Quaresma, pandemia e o mais necessário.

D.R.

Os boletins, jornais e máquinas de informação estão cheias de comunicações, opiniões e contra-informação, mas raramente se sabe de que falam, e menos vezes o dizem, porque as ondas de palavreado e lengalengas afogam e algumas querem afogar-nos. Só a Igreja tem uma Quaresma e uma Páscoa cristã. A sua função e anúncio é dizer o quê e a ordem de o pensar com lógica para abrir para a fé. O deserto da Quaresma é tradicionalmente tempo de jejum de palavras confusas, para começar. O deserto é terapêutico, mas é mais que isso; morre-se também na Quaresma e as avalanches de números repetem-no todos os dias. Quantas pessoas haverá dignas de crédito e que dizem o mais necessário? Não faço ideia. Nas leituras da liturgia quaresmal, de portas abertas ou fechadas, essas palavras são ditas. Três delas são: jejum, oração e serviço caritativo com amor. E são ditas com ordem e lógica.

Não te armes a dar ordens a Deus e a abusar do poder d’Ele para proceder contra a sua vontade e guiar-te pelos teus caprichos. Recorre à sua palavra de verdade: «nem só do pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus» (Mt 4, 4). 

O diabo, com quem não se deve falar como disse o Papa há dias, recorreu à contra-informação acerca de Deus. Tu és o maior e até Deus e os seus anjos te servem; é só ousares. Deita-te do cimo do templo para o abismo e não te acontece mal nenhum; atreve-te a desafiar toda a gente e mostrar que és o maior e será o mais famoso e admirado. Vais receber milhões de likes. A resposta veio clara e direta, para pôr ordem nas coisas e sem a qual não se sabe de que se está a falar: «não tentarás o Senhor teu Deus» (Mt, 4, 7).

A tentação da vaidade, do orgulho, da grandeza, é a armadilha que mais desordena tudo e cria o caos da cultura atual. É também a que mais leva os homens a cometer erros fatais, dos quais a Quaresma convida à reparação: arrependei-vos e acreditai na boa nova do Evangelho! Quando se une à avareza, a vaidade leva a erros ainda maiores. Esta pandemia faz pensar em tanto bem que se faz e em tantos passes misteriosos, mágicos e enganosos que circulam. Fornecer vacinas aos pobres e não lucrar tanto é possível por fraternidade, como papa Francisco tanto deseja, ou por egoísmo de eles não contagiarem, quando nós já estamos vacinados? Porquê tem tardado a criação de medicamentos para o covid-19? Será conflito de interesses e a ganância da concorrência com as vacinas?

O diabo é aquele não desiste de tentar. Derrotado aqui, ataca dali, mentindo. Olha tudo isto é meu, mesmo tudo o que vês. Para ser tudo teu basta quereres e trocares o teu Deus por mim. Adora-me e tudo é teu. Ficas ao meu serviço e deixas de servir a Deus. Mais uma vez Jesus, após expulsar o Demónio, (vai-te, Satanás) insistiu no único necessário: só a Deus adorarás e só a Ele servirás.

O tempo de deserto e de Páscoa do único, sem substituto, da vida humana. Na pandemia têm morrido mais os idosos acima dos 70, e dizem alguns especialistas que a maioria morre com as complicações causadas pelo vírus nos idosos que estão afetados de três ou mais doenças. 

Quem é que têm uma palavra de vida eterna para aqueles que passam por uma ou outra doença grave? S. Pedro respondeu: a quem iremos sem o Pão do teu corpo? Só tu tens Pão e palavras de vida eterna. Palavra de vida eterna pascal não é vida sem morte, mas, com morte e ressurreição, primeiro, a de Cristo e depois a nossa. O deserto da Quaresma e da pandemia são um exercício de oração sobre este Quê: Este é o meu Filho muito Amado, escutai-O.

Funchal, 27 de fevereiro de 2021