Dia Mundial do Doente, doenças e pandemia

D.R.

No “Dia Mundial do Doente”, que se celebra neste 11 de fevereiro por iniciativa da Igreja católica, e este ano marcado pela “pandemia”, quase que se torna uma “provocação” falar de “saúde” quando à nossa volta só vemos, lemos e ouvimos notícias sobre a “doença”… 

No entanto, podemos também encarar esta situação como uma oportunidade para uma reflexão alargada sobre o “sofrimento” e outras dores ou preocupações do ser humano.  É o que se pretende sugerir na breve entrevista com o P. Dr. Aires Gameiro, de 91 anos de idade, membro da Ordem Hospitaleira, licenciado em Teologia e em Psicologia, e doutorado em Teologia Pastoral da Saúde.

– Como se define a “doença” em geral? Será apenas um contraste com a saúde?

 Neste dia Mundial do Doente, essa questão é muito atual. Doença é uma limitação funcional do bem-estar holístico, da pessoa toda, integral que a leva a precisar de cuidados.

Quem é doente? O Papa na sua mensagem, entre outros termos, fala de doentes, enfermos, atribulados, frágeis. Ou seja, os ”dolentes” afetados de sofrimento, de dor, feridos, com mal-estar; os fracos, deficientes em alguma função. Mas engloba ainda os idosos, angustiados, etc. Não são apenas os curáveis, também os agonizantes, os apoiados com cuidados paliativos. Enfim podemos dizer que, em sentido largo, as famílias têm quase sempre algum doente em casa e nos lares. Doentes são, ainda, todos os que tomam algum remédio ou recebem cuidados relativos às necessidades que eles não podem assegurar para seu bem-estar. 

– Que significado daria à expressão “olhar o sofrimento dos outros”? 

Do olhar os olhos daquele que sofre fica a interpelação: é meu irmão! Tomar consciência disso é dar um passo na fraternidade humana, em que o Papa está empenhado, sem a qual a vida social é uma selva de indiferença e de morte. Poderá significar compaixão e proximidade no respeito da igual dignidade do irmão sofredor. O sofrimento dos outros pede ajuda, cuidados, coração, técnicas e arte de estar presente e apoiar sem humilhar. Cuidados paliativos são precisamente cuidados de apoio e presença.

Infelizmente, às vezes, o sofrimento dos outros em vez de ajuda leva a atitudes de indiferença, humilhação, descarte e formas de antropofagia e escravização: morte de bebés, pedofilia, eutanasismo, barrigas de aluguer, tráfico de pessoas.  

– Se a doença é congénita ou resultar da evolução da própria humanidade, como agir para evitá-la ou preveni-la? Basta confiar nos “poderes” científicos da medicina, nas vacinas? 

A ciência é uma riqueza e um tesouro extraordinários; participação no conhecer de Deus criador. Todas as criaturas estão cheias de “ciência muda” que fala nos cientistas. Têm penetrado nesses tesouros imensos; e continuarão a desvendá-los até ao fim dos tempos, sem os esgotar. A criação de vacinas é uma das maravilhas. Mas, por si só, a ciência e a técnica são um instrumento útil, como uma faca. Compete ao homem usá-las bem para remediar e prestar cuidados a doentes que sofrem. Infelizmente, pode ser usada para causar mais sofrimento e morte, como na eutanásia. Há um certo consenso de que a prevenção das doenças, apesar dos avanços, ainda é muito insuficiente entre nós. Muito mais doenças poderiam ser evitadas sem custos com prevenção. Os negócios interesseiros, porém, nem sempre deixam prevenir o que é de prevenir.

 – Atualmente uma “pandemia” controla tudo e todos. Como fazer sem cair no desânimo e desespero ou “depressão”; em quem confiar para reconhecermos algum sentido nas limitações do próprio ser humano e nas estruturas sociais que a doença põe a nu?

É uma questão enorme. O princípio é simples: todas a pessoas e todas as entidades e estruturas devem fazer tudo o que podem para ajudar. Mas não chega. Nem chegará porque a pandemia abalou tudo. Tudo estremece e os cuidadores esgotam-se. A fraqueza e limitações da humanidade, a começar pelos países ricos, estão à vista de todos. “A atual pandemia”, diz a Mensagem do Papa, (n.3), “colocou em evidência tantas insuficiências dos sistemas sanitários e carências na assistência às pessoas doentes”. Que fazer? Usar os recursos técnicos e os recursos espirituais da fraternidade e os da fé no Pai de todos. O recurso a cuidados informais, à hospitalização ao domicílio, aos autocuidados, quando possível. O Papa diz que do encontro com Cristo, como no Evangelho, e “do mistério da sua morte e ressurreição, brota aquele amor que é capaz de dar sentido pleno tanto à condição do doente como à da pessoa que cuida dele”(n.4).

– Na sua opinião, quais as piores “doenças” que hoje em dia mais contagiam o ser humano? 

Diria que são as epidemias estigmatizantes por razões e fatores sociais. Por exemplo, o HIV e outras doenças de transmissão sexual, e as que deformam a cara e o corpo; mas são mais ameaçadoras as que matam por não se conhecer ainda vacina ou remédio. Apesar de tudo o que se tem feito para ter vacinas, esta continua a matar e a causar medo. O “Covid-19” também vai matando; e paira a dúvida sobre o efeito imunizante das vacinas, agora que vão aparecendo as variantes do “coronavírus”.

– Pessoalmente falando, a sua idade já lhe permitiu enfrentar-se com muito sofrimento, a vários níveis, como está a encarar a situação atual?

Hoje (dia 10 de fevereiro), sinto-me perplexo se devo preocupar-me com as incertezas que a “pandemia” vai semeando, em particular entre os idosos; ou de outros vírus de fraquezas e pecados de que o mundo enferma. O anticristianismo hostil vai dando sinais, aqui e ali, com martírios, e mesmo ultrajes, em relação a Jesus Cristo e a Nossa Senhora. Não é só indiferença e irreverência, mas expressões de provocação e violência contra ícones cristãs, organizadas com grandes meios, como aconteceu com a destruição de estátuas de santos. Antes fossem fakenews! Será que o cristianismo de catacumbas vai continuar a alastrar sob complacências de alguns donos do mundo e de suas hostes? Alguns alvitram que sim e até poderemos ter de nos preparar para viver sem igrejas (templos). Entretanto, com igrejas abertas ou fechadas, estamos nas mãos de Deus e entregues aos encontros com Jesus Cristo até que nos chamem.

Entrevista conduzida por Vitória Menezes (para www.roinesxxi.blogs.sapo.pt)