D. Nuno foi à Boaventura falar da necessidade de estarmos mais atentos uns aos outros

Esta foi a primeira vez que o bispo do Funchal visitou aquela comunidade, que foi afetada pelo temporal do dia 25 de Dezembro. 

Foto: Duarte Gomes

O dia 25 de dezembro de 2020 continua bem vivo na memória das gentes de Boaventura e de Ponta Delgada. Naquele dia de Natal, o céu desabou em forma de chuva intensa e persistente. A água, a sobejar da terra, procurou caminho montanha abaixo e arrastou à sua frente tudo o que se lhe atravessou no caminho. Pedras, lamas e todo o tipo de entulho alojaram-se em quartos e quintais e o que era a casa de 39 famílias, 6 na Boaventura e 33 na Ponta Delgada, ficou destruído.  

Ontem, dia 6 de fevereiro, ao ouvir D. Nuno Brás falar sobre esse momento e explicar que já queria ter ido ali “muito antes”, mas que “quiseram as circunstâncias que tivesse ficado em isolamento profilático” por causa da covid-19, algumas paroquianas da Boaventura não contiveram as lágrimas.  

Pouco faltavam para as quatro da tarde quando o prelado chegou àquela comunidade paroquial para, à semelhança do que já tinha feito em Ponta Delgada, presidir à Eucaristia e rezar por aqueles que viveram “as dificuldades daquela tempestade de dia de Natal”.   

D. Nuno Brás foi recebido com palmas, flores e algumas palavras, que uma paroquiana leu em nome da comunidade, que quis com elas marcar esta primeira visita do seu pastor. Uma visita que, disseram, era “motivo de alegria e esperança”, mas também um sinal de “proximidade”.

A leitora, também ela emocionada, deu conta que aquela porção do povo de Deus quer “continuar a ser testemunha de Jesus e do Evangelho”. Tudo isto apesar “das contingências do tempo presente”, motivadas pela pandemia, que “nos impede de organizar a vida em comunidade” e “nos distância uns dos outros”, e do “muito sofrimento e ansiedade” que a tempestade veio causar e que o povo só vai ultrapassando com “muita fé”. 

Na homilia, centrada na passagem do Evangelho de São Marcos que fala da cura da sogra de Pedro e que de alguma forma relata o dia a dia de Jesus, D. Nuno Brás falou da importância de nós, cristãos, ocuparmos os nossos dias como Ele. O mesmo é dizer a curar, a expulsar os demónios, a rezar e a anunciar o Evangelho.  

E ao contrário do que possamos pensar, o verdadeiro cristão consegue fazer tudo isto, inclusivamente curar porque, explicou o bispo diocesano, “tantas vezes existem doenças que não se curam com medicamentos, nem com especialistas, mas sim com amor”. Atualmente, prosseguiu, “existe tanta gente que precisa de uma palavra e isso tantas vezes cura mais do que a sabedoria de médico, do que os remédios todos que possam aparecer e isso nós podemos e devemos fazer: curar”.  

Quanto aos demónios, também nós os podemos expulsar, a começar pelo “demónio do egoísmo, o demónio da inveja, o demónio do orgulho”. Para isso, “é preciso ajudar as pessoas a perceber que os outros contam, ajudar as pessoas a estar uns com os outros”. 

Já rezar é algo que deve fazer parte do nosso dia a dia, como fazia parte do de Jesus, e não se deve limitar a um repetir de orações, mas passar por “escutar aquilo que Deus tem para nos dizer, partilhar com Ele aquilo que nos vai no coração, agradecer aquilo que temos e aquilo que somos e pedir-Lhe que nos dê a força para mudar, para nos convertermos, pedir-Lhe que nos dê coragem para enfrentar as dificuldades”. 

Finalmente, o cristão deve ser alguém que anuncia o Evangelho. E isso faz-se, como dizia um seu colega, através da inveja. D. Nuno explicou: “Quando alguém vê um cristão e vê que ser cristão é qualquer coisa de entusiasmante, qualquer coisa de bom, diz que gostava de ser como aquele, de ter a fé como aquele”. E isso, prosseguiu, “está ao alcance de todos e é missão de todos”. E se é certo que “isso não resolve, nem faz desaparecer, os nossos sofrimentos”, o facto é que nos “torna mais felizes, mais humanos” e que nos dá “força para os ultrapassar, coragem para os viver”. 

O prelado terminou a reflexão recapitulando aquilo que não pode faltar no nosso dia dia de cristãos, a começar pela “atenção aos outros”, passando pela “atenção a Deus” e pelo “mostrar como é bom ser cristão” e desejando que “o Senhor nos ajude a sermos como Jesus”, porque “não é nada de mais, são tarefas e missões que Ele nos dá para cada dia que passa”. 

“Aceitemos estas tarefas que Ele nos dá e ao fim de cada dia perguntemos como as estamos a cumprir e peçamos ao Senhor que nos ajude a cuidar mais dos outros, nos ajude a estar mais com Ele, nos ajude a mostrar como ser cristão é bom e nos faz felizes”, concluiu. 

Antes da Bênção final coube ao Pe. Duarte Gomes, pároco de Boaventura, voltar a agradecer a presença de D. Nuno Brás que, disse, é “sinal de Cristo Pastor no meio do seu rebanho”. Além disso, agradeceu também “a palavra que nos trouxe e que é uma palavra que tanto estamos a precisar neste momento que estamos a reconstruir as nossas vidas”.  

Indo ao encontro da reflexão feita por D. Nuno, o Pe. Duarte também falou da oração, para dar conta que foi ela que valeu e salvou muitos dos seus paroquianos nos momentos de “pânico e tormento” vividos naquele dia 25 de dezembro. É também ela, disse, que está presente na hora de agradecer ao Senhor por “nos ter dado a coragem e a força que precisávamos para reconstruir a nossa vida, as nossas casas, as nossas propriedades”. Um trabalho que, frisou, tem merecido também todo empenho e ajuda por parte das autoridades, nomeadamente do presidente da junta de freguesia que, conjuntamente com uma vereadora, marcou presença nesta celebração.  

O Pe. Duarte disse ainda que os paroquianos de Boaventura têm, como disse anteriormente D. Nuno Brás, sabido curar com amor. “Tenho a certeza que não tem faltado entreajuda, a solidariedade que parte de um coração que se deixa moldar à imagem do coração do Senhor”, frisou o sacerdote que terminou agradecendo a todos quantos contribuíram, de alguma forma para que esta Eucaristia fosse digna daquela comunidade, que está “sempre disponível para acolher o seu pastor com alegria e carinho”.