Bispo do Funchal agradece aos consagrados da Diocese do Funchal que diz serem “presença concreta do Reino” 

Foto: Duarte Gomes

D. Nuno Brás agradeceu a Deus por todos os consagrados da Diocese do Funchal. Foi na homilia da Eucaristia a que presidiu esta terça-feira, dia 2 de fevereiro, na Sé e que para além do Dia do Consagrado assinalou também a Festa da Apresentação do Senhor e a de Nossa Senhora das Candeias.

E foi precisamente com a bênção das velas/candeias que esta Eucaristia, concelebrada pelos bispos eméritos do Funchal, D. Teodoro e D. António Carrilho, por D. António Montes, bispo emérito de Bragança-Miranda e por vários elementos do clero diocesano e não só, se iniciou. 

“Queremos, também nós, Diocese do Funchal, agradecer ao Pai a vida de tantos que (hoje como em toda a nossa história) são, por meio da sua consagração à vida dos conselhos evangélicos da pobreza, obediência e castidade, presença concreta do Reino”, disse o prelado, que explicou ainda que, de há 24 anos a esta parte a festa da Apresentação do Senhor, isto é, quando Jesus manifesta toda a sua existência como “consagrada ao Pai”, é “vivida por toda a Igreja como uma jornada de oração e agradecimento pela Vida Consagrada”.

“Fiéis e felizes”, frisou o bispo diocesano, “os consagrados são sinal concreto que alimenta em nós a esperança — aquela virtude que apenas Deus pode colocar nos nossos corações e que, tantas vezes, o mundo contemporâneo recusa”. 

Para quem não possui, conforme referiu, “outro horizonte senão o aqui e agora deste mundo”, torna-se muito difícil “compreender a esperança e, com ela, a consagração, quer dizer: a entrega total ao serviço de Deus, de modo a que toda a existência seja sinal de uma plenitude que não é possível atingir neste nosso mundo, mas da qual, já podemos e devemos viver”. 

Na verdade, “sem outro horizonte de vida, sem a capacidade que a fé nos oferece de olhar mais longe, sem o horizonte de Deus, vemo-nos desesperados, inconstantes, inseguros”. Nesse caso, explicou D. Nuno Brás, “resta-nos apenas o aqui e agora: o pouco que possuímos no momento, elevado à condição de ídolo, de substituto de um Deus a quem recusamos abrir as portas do coração”. 

“Sem esperança e, por isso, sem fidelidade. Sem fidelidade e, por isso, sem felicidade — o mesmo é dizer: condenados às pequenas e pontuais satisfações do prazer momentâneo, sem nada que unifique, que dê sentido a uma existência”, acrescentou. 

A propósito do lema da jornada de hoje — ‘Fiéis e felizes?’ — D. Nuno frisou que “queremos responder: felizes porque fiéis; fiéis porque animados pela esperança que nos oferece a presença do Salvador, bem junto a nós, em nós mesmos. Fiéis porque certos do horizonte de vida eterna em que já vivemos, mas que se tornará plenitude quando contemplarmos Deus face a face”. 

Fiéis e felizes, concluiu, “como o velho Simeão que, ao acolher nos braços o Messias esperado, pôde exclamar: ‘os meus olhos viram a salvação que oferecestes a todos os povos; luz para se revelar às nações, e glória de Israel, vosso povo’”. 

Datas Jubilares

Nesta celebração, animada liturgicamente pelo coro orientado pela prof. Isabel Gonçalves foram lembrados, de forma especial, aqueles irmãos consagrados que ao longo deste ano de 2021, celebram datas jubilares a saber:  

– Pelos 25 anos de Consagração pela Profissão Religiosa: Maria do Carmo Fernandes de Jesus; Maria Fátima Sousa Rocha e Elisa Manuel Paulo, todas da congregação das Irmãs de Nossa Senhora Das Vitórias. 

– Pelos 50 anos de Ordenação Presbiteral do Pe. Francisco Alexandre Henrique Jorge, da Ordem dos Frades Menores. 

– Pelos anos de Consagração da Irmã Delina Catarina Gomes de Castro, da Congregação das Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria e das Irmãs Maria Filomena Pacheco Moniz (Carminda), Maria Ester de Gouveia, Maria José de Nóbrega (Olinda) e Maria Fátima Gouveia, todas da Congregação das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias 

– Pelos 70 anos de Consagração das Irmãs Filomena de Oliveira (Ivone) e Maria Ermelinda Sena (Nataniela), ambas da Congregação das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias. 

Leia na íntegra a homilia de D. Nuno Brás:    

DIA DO CONSAGRADO 

Sé do Funchal, 2 de Fevereiro 2021 

“Esperava a consolação de Israel” 

  1. Celebramos a festa da Apresentação do Senhor no Templo: Jesus é levado ao Templo de Jerusalém em cumprimento de quanto estava determinado. Ao olhar desapercebido, Maria e José cumprem simplesmente uma determinação da Lei de Moisés relativa ao filho primogénito. Mas, de facto, aquilo que acontece é o encontro entre o Messias e o seu Templo: Deus vem ao encontro do seu povo; a Nova Aliança encontra e revela a plenitude de sentido do Antigo Testamento.

Nesta narração, o velho Simeão personifica o Antigo Testamento que reconhece o Messias esperado. Em Simeão, concentra-se toda a história do Povo de Deus. Este é o momento que os santos reis e profetas, sábios ou simples homens do povo esperaram ou (quando muito) viram de longe; é o momento que condensa todos os séculos da história de Israel e lhes dá sentido: a glória de Deus preenche o seu Templo; o Messias toma posse do que é seu; a espera dá lugar à realização; a história encontra o seu centro: nos seus braços de velho, Simeão acolhe o Messias, a vida nova, a plenitude da vida humana. 

  1. Uma série de características indicam-nos como Simeão personifica todo o Antigo Testamento. Desde logo, o seu nome: “Simeão”, “aquele que escuta”. E essa é a primeira atitude pedida por Deus a Israel (Jer7,22-23). 

S. Lucas diz-nos que Simeão era “justo e piedoso”. Era “justo” (δίκαιος), quer dizer:rectoaos olhos de Deus. Procurava conformar o seu agir de homem com o agir divino. Usando palavras do Novo Testamento, devemos dizer que Simeão “escutava a palavra de Deus e a punha em prática” (Mt 7,24). 

E era piedoso (εὐλαβής) — à letra: “aquele que apreende tudo quanto é bom”. O mesmo é dizer: aquele que se agarra a Deus. Na clássica tradição latina, a piedade é a qualidade daquele que cumpre os seus deveres para com os seus pais e família — o que, depois, se estendeu facilmente aos deveres para com Deus. 

Simeão: o homem que escuta, que pratica a justiça e que vive com Deus. Aquele velho era pois um resumo vivo de toda a Lei e dos profetas — que o mesmo é dizer: de toda a Escritura, de toda a Aliança (Mt 22,39). 

Era este homem justo e piedoso que “esperava a consolação de Israel”. Juntamente com a fé, “esperar” é a atitude que melhor caracteriza o povo do Antigo Testamento, o motor da sua história: quem aceita o desafio de viver com Deus, não pode deixar de perceber como o presente fica sempre aquém da felicidade a que o Senhor constantemente nos chama. Por muito que nos esforcemos, a comunhão com Deus é, neste mundo e na história, sempre uma 

realidade pequena e marcada pelo transitório, pela fragilidade e pelo pecado humano. E, no entanto, a nós, seres humanos, não basta o pouco que conseguimos: precisamos da plenitude do todo. Precisamos da plenitude da vida com Deus. 

Trazemos connosco o apelo da plenitude, mas por nós mesmos somos apenas capazes de construir uma pequena parte, o imperfeito, o transitório. Não nos admiremos pois que, para quem não acredita, a esperança pareça condenada a desaparecer. E, com ela, também a fidelidade — porque apenas a esperança é capaz de alimentar uma vida fiel. 

Alimentados pelos sinais do agir divino na história — que fazem surgir a fé no coração humano, como nos recorda a Carta aos Hebreus (Heb 11) —muitos foram os homens e mulheres do Antigo Testamento que esperaram contra toda a esperança (cf. Rom 4,8). Mesmo no seio do mundo que lhe é contrário, o povo de Israel espera: persiste em olhar o horizonte e esperar o Messias, aguardando que as promessas de Deus se realizem e o Messias salvador reconstrua, finalmente, o seu povo. 

Não espera como quem vive alienado, mas como quem aguarda uma realidade certa, mesmo que não saiba o quando e o onde da sua realização. 

Surpreendemos ainda hoje esta atitude no rito da Ceia Pascal judaica, quando se canta o célebre “dayenu”: “Ainda que só nos tivesse retirado do Egipto e não os tivesse julgado, Dayenu!” (Isso nos teria bastado para continuarmos a esperar!). 

  1. Por isso, representante da Antiga Aliança, Simeão esperava. Guiado pelo Espírito Santo, esperava que Deus cumprisse finalmente a promessa feita a David. Toda a sua vida tinha sido alimentada pela esperança. E eis que agora, passados todos aqueles anos, já perto da morte, os seus olhosvêemcumpridas as promessas. O Messias, o Cristo Salvador ali estava, tão concreto que o pôde receber nos braços. 

Se se tivesse esquecido de Deus, tudo teria aconselhado a que não olhasse o horizonte. Ter-se-ia visto condenado a viver apenas cada momento, retirando dele o máximo possível de fruição e de prazer, esquecendo, definitivamente, o dia de amanhã. Assim tinha sucedido aos seus antepassados no sopé do Monte Sinai, quando se cansaram de esperar por Moisés e decidiram construir um bezerro de oiro para adorar (Ex 32,1-6). Assim sucede, aliás, com tantos nossos contemporâneos que deixam de colocar os olhos na vida eterna, para trocar a promessa da plenitude pelo concreto do momento, pelo aqui e agora frágil, angusto, pouco, sufocando o apelo da eternidade, da plenitude. 

Mas eis que, já no fim da vida, a fidelidade de Simeão vê o seu fruto: os seus velhos braços acolhem o Messias esperado. O Apóstolo S. João haveria, tempos depois, de usar outras palavras para expressar este mesmo 

sentimento: “O que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e tocamos com nossas mãos acerca do Verbo da Vida […], isso vos damos a conhecer” (1Jo 1,1.3). O Messias ali estava: era o Menino do Presépio; era Deus que tinha descido à nossa condição humana para, por meio do caminho da cruz, oferecer a todos a realização da promessa, o cumprimento dos desejos mais profundos de todo e qualquer ser humano: a vida eterna. 

  1. A festa da Apresentação do Senhor (quando Jesus manifesta toda a sua existência como “consagrada ao Pai”) é, de há 24 anos a esta parte, vivida por toda a Igreja como uma jornada de oração e agradecimento pela Vida Consagrada. Queremos, também nós, Diocese do Funchal, agradecer ao Pai a vida de tantos que (hoje como em toda a nossa história) são, por meio da sua consagração à vida dos conselhos evangélicos da pobreza, obediência e castidade, presença concreta do Reino.

Fiéis e felizes, os consagrados são sinal concreto que alimenta em nós a esperança — aquela virtude que apenas Deus pode colocar nos nossos corações e que, tantas vezes, o mundo contemporâneo recusa. 

Para quem não possui outro horizonte senão o aqui e agora deste mundo, é muito difícil compreender a esperança e, com ela, a consagração, quer dizer: a entrega total ao serviço de Deus, de modo a que toda a existência seja sinal 

de uma plenitude que não é possível atingir neste nosso mundo, mas da qual, já podemos e devemos viver. 

Sem outro horizonte de vida, sem a capacidade que a fé nos oferece de olhar mais longe, sem o horizonte de Deus, vemo-nos desesperados, inconstantes, inseguros. Resta-nos apenas o aqui e agora: o pouco que possuímos no momento, elevado à condição de ídolo, de substituto de um Deus a quem recusamos abrir as portas do coração. 

Sem esperança e, por isso, sem fidelidade. Sem fidelidade e, por isso, sem felicidade — o mesmo é dizer: condenados às pequenas e pontuais satisfações do prazer momentâneo, sem nada que unifique, que dê sentido a uma existência. 

“Fiéis e felizes?” — interroga o lema da Jornada de hoje. E todos, certamente, queremos responder: felizes porque fiéis; fiéis porque animados pela esperança que nos oferece a presença do Salvador, bem junto a nós, em nós mesmos. Fiéis porque certos do horizonte de vida eterna em que já vivemos, mas que se tornará plenitude quando contemplarmos Deus face a face. 

Fiéis e felizes como o velho Simeão que, ao acolher nos braços o Messias esperado, pôde exclamar: “os meus olhos viram a salvação que oferecestes a todos os povos; luz para se revelar às nações, e glória de Israel, vosso povo”.