Instrução e a catequese a partir da beleza artística (3)

Santo Agostinho

Santo Agostinho é um puro exemplo do encontro com a beleza de Deus. Nas suas Confissões, patenteia o percurso em busca da verdade de Deus. Tomemos por exemplo, o poema: «Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! Eis que habitáveis dentro de mim, e eu lá fora a procurar-Vos! Disforme, lançava-me sobre estas formusuras que criastes. Estáveis comigo, e eu não estava convosco»1.

Sem dúvida, que é uma experiência de encontro com o Deus da Beleza, acontecimento este vivido na totalidade de ser ou não ser na sensibilidade2.

S. João da Cruz, na obra Subida ao Monte Carmelo”, apresenta:

«o itinerário espiritual sob o ponto de vista da purificação progressiva da alma, necessária para escalar a montanha da perfeição cristã, simbolizada pelo cimo do Monte Carmelo. Tal purificação é proposta como um caminho que o homem empreende, colaborando com a obra divina, para libertar a alma de todo o apego ou afecto contrário à vontade de Deus. A purificação, que para alcançar a união com Deus deve ser total, começa a partir daquela da vida dos sentidos e continua com a que se alcança por meio das três virtudes teologais: fé, esperança e caridade, que purificam a intenção, a memória e a vontade»3.

Hans Urs Von Balthasar quis construir uma teologia que vê a beleza da “figura” de Cristo como caminho fundamental. Os outros dois pontos fundamentais, a verdade e a bondade, não têm nenhuma possibilidade de atrair o homem, a não ser que este se sinta atraído pela beleza de Cristo. Segundo Balthasar, existem três maneiras de entrar em contacto com a beleza de Cristo: a Sagrada Escritura, definida como “espelho”; a Eucaristia, “mistério de fé”, ou representação da plenitude da salvação cristã; e a Igreja, “forma imperfeita”, que torna percetível a beleza de Cristo.

A Estética Teológica balthasariana «não é um processo noético de acesso a Deus. É abertura à vitalidade do amor divino, onde o ato de fé possibilita ao homem deixar-se transformar e configurar pela glória divina»4. Assim, «só na fé é possível a estética teológica, é possível que os “olhos do espírito” reconheçam como nova luz a invisibilidade de Deus, e se deixem encantar até ao amor»5.

Efecticamente, «a voz da beleza ajuda a abrir-se à luz da verdade e ilumina, assim, a condição humana, ajudando-a a aprender o sentido da dor»6. Nessa linha, a assembleia Plenária dos bispos, 27-28 de março de 2006, propõe três desenvolvimentos como caminhos privilegiados da Via Pulchritudinis, para dialogar com as culturas contemporâneas: a beleza da criação, a beleza das artes e a beleza de Cristo. Desenvolveremos em particular o caminho da beleza das artes, de acordo com o nosso tema. Afirmam os bispos que «se a natureza e o cosmo são expressões da beleza do Criador e introduzem no limiar de um silêncio contemplativo, a criação artística possui a capacidade de evocar o indizível do mistério de Deus»7. A obra de arte não é beleza, mas é sua expressão, e obedece a cânones. Toda a arte está, de facto, ligada a uma cultura e possui um carácter intrínseco de universalidade. Melhor dizendo, «a beleza artística suscita emoções interiores; produz, no silêncio, o arrebatamento e conduz à “saída de si”, ao êxtase»8.

Por outro lado, «para o crente, a beleza transcende a estética e o belo encontra seu arquétipo em Deus»9. O artista contempla o mistério de Deus e o mistério do homem salvo em Jesus Cristo, por isso toda a obra de arte cristã tem um sentido, que a faz por natureza um “símbolo”, uma realidade que envia para além de si mesma. De facto, «a beleza é caracterizada pela sua capacidade de provocar a passagem do “para mim” ao “maior que eu”»10.

As obras de arte de inspiração cristã constituem assim uma parte incomparável do património artístico e cultural da humanidade. É importante realçar que as obras de arte têm um grande pendor espiritual e representaram ao longo da história um papel de aproximação do povo à dimensão mística. Sem dúvida, a beleza cristã é portadora de uma verdade maior que o coração do homem, verdade que supera a linguagem humana e indica o seu Bem, o único essencial11. Nesse sentido, Joseph Ratzinger afirma que «a arte continua a ser caracterizada pela unidade da criação, cristologia e escatologia»12. Deste modo, a arte permanecerá integrada no mistério que se presencia na Liturgia, uma vez que permanece orientada para a Liturgia celeste13.

O Pontifício Conselho para a Cultura, no documento Para uma Pastoral da Cultura, afirma que:

«no plano da formação. Uma pastoral orientada para a arte e os artistas pressupõe uma formação apropriada para entender a beleza artística como epifania do mistério. Os responsáveis por uma tal educação artística, em simbiose com a formação teológica, litúrgica e espiritual, saberão escolher os presbíteros e leigos aos quais será confiada a pastoral dos artistas, com a tarefa de emitir, no seio da comunidade cristã, julgamentos esclarecidos e de formular apreciações motivadas sobre a mensagem das artes contemporâneas»14.

A obra de arte é, pois, uma via, um caminho de evangelização e de diálogo, que dá a possibilidade de conhecer a aprofundar o património vivo do cristianismo e da fé cristã.

Notas:

1 SANTO AGOSTINHO, As Confissões, X, 27.
2 Cf. Assembleia Plenária dos Bispos – Cidade do Vaticano, 27-28 de Março de 2006, Via Pulchritudinis – O Caminho da Beleza, Edições Loyola, São Paulo, Brasil, 2007, 20.
3 Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura com Matteo Liuti (“Avvenire”), “Santi e Beati” Publicado em 14.12.2017, inhttps://snpcultura.org/sao_joao_cruz_padroeiro_misticos_poetas.html consultado em 23.05.2019, pelas 10h04.
4 M. CARVALHO, Introdução à Teologia de Hans Urs von Balthasar, UCP – Faculdade de Teologia, Lisboa 2003/2004, 33.
5 Ibidem.
6 Assembleia Plenária dos Bispos – Cidade do Vaticano, 27-28 de Março de 2006, Via Pulchritudinis – O Caminho da Beleza, Edições Loyola, São Paulo, Brasil, 2007, 22.
7 Ibidem, 34.
8 Ibidem.
9 Ibidem.
10 Cf. Ibidem.
11 Cf. Assembleia Plenária dos Bispos – Cidade do Vaticano, 27-28 de Março de 2006, Via Pulchritudinis – O Caminho da Beleza, Edições Loyola, São Paulo, Brasil, 2007, 38.
12 J. RATZINGER, Introdução ao espírito da liturgia, 92.
13 Cf. Ibidem.
14 Pontifício Conselho da Cultura, Para uma Pastoral da Cultura, Nº 36. In http://www.snpcultura.org/quem_somos_identidade.html.