Pornografia – Uma lacuna de base antropológica

D.R.

Quando o consumo de um produto é viciante, se está ao alcance de qualquer pessoa e é frequentemente gratuito, não é estranho que se “normalize”. Mas isso não quer dizer que ele seja inócuo!

Na era da Internet, a pornografia invadiu não só os computadores mas também as mentes de milhões e milhões de pessoas, de todas as idades. 

Para além de ser um produto prejudicial para a ecologia moral da sociedade, comporta custos exorbitantes em termos de saúde mental, no insucesso escolar, nas tensões entre casais, pela depreciação da sexualidade, pelo seu uso e abuso, nomeadamente de menores.

Não se trata apenas de o material pornográfico estar muito mais acessível graças à Internet, não se trata apenas de se produzirem todos os anos mais filmes deste tipo (com uma prevalência preocupante, para além disso, de pornografia violenta ou degradante); o mais grave é a sua crescente aceitação social: as jovens pousam descaradamente em posturas pornográficas nas redes sociais; as estrelas porno aparecem com frequência nas mesmas revistas sensacionalistas que os cantores, actores e outras celebridades destacáveis em vários campos sociais, numa promiscuidade banalizadora. 

Parte desta normalização da pornografia conseguiu-se graças a uma pensada estratégia de “desmitificação” deste tipo de material, eliminando a auréola de proibido que o rodeava e oferecendo-o, pelo contrário, como algo “sexy” e, inclusivamente, divertido e atraente.

 

Tendo em conta a mensagem que a pornografia envia aos seus consumidores sobre a relação entre homem e mulher, esta omnipresença do porno desencadeia um grave problema de saúde pública, pelas consequências nefastas destes comportamentos desviantes.

Jovens e adolescentes que consumam estes sites, ficam viciados, e dificilmente conseguirão concentrarem-se nas aulas ou nos estudos, pois a sua mente está demasiado ocupada e preenchida com estes temas corrosivos. 

Mulheres e raparigas adolescentes enfrentam uma cultura sexual moldada pela pornografia, que influi no modo de se verem a si mesmas e no tipo de relações que mantêm com os homens, o que as leva a tolerarem cada vez mais abusos emocionais, físicos e sexuais.

A exposição repetida a material pornográfico leva a que os seus consumidores tenham interpretações exageradas sobre a prevalência da actividade sexual; reduz o desejo de obter a exclusividade sexual com uma só pessoa (pelo que perde interesse o ideal de casar-se e formar uma família); aumenta o risco de desenvolver uma baixa auto-estima, sobretudo nas mulheres; diminui a capacidade de aprendizagem, gera uma imagem cínica e perversa do amor e uma visão da sexualidade como puro domínio sobre o outro.

 

Um dado muito revelador é que entre as mulheres que consumiram pornografia com assiduidade, directamente ou por exposição no domicílio familiar, é muito mais frequente uma atitude de indulgência com os delitos de violação, ou com o maltrato físico. A conexão entre pornografia e legitimação da violência é cada vez mais clara para os investigadores e terapeutas.

Outra tendência claramente documentada é a prevalência cada vez maior de problemas relacionados com a pornografia nos casos de divórcio. A maioria das mulheres entende como uma “traição” o consumo repetido de material pornográfico por parte do seu companheiro. Várias associações de juízes manifestaram que o consumo de pornografia – quase sempre por parte do homem – é cada vez mais uma das causas principais nos litígios matrimoniais.

São grandes as transformações que se produziram nas últimas décadas a respeito da catalogação do material pornográfico: o que antes era considerado “pornografia suave” nem sequer se considera pornográfico hoje em dia, e esse tipo de conteúdos estão omnipresentes em publicidade, videoclips ou séries para o público em geral; por seu lado, o que antes era “pornografia dura” constitui hoje a norma neste sector, enquanto o material duro actualmente manifesta uma perigosa tendência para o violento.

Esta mudança no paradigma da pornografia ajusta-se perfeitamente ao que se produz no cérebro do consumidor assíduo: no princípio sente repugnância perante determinados conteúdos, mas o hábito faz com que cada vez se requeira uma dose mais forte para alcançar os mesmos resultados. Daí que uma das consequências típicas do consumo frequente de pornografia seja que se deixa de sentir vontade por ter relações normais.

Todas as ciências são unânimes em considerar que a pornografia é altamente nociva para o homem do ponto de vista antropológico,
degradando-o no seu todo, aliena a sexualidade, destrói a afectividade, a sensibilidade, provoca alterações psíquicas e físicas irreversíveis, para além de se tornar uma dependência demasiada cara para qualquer sistema de saúde, na medida em que as suas consequências se reflectem directamente na sanidade da sociedade.