Instrução e a catequese a partir da beleza artística (1)

Obras de Caravaggio na Igreja de Santa Maria del Popolo, Roma

Para compreendemos a arte como meio privilegiado de evangelização devemos entendê-la

«como expressão e encontro com a beleza e a verdade, a beleza transcendente que permite o acesso ao mistério; a dimensão simbólica da arte, enquanto reflexo do mistério e procura do infinito; a arte como mediação e abertura à universalidade da salvação, caminho para Deus, instrumento de aproximação à fé e antevisão da «nova Jerusalém»; a obra de arte ao serviço da experiência da vida cristã, inclusive da mistagogia; a necessidade, nos tempos modernos, de se proceder a uma reaproximação entre arte e a fé; e a arte como caminho de evangelização das culturas»1. 

E além de tudo isso, há que considerar a dimensão prática de certos objetos artísticos, cuja finalidade primeira é servir, com «dignidade e beleza» (SC, 122), para o «esplendor do culto» (SC, 122). A Igreja tornou-se assim um repositório de arte, de cultura. 

A Constituição Sacrosanctum Concilium, do Vaticano II, ao referir-se às artes, aponta-nos do seguinte modo as suas finalidades: «pela sua natureza têm em vista exprimir de algum modo, através de obras humanas, a infinita beleza divina, e tanto mais serão dedicadas a Deus e contribuirão para seu louvor e glória, se não tiverem outro fim senão o de contribuir o mais possível para que os espíritos dos homens piedosamente se voltem para Deus» (SC, 122). Daqui podemos colher três notas fundamentais: «as obras de arte sagrada servem para exprimir a beleza divina; através das obras humanas; para conduzir os homens à sua relação com Deus»2.

A Igreja considera a beleza como expressão da «verdade» e do «bem»3, condições fundamentais para nos apropriarmos da sua universalidade e valor supremo, que é «altamente transcendente»4. 

Compreendemos que o mundo necessita de beleza, como bem sublinhava São Paulo VI, na Mensagem aos artistas, de 8 de dezembro de 1965, no encerramento do Concílio Vaticano II, «O mundo em que vivemos tem necessidade de beleza para não cair no desespero. A beleza, como a verdade, é que traz alegria ao coração dos homens; é este fruto precioso, que resiste ao passar do tempo, que une as gerações e as faz comungar na admiração»5. 

São João Paulo II, atento impulsionador dos sinais dos tempos, com a encíclica Fides et Ratio, pede aos filósofos que aprofundam as dimensões da verdade, beleza e bem, uma vez que dão acesso à Palavra de Deus. De facto, estas dimensões, de que fala o Papa, são uma via, pela qual o homem pode chegar a Deus. daí que se deva fazer caminho, pela Via Pulchritudinis, sobretudo porque nos ajuda a atingir uma real maturidade.

O mesmo Papa, na sua Carta aos artistas, abordou a nova epifania da beleza, preparando um novo diálogo entre fé e cultura, entre Igreja e a Arte, e sublinhando a necessidade recíproca de uma e outra. É um facto que as obras de arte comunicam a grande experiência da fé, do encontro com Deus em Cristo, onde se revelam o mistério do amor de Deus e a profunda identidade do homem. Ainda nessa Carta aos Artistas, O Pontífice considera que «a beleza é a expressão visível do bem, do mesmo modo que o bem é a condição metafísica da beleza»6. Assim se compreende a afirmação do mesmo Papa de que a beleza não é fim em si mesma, mas sim «instrumento» e «modalidade» da visão do Ser7. Compreendemos que a beleza em sentido pleno, é Deus, «Beleza Suprema»8, revelada em Jesus Cristo, a verdadeira «Beleza da Santidade Encarnada»9, que Deus oferece à humanidade para a sua salvação10. Lê-se na mesma carta que o mistério da encarnação introduz na história da humanidade toda a «riqueza evangélica da verdade e do bem»11, dando assim lugar à compreensão de uma nova dimensão da beleza, expressa em toda mensagem do Evangelho12. 

Aos bispos da Região Toscana – Itália, em visita Ad Limina Apostólica São João Paulo II dizia que o património artístico inspirado pela fé cristã é um formidável instrumento de catequese, fundamental para «novamente lançar a mensagem da beleza e da bondade»13. Do mesmo modo, o então Cardeal Ratzinger, Presidente da Comissão especial preparatória do Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, afirmava que:

   «a tradição secular e conciliar diz-nos que também a imagem é pregação evangélica. Os artistas de todos os tempos apresentaram à contemplação e à admiração dos fiéis os factos salientes do mistério da salvação, no esplendor da cor e na perfeição da beleza. Indício de que, hoje mais do que nunca, na época da imagem, a imagem sagrada pode exprimir muito mais que a palavra, pois é muito mais eficaz o seu dinamismo de comunicação e de transmissão da mensagem evangélica»14.

1- C. GODINHO, “Evangelizar pela Arte”, 73-74. Cf. PONTIFÍCIA COMISSÃO PARA OS BENS CULTURAIS DA IGREJA – La bellezza e la fede. Dall’adorazione e contemplazione del Mistero Eucaristico scaturisce l’amore per la belleza nell’arte en el culto. Discurso de Sua Ex.cia Rev.ma Mons. Mauro Piacenza. Roma, 21 de Abril de 2005.

2- C. GODINHO, “Evangelizar pela Arte, 74.

3- CONSEIL PONTIFICAL DE LA CULTURE – La Via Pulchritudinis, chemin privilégié d´évangelisation et de dialogue. Document final de l`Assemblée Plénière. Vaticano, 28 de Março de 2006, Cap. III, nº 2, al. A.

4 – Ibidem

5 – PAPA PAULO VI, Mensagem do Papa Paulo VI na Conclusão do Concilio Vaticano II aos Artistas, Cf. AAS 57 (1965), 232.

6 – PAPA JOÃO PAULO II – Carta aos Artistas. Vaticano, 4 de Abril de 1999, nº 3.

7 – PONTIFÍCIA COMISSÃO PARA OS BENS CULTURAIS DA IGREJA – La bellezza e la fede. Op. Cit.

8 – PAPA BENTO XVI – Audiência Geral. Castel Gandolfo, 31 de Agosto de 2011.

9 – CONSELHO PONTIFÍCIO PARA A CULTURA – La Via Pulchritudinis… Op. Cit., Cap. II, nº 2.1.

10 – Cf. Ibidem, Cap. II, nº 2-1. Cf. Ibidem, Cap. III, nº 2.

11 – PAPA JOÃO PAULO II – Carta aos Artistas. Op. Cit., nº 5.

12 – Cf. Ibidem, nº 5.

13 – Cf. JOÃO PAULO II, Aos Bispos da região Toscana (Itália), Cf. AAS, 74 (1982), 452.

14 – J. RATZINGER, “Introdução do Compêndio do Catecismo da Igreja Católica. Vaticano”, 20 de Março de 2005, nº 5. Disponível in: www.vatican.va.