A arte como instrumento de evangelização (5) 

Emília Nadal, Caminho (série Via-Sacra)

O ano 2018 foi proclamado Ano Europeu do Património Cultural, constituindo a iniciativa um grande desafio para a Igreja. A propósito dessa circunstância, o então bispo auxiliar do Porto, D. João Lavrador, afirmava que o património reveste-se para a Igreja de muitas facetas, todas elas muito importantes. E acrescentava que, como a evangelização é a primeira e mais fundamental missão da Igreja, também o património tem para ela um relevante alcance no contexto da evangelização. E frisava que «a comunidade cristã deve tornar patente ao homem contemporâneo os elementos que conduzem à contemplação do transcendente que se revela através da beleza presente em toda a obra de arte» (SC, 129).

Por sua vez, Bárbara Fonte, em referência à mesma efeméride numa conferência, intitulada Fé e Arte: Para além da beleza, afirmava que 

«durante séculos, fé e arte caminharam de mãos dadas como que alimentando-se da existência (…). Descobre-se na fé, como na arte, um autêntico e constante trabalho de superação do imanente, mas através – e não além, nem sequer apesar – do que é próprio do ser humano. É no mastigar da realidade concreta, e mesmo banal, do quotidiano que se revela o sublime (…). Para o cristão, matéria não é um obstáculo a contornar. A relação com Deus prova-se, precisamente, na realidade material experimentada, concretamente, no corpo de cada um»1. 

Nesse sentido, Bárbara Fonte assenava à existência, no norte do país, de um grupo que se reúne para tratar variadas questões culturais, grupo esse formado de leigos de espiritualidade inaciana, que procuram aprofundar a necessidade deste diálogo entre fé e arte2. O grupo organiza colóquios designados por Fé e Arte. Assim:

«tocando a superfície da arte através da reflexão e da experiência de quem pensa a estética e de quem a missiona (porque é de missão que falamos quando dizemos arte), pudemos escavar um mínimo da sua espessura e, ao menos, entrever o mundo que nos abre através das inúmeras e incalculáveis janelas pelas quais a arte o espreita e nos convida a espreita-la»3. 

O Cardeal teólogo Luis Ladaria fez o prólogo do livro El Rojo de la Praza de Oro, que é uma entrevista de Natasa Govekar4 a Marko Rupnik5. Achamos importante referi-la por ser um diálogo muito interessante sobre arte, fé e evangelização. O Padre Marko Rupnik é um artista apreciado a nível internacional. Apresenta um elevado número de obras, essencialmente mosaicos, que decoram grandes catedrais, santuários, igrejas e capelas em diversos países. Ficou conhecido em todo o mundo quando São João Paulo II lhe pediu para decorar a capela Redemptoris Mater no Vaticano. Na verdade, Marko Rupnik alimenta-se e inspira-se na antiga tradição espiritual e artística do período paleocristão e do Oriente bizantino; estudou o românico, mas as suas obras demostram um toque de modernidade, que faz com que a tradição chegue a ser realmente viva6. Assim, a sua arte não é fruto da causalidade, mas está apoiada numa conceção teológica coerente e articulada, vinculada a uma espiritualidade e a uma experiência pessoal7.

Consideramos relavante para o tema em questão também um artigo de Emília Nadal, A estética, lugar de revelação de Deus e de invenção do sagrado. Os movimentos artísticos do século e suas construções, publicado na revista Brotéria. Segundo ela, a estética e o sagrado são dois conceitos extremamente densos e equívocos. Ao longo da história, desde Platão e Aristóteles, se investigou sobre a relação entre ambas. Estética pode ser entendida como 

«acordar em cada um de nós a memória de sensações já experimentadas, sensações pessoais e intransmissíveis que partem da nossa própria perceção do que identificamos como sendo o ‘estético’ (…) Assim, o conceito estará associado, talvez, a tudo o que consideramos que atinge o máximo da beleza, do equilíbrio, da perfeição, da bondade e do sublime que conhecemos»8.

 A articulista continua dizendo que o sentido estético é um sexto sentido que nos acompanha e que nos leva a distinguir o que é extra-ordinário9. Por outro lado, sempre segundo ela «através da percepção estética, os sentidos do corpo impulsionam-nos para uma outra dimensão da consciência; despertando os sentidos da alma para realidades que transcendem o útil e o imediato»10. Deste modo, o conhecimento sensível do que é surpreendente abre o espírito à intuição do transcendente, do absoluto e do sagrado. Podemos assim afirmar que a perceção estética, a criação e as linguagens artísticas são lugares propícios a hierofanias, espaços onde as linguagens de comunicação só podem ser simbólicas e se processam no plano mais íntimo do conhecimento11.