Missa Crismal: D. Nuno pede aos padres que sejam janelas de Deus no momento singular que vivemos

Foto: Duarte Gomes

O bispo do Funchal pediu aos sacerdotes da Diocese do Funchal “empenho renovado de serviço à humanidade contemporânea”, marcada pela pandemia. Depois de sublinhar que a humanidade vive hoje “um momento singular”, D. Nuno Brás frisou que o mundo precisa de quem lhe “abra janelas de Deus”. 

O bispo diocesano, que falava na Missa Crismal celebrada na manhã desta quinta-feira, dia 1 de abril, na Sé, explicou que o mundo contemporâneo precisa, hoje mais do que nunca, “de quem lhe prepare o banquete pascal”, ou seja de quem torne a Páscoa de Cristo presente, de quem mostre que também nós (e não apenas os nossos antepassados) fomos redimidos pela morte e ressurreição de Jesus” e que, por isso, mesmo, “não é um vírus, qualquer que ele seja, que nos impedirá de ser com Deus e para Ele; de viver com Deus e para Ele”. 

Nesta celebração o bispo do Funchal afirmou ainda que os padres são “presença da paternidade divina” e ao mesmo tempo “presença pessoal da graça, no meio da Igreja e do mundo”, uma vez que procuram configurar-se com Cristo. 

“O ministério da salvação jamais se poderá resumir a uma tarefa, a uma função desempenhada, mesmo que com o maior profissionalismo. O serviço da salvação não poderá nunca deixar de ser o todo de uma vida, que tudo absorve, que a tudo oferece centro e sentido”, explicou. 

D. Nuno Brás indicou que cada sacerdote tem a missão “confiada por Deus” de “O tornar presente, visível, atuante, vivificador da vida” das pessoas. 

“Quem nos encontrar, em qualquer momento do nosso dia, há-de sentir-se mais próximo de Deus; há-de perceber que Deus não desiste de se tornar próximo, de o procurar, de lhe oferecer a vida. Por isso, preparamos para os filhos o banquete pascal”, afirmou ainda o prelado. 

A celebração da Missa Crismal, recorde-se, junta os sacerdotes de uma diocese em torno do seu bispo, com os padres a serem convidados a renovar as promessas sacerdotais. Foi isso que aconteceu logo depois da homilia. 

No início desta celebração, em que foram também benzidos os óleos que vão ser distribuídos pelas comunidades para as celebrações dos vários sacramentos, D. Nuno Brás recordou o Beato Carlos de Áustria e os 99 anos da morte, desejando que “de lá do céu ele nos acompanhe e interceda por nós”. 

Nesta Eucaristia rezou-se também pelo Cónego Ribeiro, por todo o clero doente e pelos sacerdotes que celebram 50 e 25 anos de ordenação, nomeadamente o Frei Alexandre Jorge e os padres Carlos Manuel de Freitas e o Pe. José Luís Rodrigues e pelos aniversários natalícios do Pe. Eleutério Ornelas e do Cónego Duarte Pita.  

Leia na íntegra a homilia do bispo diocesano:  

MISSA CRISMAL 

1 de Abril de 2021 

Catedral do Funchal 

“Renovam em nome de Jesus o sacrifício da redenção humana,
preparando para os vossos filhos o banquete pascal”
(Do Prefácio da Missa Crismal) 

1. A Missa Crismal é a derradeira celebração da Quaresma. O óleo santo, o Crisma, “sinal sacramental de salvação e vida perfeita, para aqueles que são renovados no banho espiritual do Baptismo”, irá, dentro de momentos, ser consagrado. Assim, tudo ficará preparado para vivermos com densidade interior a celebração do tríduo pascal de Cristo morto, sepultado e ressuscitado. 

Mas não apenas a bênção dos santos óleos caracteriza a presente celebração. A permanência de Jesus Cristo ressuscitado em cada tempo e lugar não poderia aparecer aos homens sem o sinal sacramental da sua graça que é a pessoa e a vida de cada um dos seus sacerdotes: vasos de barro que transportam o tesouro inefável da graça divina; presença viva do único sacerdócio de Cristo; verdadeira mão de Deus estendida ao mundo contemporâneo; paradoxal acontecimento de salvação no meio deste nosso mundo. 

Fosse o cristianismo apenas uma ideologia (um conjunto de ideias articuladas, propostas para a renovação da humanidade) ou uma moral (uma norma de 

bons comportamentos, com os quais se conseguisse uma humanidade nova), e não seria necessário qualquer sacerdote. Bastaria irmos pensando e adaptando, ao sabor do tempo e da actualidade, um conjunto de doutrinas; ou seria suficiente um código de conduta, também ele necessariamente modificável segundo o gosto da maioria. Bastaria que, à frente de cada comunidade, estivesse alguém com um mínimo de bom senso, que cuidasse da administração, velasse pela doutrina, exortasse pela palavra. 

Mas não. O cristianismo é Cristo. Como S. Ambrósio gostava de repetir: “Omnia Christus est nobis” (“Cristo é tudo para nós”). Do acontecimento que é a encarnação do Verbo, surgirá, necessariamente, uma doutrina, pois que Jesus é o Verbo do Pai; tal como surgirá uma Lei nova, um novo modo de viver, pois que Jesus é o Verbo feito carne, e nos propõe a vida, as opções concretas do quotidiano como lugar de acolhimento e expressão da salvação. 

Contudo, nunca os baptizados seriam capazes de ser Cristo — de viver não apenas com Ele, mas também nele e por Ele — se Jesus tivesse ficado prisioneiro de um passado feito de ideias ou de leis; se, ressuscitado, não fosse um “Tu”, não nos envolvesse a nós, hoje, cristãos do século XXI, e nos permitisse ser um com Ele: seu Corpo, sua presença, na força do Espírito. 

Para que isso aconteça, para que o “hoje” de Cristo possa aparecer e interpelar, ser vida e acontecimento, é indispensável a vida sacramental (vida de Cristo em nós, vivida e celebrada: liturgia!). É ela que permite dizer, no aqui 

e agora, o mistério pascal de Jesus; que nos permite, hoje, viver daquele mesmo e definitivo acontecimento redentor, com a mesma frescura e entusiasmo dos que foram suas primeiras testemunhas. 

2. E, no seio dessa vida, desses acontecimentos sacramentais, estão aqueles que, sendo presença da paternidade divina, são também a presença pessoal da graça, no meio da Igreja e do mundo, sacramentalmente configurados com Cristo: presença de Cristo sacerdote a dar vida. 

Em Jesus, a redenção não foi uma mera função a ser desempenhada, mas um acto pleno de oferta de toda a sua pessoa. É por isso que o ministério da salvação jamais se poderá resumir a uma tarefa, a uma função desempenhada, mesmo que com o maior profissionalismo. O serviço da salvação não poderá nunca deixar de ser o todo de uma vida, que tudo absorve, que a tudo oferece centro e sentido. Com razão, quando os nossos contemporâneos se querem referir a uma entrega que, sem admitir pausas ou intervalos, empenha a vida inteira de alguém, a ela se referem por analogia, dizendo que é como “um sacerdócio”! 

A instituição do sacerdócio ministerial está intimamente ligada à instituição da Eucaristia. Celebra-a, por isso, toda a Igreja na Missa vespertina da Ceia do Senhor. Como não nos é possível estar simultaneamente com as nossas comunidades e encontrar-nos com os demais presbíteros à volta do bispo, tomamos esta celebração matutina como possibilidade de manifestar, diante de todos, o nosso empenho, a nossa vontade em permanecermos fiéis à missão que o Senhor nos confiou, e a que também nós nos consagrámos — certos da assistência da Sua misericórdia, entregando tudo o que somos e temos, para que a salvação de Cristo resplandeça hoje como presença eficaz no meio do mundo. 

3. Neste ano pastoral, particularmente dedicado a aprofundar o sacramento da Eucaristia, deixai que medite convosco (ainda que muito brevemente) numa afirmação do Prefácio que iremos rezar dentro de minutos, e que é proposto para a presente celebração: dirigindo-se ao Pai, a Igreja louva-O porque, de entre o povo sacerdotal, o Senhor Jesus escolheu homens que, mediante a imposição das mãos, “renovam em seu nome o sacrifício da redenção humana, preparando para os vossos filhos [de Deus] o banquete pascal”. 

A oração da Igreja sublinha, deste modo, como a celebração eucarística constitui uma dimensão central da vida de cada sacerdote. Tal qualidade caracteriza todo o nosso ser, marca-nos, dá-nos forma: somos aqueles que celebram a Eucaristia para os filhos de Deus — e que o podem fazer porque sacramentalmente configurados com o único sacerdote que é Jesus Cristo. “Tudo é graça”. E, de um modo particular, cada um de nós é graça — nem de outro modo nos conseguiríamos entender, nós, homens pecadores e frágeis, mas em cujas mãos o Senhor entregou tão grandes mistérios. 

Em nome de Cristo Senhor, participando do seu sacerdócio, renovamos o sacrifício da redenção humana. Sabemos como o momento da cruz — quando o Senhor carregou o pecado do mundo e, abrindo os braços no madeiro, fez seu o sofrimento de toda a humanidade, oferecendo-se plenamente ao Pai — sabemos como esse momento é caracterizado pelo “definitivo”. 

Quer dizer: o momento da cruz é de tal forma pleno que não necessita de ser completado, acrescentado, vivido de novo, repetido, como o mostra abundantemente a Carta aos Hebreus. Tudo, todos, toda a história da humanidade — mesmo a história daquele que diz: “Deus não existe” (Sl 13) — converge para esse ponto único (o lugar do amor de Deus, verdadeiro ponto fixo, único capaz de elevar o mundo inteiro). Tudo é vivido, redimido naquele momento da cruz. 

Mas esse momento singular, concreto e definitivo da redenção humana deixaria de o ser, se se visse impedido de ser presente e de salvar o homem distante no tempo ou na cultura. Em cada tempo e em cada lugar, urge que aquele momento da redenção se possa tornar um “hoje”, realidade contemporânea a cada ser humano. Urge que aquele momento da redenção apareça como é. Que aquele momento vertiginoso tome conta, transforme, dê nova qualidade à vida daqueles que o celebram, quer dizer: que dele vivem. 

Ao contrário do agir humano, o agir de Deus não está limitado pelo tempo ou pelo espaço. Ele entra na história, assume-a e redime-a, fecunda-a. E o agir divino é a cruz de Jesus. Deus confia-nos, a nós sacerdotes, a missão de O tornar presente, visível, actuante, vivificador da vida dos demais. 

Aquilo que cada homem faz, a sua actividade e seu ser, expressam-se também no modo como cada um aparece. Por isso, em nós, sacerdotes, o mistério da Eucaristia há-de aparecer, claro, manifesto, a dar qualidade à nossa vida interior e a mostrar-se no modo como somos com os outros e para os outros: Cristo em nós, a tornar possível o acesso de todos à salvação. Quem nos encontrar, em qualquer momento do nosso dia, há-de sentir-se mais próximo de Deus; há-de perceber que Deus não desiste de se tornar próximo, de o procurar, de lhe oferecer a vida. Por isso, preparamos para os filhos o banquete pascal. 

4. Caros Padres, o momento em que vivemos é absolutamente singular. Neste tempo de pandemia, o mundo contemporâneo precisa de quem lhe abra janelas de horizonte e de sentido, janelas de Deus. Precisa, mais que nunca, de quem lhe prepare o banquete pascal. Quer dizer: de quem torne a Páscoa de Cristo presente, de quem mostre que também nós (e não apenas os nossos antepassados) fomos redimidos pela morte e ressurreição de Jesus — e que,por isso, não é um vírus, qualquer que ele seja, que nos impedirá de ser com Deus e para Ele; de viver com Deus e para Ele. 

A renovação das promessas sacerdotais que iremos realizar dentro de momentos seja hoje expressão do nosso empenho — de cada um e de todos, como presbitério — expressão do nosso empenho renovado de serviço à humanidade contemporânea: aquele serviço que o Senhor nos confia de, quotidianamente, “renovar em seu nome o sacrifício da redenção humana, preparando para os filhos o banquete pascal”.