Dia Mundial do Doente: D. Nuno lembra que “necessitamos do outro para ser mais”

Nesta celebração rezou-se pelos que sofrem com a pandemia e com outras doenças, mas também pelos médicos, enfermeiros, assistentes e demais pessoal que trabalha na saúde.

Foto: Duarte Gomes

A Diocese do Funchal assinalou esta quinta-feira, dia 11 de fevereiro, o 29.º Dia Mundial do Doente, com uma Eucaristia na Sé do Funchal.

Na celebração, presidida por D. Nuno Brás, recordaram-se os que sofrem com a pandemia, mas também aqueles que, segundo o prelado, “sofrem com outras doenças, tantas vezes condenados a esperar (senão mesmo a adiar) e não raras vezes ignorados no seu sofrimento”.

Na sua homilia, centrada na ideia de que não é bom que o homem esteja só, porque o ser humano “não se realiza na solidão”, ainda que esta seja “ponto de partida e uma realidade na vida de cada um de nós”, o prelado lembrou que “somos aqueles que necessitamos do outro para ser mais”.

Acontece que, “num mundo que hiper-valoriza o egoísmo e o isolamento (e como o temos vivido de há meses a esta parte!)”, essa realidade parece esquecida. Não admira, pois, “que o Papa Francisco tenha escolhido para temática do Dia Mundial do Doente que hoje celebramos a frase bíblica ‘Um só é o vosso Mestre e vós sois todos irmãos’ (Mt 23,8).”

Por um lado, explicou ainda o bispo do Funchal, esta afirmação de Jesus “sublinha a presença necessária do ‘Mestre interior’, Aquele que nos guia e inspira as nossas escolhas e decisões, cuja luz orienta os nossos passos; e, por outro, a fraternidade que une a todos”. Por isso, frisou, “não podemos deixar de oferecer ajuda ao nosso irmão, tal como não podemos deixar de aceitar a que ele nos oferece”.

Para falar do momento atual por que todos estamos a passar D. Nuno Brás voltou a citar Francisco quando este diz que a atual pandemia “colocou em evidência tantas insuficiências dos sistemas sanitários e carências na assistência às pessoas doentes”. Por outro lado, refere o Santo Padre, a pandemia “destacou também a dedicação e generosidade de profissionais de saúde, voluntários, trabalhadores e trabalhadoras, sacerdotes, religiosos e religiosas: com profissionalismo, abnegação, sentido de responsabilidade e amor ao próximo, ajudaram, trataram, confortaram e serviram tantos doentes e os seus familiares”.

Por tudo isto, disse o bispo do Funchal, neste Dia Mundial do Doente, “também nós queremos pedir ao Senhor, com toda a insistência e com fé. Queremos pedir pelos doentes — por aqueles que sofrem com a Covid-19 e pelos que sofrem com outras doenças, tantas vezes condenados a esperar (senão mesmo a adiar) e não raras vezes ignorados no seu sofrimento. E queremos também pedir por todos quantos cuidam dos doentes: médicos, enfermeiros, assistentes e demais pessoal que trabalha na área da saúde”.

“Entregamo-nos todos nas mãos do Senhor. Queremos pedir-lhe que nos ajude a viver bem, por entre os condicionalismos a que nos vemos obrigados pela atual situação sanitária. E queremos implorar-Lhe ainda que, de todo este sofrimento, surjam novas vontades, ânimo diferente de viver, na escuta do Mestre interior, único a poder conduzir-nos a novos e verdadeiros patamares de humanidade”, acrescentou D. Nuno que concluiu apelando a Nossa Senhora de Lurdes, cuja solenidade a Igreja assinalava neste dia, para que “interceda por todos, em particular pelos doentes e por quantos cuidam deles”.

No início desta Eucaristia, concelebrada por outros sacerdotes e também pelo capelão do Hospital Dr. Nélio Mendonça e pelo assistente espiritual do João de Almada, padres Bonifácio Santos e João Carlos Gomes, respetivamente, usou da palavra o Dr. Gil Alves, membro da equipa do Secretariado Diocesano da Pastoral da Saúde. Fê-lo precisamente para sublinhar que “colocamos de forma especial no coração de Deus, por intercessão de Maria a Mãe de misericórdia, os doentes do mundo inteiro e todos os que sofrem pelos mais diversos motivos”.

Desejou ainda que “este dia seja para nós um motivo de reflexão e ação de graças pelo dom da vida e da saúde neste tempo de pandemia” e “a quantos trabalham na área da saúde, em especial todos os profissionais de saúde e voluntários, que este seja um momento de revitalizarmos a nossa entrega junto daqueles que nos são confiados”.

De referir que esta Eucaristia contou com a presença de vários responsáveis da área da saúde, nomeadamente Pedro Gouveia, vice-presidente do Conselho de Administração do SESARAM, Isabel Silva, em representação da Secção Regional da Ordem dos Enfermeiros, Sónia Pimenta da Associação dos Doentes com Insuficiência Renal, voluntários e visitadores, para quem D. Nuno pediu também as orações de todos os presentes. 

Leia na íntegra a homilia de D. Nuno Brás: 

DIA MUNDIAL DO DOENTE 2021 

Catedral do Funchal, 11 de fevereiro, 2021 

 

“Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2)

  1. Quando Deus diz que “Não é bom que o homem esteja só”, como acabámos de escutar na Iª leitura, não está apenas a fazer uma verificação, a constatar um dado de facto. Está antes a afirmar que o ser humano, qualquer que ele seja, não se realiza na solidão; e que tal acontece por vontade do próprio Deus criador. Essa é a Sua vontade para cada ser humano, para todo e qualquer homem ou mulher: que cresça, viva e se construa, que se realize a si mesmo na comunhão com aqueles que, como ele, são também em si mistérios únicos onde se manifesta o amor de Deus.

É verdade que a solidão é um ponto de partida, uma realidade na vida de cada um de nós. De um ou outro modo, todos vivemos na solidão. Ninguém será capaz de garantir que, por exemplo, quando digo que uma casa está pintada de verde, a pessoa a quem falo perceba a mesma realidade como eu a percebo. Podemos dar o mesmo nome a uma realidade, mas não podemos garantir que ela seja percebida do mesmo modo.

Esta solidão de eu comigo; esta capacidade de pensar em silêncio, comigo; esta capacidade de ter um mundo que é apenas meu, marca cada ser humano como alguém único, irrepetível, em quem o amor divino se manifesta de um modo único, tornando-nos, desta forma, seres únicos, obras-primas que valem por si mesmos. E ai de nós se não formos capazes de viver positivamente esta solidão! Ela faz parte da bondade da criação. É o lugar da intimidade inviolável da consciência; lugar onde somos nós mesmos; verdadeiro “sacrário” de humanidade.

Esta solidão radical é apenas ultrapassada e partilhada plenamente com Deus. É a nossa existência mais secreta e profunda: apenas Deus é “intimior intimo meo” (“mais íntimo que o meu íntimo”), como reconhece Santo Agostinho (Conf., III,6,11). Mais ninguém, a não ser Deus, conhece totalmente os dramas de cada um, os seus problemas e angústias, os seus medos e desejos, e também as verdadeiras alegrias e a sinceridade do nosso coração. Deus é Aquele que nos conhece verdadeiramente; que nos conhece melhor que nós mesmos. E com Ele, na oração, havemos de partilhar esta intimidade; e a Ele havemos de recorrer nos momentos de tristeza e naqueles de alegria; e com Ele havemos de confrontar as nossas decisões quotidianas ou de importância fundamental para o nosso existir. À Sua luz havemos de caminhar.

  1. Mas o Criador quis que esta positiva solidão radical fosse ultrapassada não através de uma invasão da consciência, de uma “profanação do mistério” por parte de um outro ser humano ou por alguma máquina por ele construída, mas que a riqueza do nosso ser mais íntimo fosse partilhada com aqueles seres humanos a quem cada um se quer comunicar. “Não é bom que o homem esteja só”, diz Deus depois de ter criado o mundo material e aquele animal. É a maravilha da comunicação, do encontro entre seres humanos, da partilha da interioridade que nos constrói e permite crescer em humanidade.

Esta é a vontade de Deus: únicos e com uma interioridade incomunicável que nos torna pessoas, somos também aqueles que necessitam do outro para ser mais. Nenhum ser humano é capaz de viver radicalmente isolado dos outros. Mesmo os monges contemplativos, eremitas, que escolhem o silêncio do deserto para saborear mais plenamente a intimidade com Deus, mesmo esses trazem sempre consigo, bem presente, toda a humanidade, os seus problemas e derrotas, as suas alegrias e conquistas.

Somos radicalmente com os outros. E não é verdade que eles limitem a nossa liberdade e nos exijam cortes na nossa possibilidade de ser. Pelo contrário: somos tanto mais livres quanto mais livres forem aqueles que se encontram ao nosso lado, connosco. Somos tanto mais, quanto mais forem também os que partilham connosco a existência, quem quer que eles sejam: a grandeza de um ser humano mede-se, certamente, pela grandeza da sua interioridade; mas mede-se, igualmente (e em medida não inferior), pela capacidade de se deixar construir com os outros e de, com a sua generosidade, colaborar com todos na construção do mundo. Somos tanto mais, quanto mais e com maior qualidade for a comunidade em que nos inserimos e vivemos, e quanto mais colaboramos para o seu crescimento em todas as suas dimensões.

  1. Não espanta, por isso, num mundo que hiper-valoriza o egoísmo e o isolamento (e como o temos vivido de há meses a esta parte!), que o Papa Francisco tenha escolhido para temática do Dia Mundial do Doente que hoje celebramos a frase bíblica “Um só é o vosso Mestre e vós sois todos irmãos” (Mt 23,8). Por um lado, esta afirmação de Jesus sublinha a presença necessária do “Mestre interior”, Aquele que nos guia e inspira as nossas escolhas e decisões, cuja luz orienta os nossos passos; e, por outro, a fraternidade que une a todos.

Não havemos de escolher outro Mestre, ou de O querer substituir por nada ou por ninguém: seria um verdadeiro acto de idolatria. Mas não podemos deixar de oferecer ajuda ao nosso irmão, tal como não podemos deixar de aceitar aquela que ele nos oferece. Como afirma o Papa Francisco, “aexperiência da doença faz-nos sentir a nossa vulnerabilidade e, ao mesmo tempo, a necessidade natural do outro”.

Referindo-se ao momento por que todos estamos a passar, afirma ainda o Santo Padre: “A atual pandemia colocou em evidência tantas insuficiências dos sistemas sanitários e carências na assistênciaàs pessoas doentes. Viu-se que, aos idosos, aos mais frágeis e vulneráveis, nem sempre é garantido o acesso aos cuidados médicos, ou não o é sempre de forma equitativa. Isto depende das opções políticas, do modo de administrar os recursos e do empenho de quantos revestem funções de responsabilidade. O investimento de recursos nos cuidados e assistência das pessoas doentes é uma prioridade ditada pelo princípio de que a saúde é um bem comum primário”.

E continua o Papa Francisco: “Ao mesmo tempo, a pandemia destacou também a dedicação e generosidade de profissionais de saúde, voluntários, trabalhadores e trabalhadoras, sacerdotes, religiosos e religiosas: com profissionalismo, abnegação, sentido de responsabilidade e amor ao próximo, ajudaram, trataram, confortaram e serviram tantos doentes e os seus familiares. Uma série silenciosa de homens e mulheres que optaram por fixar aqueles rostos, ocupando-se das feridas de pacientes que sentiam como próximo em virtude da pertença comum à família humana. Com efeito, a proximidade é um bálsamo precioso, que dá apoio e consolação a quem sofre na doença”.

  1. O Evangelho de S. Marcos que escutámos (Mc 7,24-30) narrava o encontro de Jesus com uma mulher de origem pagã que pedia a cura de sua filha. Se, inicialmente, o Senhor parece relutante em aceder ao pedido daquela mãe, deixa-Se logo vencer pela sua fé persistente.

Neste Dia Mundial do Doente, também nós queremos pedir ao Senhor, com toda a insistência e com fé. Queremos pedir pelos doentes — por aqueles que sofrem com a Covid-19 e pelos que sofrem com outras doenças, tantas vezes condenados a esperar (senão mesmo a adiar) e não raras vezes ignorados no seu sofrimento. E queremos também pedir por todos quantos cuidam dos doentes: médicos, enfermeiros, assistentes e demais pessoal que trabalha na área da saúde.

Como afirma o Papa Francisco: “A doença tem sempre um rosto, e até mais do que um: o rosto de todas as pessoas doentes, mesmo daquelas que se sentem ignoradas, excluídas, vítimas de injustiças sociais que lhes negam direitos essenciais (cf. Enc. Fratelli tutti, 22)”.

Entregamo-nos todos nas mãos do Senhor. Queremos pedir-lhe que nos ajude a viver bem, por entre os condicionalismos a que nos vemos obrigados pela actual situação sanitária. E queremos implorar-Lhe ainda que, de todo este sofrimento, surjam novas vontades, ânimo diferente de viver, na escuta do Mestre interior, único a poder conduzir-nos a novos e verdadeiros patamares de humanidade.

Como afirma também o Papa Francisco: “Uma sociedade é tanto mais humana quanto melhor souber cuidar dos seus membros frágeis e atribulados e o fizer com uma eficiência animada por amor fraterno. Tendamos para esta meta, procurando que ninguém fique sozinho, nem se sinta excluído e abandonado”.

Que a Virgem Imaculada, Nossa Senhora de Lurdes, interceda por todos, em particular pelos doentes e por quantos cuidam deles.