Cónego Toni diz que Carta de São Tiago é “uma exortação moral”

No quarto dia da semana de formação que a Diocese do Funchal está a promover para os Sacerdotes, Consagrados e Leigos, coube ao Cónego Toni Sousa proceder à Apresentação da Carta de São Tiago. Assim começou por referir que “a Igreja considera a Carta de São Tiago como o texto do Novo Testamento, que tem uma consciência social mais desenvolvida”. 

Tal como as restantes – são sete as cartas católicas – “trata-se de uma carta católica que tem como destinatários toda a Igreja e todos os Cristãos e não a uma Igreja particular”. No entanto, esta não apresenta uma saudação final ou quaisquer alusões pessoais, nem “as típicas instruções doutrinais do Novo Testamento”. Na verdade, toda ela é “uma exortação moral”.

Escrita em grego clássico, a Carta de São Tiago recorre a imagens e a sentenças de “beleza literária rara”. E o cónego Toni deu exemplos, citando algumas passagens: “Aquele que duvida assemelha-se às ondas do mar, sacudidas e agitadas pelo vento” (Tg 1,6). Estas imagens retóricas, explicou o Reitor do Seminário e pároco da Boa Nova, “dão força e vigor à doutrina que, em grande parte, tem muito a ver com a sabedoria do corpus sapiencial do Antigo Testamento”.

“A carta de São Tiago é um ensinamento de sabedoria”, frisou ainda o Cónego Toni, segundo quem a mesma tem “uma afinidade literária com a literatura sapiencial do Antigo Testamento e com as homilias sinagogais ilustradas nos diversos livros apócrifos”. Além disso, acrescentou, “na carta também encontramos traços de textos litúrgicos e do Catecismo Batismal”.

Depois de explicar quem foi São Tiago Menor, o orador falou das questões que se levantam em torno da autoria da carta por parte de alguns estudiosos e que continuam ainda hoje a ser estudadas, adiantando, no entanto, que há elementos que nos apontam para o facto da mesma ter sido escrita efetivamente por São Tiago Menor, “Irmão de Jesus”. 

“A Carta de São Tiago mostra-nos um cristianismo muito concreto e prático” explicou ainda o cónego, que falou depois sobre a canonicidade de Tiago, contestada por algumas Igrejas.

O orador passou depois à análise geral da mensagem da carta, tocando em alguns temas considerados mais importantes, começando pela saudação inicial, que contém expressões como “servo de Deus”, que no Antigo Testamento era aplicada a figuras importantes. Relativamente aos destinatários da carta são “as doze tribos da dispersão”. 

Depois da saudação “entramos noutro tema também importante que são as provações e os seus benefícios, mostrando São Tiago que nenhum cristão está livre das provações, dos problemas da vida”. Mas mostrando também que estas devem ser vistas “como uma fonte de alegria”, algo que “coloca à prova a nossa fé, a nossa confiança em Deus e perseverança na ação”. 

“Diante das provações o crente tem oportunidade de crescer e amadurecer na fé”, frisou ainda, para logo acrescentar que “Tiago chama ainda a atenção dos seus ouvintes para a importância de haver coerência naquilo que dizem, acreditam e fazem”, “não havendo “espaço para a dúvida”. 

No entanto, “Tiago rejeita o conformismo e o fatalismo” e defende que as provações “devem ser suportadas com paciência, caso contrário podem provocar o pecado”.

Depois das provações, Tiago entra no tema das condições sociais (ricos e pobres) apresentando-se como “um crítico às riquezas” e frisando que “a Igreja não deve deixar-se iludir pelos poderosos e pelos ricos” alertando que “todos estão sobre o vínculo do amor”. 

Chegamos depois, segundo o cónego Toni, àquele que será o tema central da sua carta, o tema da fé e das obras, com Tiago a defender que “a fé deve realizar-se na vida, sobretudo no amor ao próximo e em especial para com os pobres”. É pela “fé ativa” e “comprometida”, que se manifesta através das obras, que tem “presente os problemas e as dificuldades”, que o crente “recebe a sabedoria, a justiça e a cura”.

Quase no fim da carta Tiago refere-se ainda à cobiça como sendo “a origem de todos os conflitos” e apresenta-nos a “oração como meio para a vencer” insistindo “no cuidado uns pelos outros”.

Para Tiago, explicou o Cónego Toni a concluir, “a fé deve realizar-se na vida, sobretudo no amor ao próximo e em particular aos pobres” e na entrega total a Deus em tudo o que fazemos, sem planificarmos a nossa vida de maneira autónoma, mas “contando sempre com a vontade de Deus, que conhece o bem que verdadeiramente nos convém”.