai pela primeira vez. Flagelado, teve a carne devastada pelos chicotes. Está fraco e deve ter febre. Já não dorme há muito e foi completamente abandonado pelos apóstolos e negado por Pedro. Nas ruas escuta o choro de quem lamenta sua sorte e os desaforos dos judeus que verdadeiramente o odeiam. Horas antes foi esmurrado e agora o esbofeteia a estupidez dos tolos de todos os tempos. Encontra sua mãe, trespassada pela espada da perda de um filho e recebe a ajuda não voluntária de Simão Cireneu. Daí por diante o terreno torna-se acidentado. Pesa-lhe a cruz, faltam-lhe as forças e lhe entristece o destino daquela gente. Quando encontra as mulheres de Jerusalém diz a elas que não chorem por ele, senão por elas mesmas e por seus filhos.

Me ajoelho diante da sexta estação e mal acredito no que faz o comerciante de uma loja frontal. Oferece-me seus produtos. Insiste até que erga a mão e rejeite o convite. A subida segue curta mas não é possível avançar sem arfar no tráfego de turistas e peregrinos pelas ruas atulhadas de lojas e de vendedores muçulmanos. Um soldado israelense aqui, outro acolá, sempre com o dedo próximo do gatilho de suas metralhadoras. Na capela da sétima estação um guia turístico explica ao seu séquito os detalhes da segunda queda. Cristo não pode morrer. É preciso que se cumpra a Escritura nos seus cruéis detalhes. Cristo já não distingue vozes e rostos, dói-lhe cada extremidade mas avança. Um rapaz grita para que abram caminho. Por todo o lado se escutam os aborrecidos gritos dos vendedores. Chego na estação nove e me posiciono para rezar. Um grupo de japoneses, todos com sua máquina fotográfica, rouba a cena. Me ignoram por completo e um deles se posiciona diante de uma cruz e simula a crucifixão enquanto se deixa fotografar.

Daí por diante há que enfrentar a Igreja do Santo Sepulcro lotada de curiosos e por legítimos peregrinos. Um homem olha para a pedra da Unção, onde o Cristo morto teria sido deposto antes de ser sepultado. Pergunta à esposa, com  insuperável boçalidade, se ela beijará a pedra. Tudo que deseja é ir-se. Ela, livro à mão, diz um amontoado de sandices, revelando que não tem  intimidade com a Paixão de Cristo. A cada episódio tento me concentrar novamente no maior tesouro da história humana. De certa forma, também no cotidiano, a milhares de quilômetros de Jerusalém, vê-se os mesmos esgares e escuta-se os mesmos deboches abobalhados das ruas da cidade santa há quase dois mil anos. A Via Dolorosa parece não ter fim.

J. B. Teixeira