Na Nigéria, a Igreja procura secar as lágrimas das vítimas do Boko Haram 

Foto: AIS

Diante dos olhos

Maiduguri, no norte da Nigéria, é uma diocese mártir. Calcula-se que mais de 20 mil pessoas foram mortas pelo Boko Haram apenas desde 2009. É nesta região que o temível grupo jihadista sonha construir um califado. O rasto de violência é perturbador. Ninguém está a salvo. Os Cristãos são um dos alvos principais. Naomi Dawa nunca mais conseguirá esquecer o dia em que lhe mataram o marido e a mãe. À sua frente…

Os relatos da violência na Diocese de Maiduguri, no norte da Nigéria, parecem irreais. Desde 2009, mais de 20 mil pessoas foram assassinadas pelo Boko Haram, grupo jihadista que procura edificar na região norte da Nigéria um califado. Ao rasto de sangue junta-se a destruição de mais de duas centenas de igrejas, paróquias, dezenas de escolas, lojas, hospitais e até três mosteiros. É uma violência bárbara. Nada é poupado. Viver assim é assustador. O rapto de mulheres e meninas é outra das facetas deste reino de terror que atinge esta diocese com particular intensidade. Leah Sharibu, uma jovem sequestrada a 19 de Fevereiro de 2018, é um símbolo dessa tragédia que tem vitimado a comunidade cristã. Tinha apenas 14 anos quando foi levada à força da escola em Dapchi. Recusou heroicamente renunciar à fé em Jesus, como os terroristas exigiam. Desde há três anos que está em cativeiro. “Tem havido uma sistemática perseguição aos Cristãos. Perdemos tantas pessoas…” O Padre Joseph Fidelis está em Bature, em Maiduguri. “Foram mortos muitos cristãos. Foram quase caçados como animais na selva”, diz. Uma das preocupações da Diocese é atender a todas as pessoas traumatizadas pela violência terrorista. Há muitas viúvas, muitas crianças órfãs, muitas famílias destroçadas. Os números agigantam a dimensão da tragédia. Parecem até irreais… Só em Maiduguri, a Igreja ajuda hoje cerca de 8 mil viúvas e 17 mil crianças e jovens. Todos são vítimas. Todos têm histórias terríveis para contar. Como Naomi Dawa.

Experiência traumática

Naomi é uma das inúmeras vítimas do Boko Haram que a diocese acolhe num centro construído com o apoio da Fundação AIS. Com o rosto escondido atrás de uma máscara por causa da pandemia do coronavírus, Naomi Dawa conta como o mundo desabou no dia em que os terroristas atacaram a sua aldeia. Num instante tudo mudou. “O Boko Haram matou o meu marido diante dos meus olhos e também matou a minha mãe…” É difícil renascer de uma dor assim. Aos poucos, Naomi está a reaprender a viver. O centro existente na Paróquia de Bature é um exemplo do trabalho essencial, mas quase invisível, da Igreja junto dos que passaram por alguma experiência traumática. “É um centro de trauma, onde as pessoas irão para se curar, integrar e reconciliar, o que irá ajudá-las a superar o que sofreram”, diz o Padre Joseph. Naomi perdeu o marido e a mãe. Perdeu também a alegria que lhe animava o rosto todos os dias. Agora está muito mais só no mundo. É ela e os filhos. Apenas. Mas Naomi sabe que, apesar do infortúnio, pode contar com a ajuda da diocese. “Foi a Igreja que veio ajudar-me a mim e aos meus filhos quando viemos para cá…” O Padre Joseph Fidelis pede ajuda para esta missão. Pede ajuda para continuar a acolher todas as vítimas dos terroristas que têm ensanguentado a Nigéria ao longo da última década. “Obrigado, AIS, pelo apoio que nos deram. Lembrem-se, embora a perseguição faça com que as pessoas sofram, também as fortalece, pois interiormente encontram uma razão para viver.” Todos os dias, o Padre Fidelis lida com pessoas em lágrimas, homens, mulheres e crianças vítimas da violência mais absurda deste grupo jihadista que sonha em implantar ali um reino de terror. Mas apesar de tudo isso, apesar de todas as mortes, de toda a destruição, de todas as igrejas queimadas, os Cristãos continuam a dar um testemunho de fé, o testemunho de que o bem acabará por vencer. “Precisamos da ajuda da Fundação AIS para podermos apoiar as pessoas que estão a sofrer, porque África e a Nigéria também são o futuro do Cristianismo…”

Paulo Aido