In peste patronus

Capela de São Roque | Foto: P. Giselo Andrade

Era um passeio habitual no final do dia, percorrer a marginal de Machico com um garrafão na mão até à fonte de São Roque. O caminho era partilhado com afáveis conversas entre aqueles que faziam o mesmo trajeto, acompanhado pelo som do mar. Nas memórias de infância com a minha avó, o passeio até à capela de São Roque era uma espécie de oração da noite.

Há mais de 500 anos, a população de Machico pediu a proteção de São Roque, quando foi assolada com um surto de cólera (1488-89). A tradição atribui a fundação da pequena Capela de São Roque ao segundo Capitão Donatário de Machico, Tristão Vaz Teixeira, por volta do ano de 1489, como cumprimento de uma promessa e sinal de gratidão pela intercessão de São Roque pelo fim do surto.

Com o passar dos séculos, o edifício foi se degradando, até que em 1739 foi demolido e “não muito longe do local onde se erguia a primitiva capela”, foi construída a capela atual. Do primitivo templo restam os azulejos, tipo tapete de “maçaroca”, que foram colocados na parede da sacristia, o campanário em cantaria e duas janelas. No teto de madeira, pintado com decoração vegetalista, uma inscrição em latim explica o motivo da construção da capela: “Eris in Peste Patronus” (“Tu serás na peste o protetor”). 

O retábulo-mor barroco, em talha policromada, possui a data de 1751. Ao centro destaca-se a imagem de São Roque com o bordão de peregrino na mão, acompanhado pelo cão com um pão na boca. A perna direita está descoberta, deixando ver a chaga de peste.

Os dez painéis azuis e brancos de azulejaria barroca que abraçam o interior da capela apresentam os episódios da vida de São Roque: (1) nascimento, (2) prisão, (3) dormindo na rua na companhia de um cão, (4) junto à fonte de água que o curou, (5) um cavaleiro fere um viandante junto à igreja de São Roque, (6) um fidalgo segue o cão e encontra o santo, (7) São Roque acompanhado pelo cão, que lhe traz pão, (8) a cura dos doentes de peste, (9) milagres realizados por São Roque e (10) o santo perante o governador.

Curiosamente, no encontro que o Presidente da República teve com o Papa Francisco no Vaticano, no dia 12 de março, surgiu a figura de São Roque. Marcelo Rebelo de Sousa ofereceu ao Papa um livro sobre a Igreja de São Roque, em Lisboa, a primeira igreja jesuíta em Portugal. 

Em tempos de pandemia, peçamos a intercessão de São Roque, “na peste, o protetor”, em Machico, no Faial ou no Funchal.