Quatro anos em cativeiro

Irmã Glória Argoti | Foto: AIS

Irmã Gloria Narvaez Argoti foi raptada a 7 de Fevereiro de 2018 no Mali

Estava no Mali, a liderar uma pequena comunidade religiosa, quando foi raptada por terroristas ligados à Al Qaeda, em Karangasso, no Mali. Foi há quatro anos. A Irmã Gloria Narvaez Argoti está em cativeiro desde então. Está em cativeiro fez domingo, 7 de Fevereiro, mil e quatrocentos e sessenta dias. Está algures no deserto. 

Quase nada se sabe sobre a Irmã Gloria Narvaez Argoti. Está algures no deserto. As últimas notícias sobre a religiosa colombiana de 57 anos de idade e que pertence à Congregação das Franciscanas de Maria Imaculada são de Sophie Petronin, uma médica francesa libertada em Outubro do ano passado numa troca de prisioneiros com grupos jihadistas no Mali. Reféns do mesmo grupo terrorista, as duas mulheres chegaram a partilhar a mesma tenda, o mesmo espaço. Chegaram até a gravar por imposição dos jihadistas um vídeo apelando à libertação de ambas. Foi em 2018. O vídeo, a última prova de vida da irmã franciscana, termina com a religiosa a dizer que “faz todos os dias” a mala e prepara as suas coisas, pois “aguarda todos os dias” também pela sua libertação. Mas quem teve de fazer as malas foi Sophie Petronin. A notícia de que ia ser libertada chegou no dia 5 de Outubro. Desde então, as palavras de Sophie Petronin são preciosas pois oferecem pormenores até agora desconhecidos sobre a vida em cativeiro e o estado de saúde em que se encontra a irmã franciscana, a sua “companheira de quarto”, como carinhosamente a médica tratava Gloria Argoti. 

O ataque terrorista

O cativeiro em que se encontra a irmã Gloria começou no dia 7 de fevereiro de 2017, quando cinco homens armados entraram no convento das irmãs em Karangasso. O facto de as religiosas estarem naquela região quase abandonada, cuidando de crianças órfãs e ajudando as mulheres locais, ensinando-as a ler e escrever, dando-lhes alguma formação ao nível de cuidados de saúde ou até no trabalho dos campos, de nada lhes valeu. Para os terroristas elas representavam o adversário, o alvo a abater. O inimigo. Os pormenores do que aconteceu nesse dia seriam conhecidos mais tarde. Mal entraram na casa, os terroristas apontaram uma arma à irmã mais nova da comunidade, dizendo que a iam levar. Foi então que a Irmã Gloria, apercebendo-se que se tratava de um rapto e não de um assalto, pediu que a levassem a si, em vez da outra religiosa. Esse gesto altruísta revela muito da sua personalidade.  

O custo da solidão

Não sabemos como a irmã passa os dias. Mas imagina-se facilmente que agora o tempo será mais duro sem a companhia da médica francesa. As duas mulheres amparavam-se na desventura. A libertação, em Outubro, de um sacerdote italiano, o Padre Pier Luigi Maccalli, que também esteve sequestrado às mãos de um grupo jihadista no Mali, permite saber um pouco sobre a vida em cativeiro. “O tempo era longo”, explicou o missionário numa entrevista após ter chegado à Europa. “De manhã, quando me tiravam as correntes que tinha nos pés durante a noite, levantava-me, fazia uma pequena ‘toilette’, podia andar um pouco, rezava o terço que tinha feito com uma corda, depois ia aquecer água…” Ninguém sabe como estão a ser os dias da Irmã Gloria. Muito provavelmente, durante a noite, como os jihadistas faziam com o padre italiano, terá os seus pés presos com correntes para não fugir… Muito provavelmente passará também o tempo a murmurar orações com um terço que terá também improvisado com as próprias mãos como fez o padre Luigi. O que é certo é que no domingo, dia 7 de Fevereiro, passaram exactamente 1460 dias desde que foi sequestrada. Gloria Narvaez Argoti não é apenas uma mulher prisioneira de um bando de terroristas que aterroriza o Mali e os países da região. Ela é símbolo da Igreja perseguida no mundo, da Igreja que sofre. 

Paulo Aido