“Ser missionária é ser dom de Deus para este povo com tudo o que tem e é” – Filipa Amaro

A Fraternidade Verbum Dei chegou à Madeira há 30 anos. O Jornal da Madeira enviou algumas perguntas à missionária Filipa Amaro que as respondeu por escrito.

1. A Família Missionária Verbum Dei está a celebrar 30 anos de presença na Diocese do Funchal. Pode falar-nos um pouco da história desta missão?

Filipa Amaro – Tudo começou quando alguns jovens madeirenses tomaram contacto com a comunidade Verbum Dei no Campo Grande em Lisboa, onde se encontravam para prosseguir os seus estudos universitários. Identificaram-se com o seu dinamismo evangelizador e participaram na formação aí oferecida durante vários anos. Ao terminar os seus estudos, pediram insistentemente que a Fraternidade Missionaria Verbum Dei se fizesse presente na Madeira. Falaram com o Pe. Conceição (pároco do Imaculado Coração de Maria), e em 1991, começaram os primeiros encontros e as primeiras visitas das missionárias VD ao Funchal. Intuindo a importância do carisma Verbum Dei para a diocese, o Pe. Conceição assumiu um papel de mediador do processo de fundação que iniciou poucos meses depois e culminou com a inauguração oficial da casa disponibilizada às missionárias, pela paróquia, na rua da Carne Azeda. 

Foram os jovens a evangelizar os jovens. Inicialmente na paróquia do Imaculado e depois um pouco por toda a ilha foi-se criando um movimento onde os jovens cresciam na fé e se formavam para serem capazes de formar a outros. A nossa missão de dar a conhecer Jesus através da oração e do ministério da Palavra, acompanhado pelo testemunho de vida, continuou e cresceu através de encontros regionais de jovens, retiros de silencio, grupos de oração, grupos de revisão de vida, etc. Dela fizeram parte muitos jovens e adultos, casais e crianças. A VD marcou presença em diversas paróquias da ilha tais como a Calheta, Arco da Calheta, Rochão… 

Como sementes que se espalham na terra, assim tem sido a vida de muitas missionárias que tem passado pela comunidade da Madeira. Houve uns anos em que não foi possível manter a presença das missionárias na ilha, mas a semente permaneceu e houve um grupo de pessoas que continuou a cultivar o carisma que lhes tinha sido oferecido, reunindo-se para orar e celebrar juntos, e continuaram a oferecer a Palavra como alimento para a vida de outros. É belo ver a perseverança de um grupo de senhoras que se mantem quase desde os inícios, onde todas as quartas feiras de manhã se reúnem para orar com as leituras do Domingo seguinte. 

A Fraternidade Verbum Dei, instituto de vida consagrada, é composta por 3 ramos: as missionárias consagradas, os missionários consagrados (sacerdotes ou não) e os casais missionários. A Madeira, além da presença das missionárias, pode contar hoje com um casal missionário que, em 2013 celebrou os seus vínculos definitivos.  

Em 2009, a pedido do Bispo D. António Carrilho e também do Cónego Conceição, uma comunidade de três missionárias voltou, desta vez para a casa paroquial do Imaculado Coração de Maria, desde onde deram novo impulso à missão Verbum Dei na Madeira. 

Como sementes que se espalham na terra, assim tem sido a vida de muitas missionárias que tem passado pela comunidade da Madeira.

Desenvolvemos um trabalho de evangelização a nível diocesano em vários âmbitos tais como: preparação de jovens e adultos para o crisma, formação de catequistas e outros agentes pastorais, pastoral do ensino superior, pastoral juvenil, colaboração na conferencia dos institutos religiosos (CIRP), colaboração com a formação noutros movimentos. Também na paróquia, queremos que a nossa forma de estar seja sinal da presença de Deus no meio do seu povo. Fazemo-lo através da dinamização das eucaristias, dos diferentes tempos litúrgicos, e da formação e acompanhamento dos catequistas. 

No seio esta Igreja diocesana, foi-se constituindo e consolidando uma Família Missionária formada por pessoas que se identificam com o carisma VD e optam por seguir Jesus através dos meios concretos que esta comunidade lhes oferece. A ela pertencem pessoas dos diferentes estados de vida, de todas as idades e condição social, sinal de que o chamamento a ser Palavra de Deus para o mundo, é para todos. Ao longo destes últimos meses de pandemia também se fez sentir este espírito de família e até se alargou, pois, as atividades online (retiros, eucaristias, partilhas…) possibilitaram um contacto com mais pessoas da família VD nacional e internacional. 

É um dom muito grande poder celebrar 30 anos na Madeira, pois são 30 anos de vales e montanhas, de mar e de serra, de dificuldades e de avanços, de dor e de esperança…, mas em tudo é o Senhor que continua a fazer crescer a sua obra e a acariciá-la com muita ternura. 

2. No próximo domingo, 24 de janeiro, vamos celebrar pela primeira vez, o “domingo da Palavra de Deus”, instituído pelo Papa Francisco. Qual o lugar da Palavra de Deus na sua vida?

Filipa Amaro – A Palavra de Deus começou a ocupar um lugar especial quando, em Aveiro, conheci a Família VD enquanto estudava na Universidade. Através da Palavra, introduziram-me numa relação pessoal, próxima e familiar com Deus e isso, foi uma revolução na minha vida. Escutar a Deus que me falava, que me dirigia aquelas palavras que lia no texto bíblico a mim, era algo que nunca tinha pensado nem imaginado que seria possível e que me podia transformar tanto. 

Foi como a descoberta de um oceano imenso onde aprendi a mergulhar, onde por vezes é fácil entrar e atrai, e outras vezes é uma viagem turbulenta, onde parece que me afundo pois não sei nadar nessas águas e há correntes que me superam…

Durante muito tempo achei que eu lia a Palavra, tentava escutar o que Deus me dizia, assimilava, tentava pôr em prática, e partilhava-a com outros. Descobri também, que Deus me dava a mim, pelo carisma Verbum Dei, o dom de viver este dinamismo da Palavra e de o transmitir a outros para que o vivam. Agora, tenho a noção de que não sou tanto eu que leio a Palavra, mas é ela que me lê a mim e, necessito muito disso! Quando não me encontro na Palavra, nalguma imagem ou leitura ou personagem bíblico, e não encontro aí refletido o que estou a viver, a sentir, o que está a acontecer à minha volta, sinto-me perdida e sem rumo. Por isto, e porque é nela que se centra a nossa missão, todos os dias dedico algumas horas a orar a Palavra. 

“não sou tanto eu que leio a Palavra, mas é ela que me lê a mim e, necessito muito disso!”

Mas acima de tudo, a Palavra é Alguém: é Jesus, que se faz presente, palpável, concreto, no texto e para além do texto, na vida, na natureza, nos acontecimentos e nas vicissitudes de tantos homens e mulheres em quem habita.

O lema que escolhi para os meus votos perpétuos foi “Faça-se em mim segundo a Tua Palavra” e é esse o meu desejo: continuar a deixar que a Palavra se faça em mim, que forme em mim essa imagem segundo a qual Deus me criou.

Fascina-me poder ajudar as pessoas que tem fome e sede de beber desta fonte a mergulhar para além do sentido literal do texto e a descobrir que ali Deus as espera para lhes dar Vida!

3. A Madeira como qualquer lugar do mundo, tem as suas características próprias. O que é ser missionária nesta ilha?

Filipa Amaro – Eu cheguei à Madeira há 8 anos, e atraía-me viver num lugar pequeno, cheio de paisagens belíssimas e de uma natureza encantadora. Depois, pouco a pouco fui conhecendo também a dureza das suas realidades sociais e orográficas. Conhecei pessoas lutadoras, que não se resignam depois de umas enxurradas ou de um incêndio terrorífico. Ao ir fazendo parte da sua história e das suas vivências também comecei a sentir que a beleza da natureza é uma a forma de Deus consolar o seu povo, aliviar muitas vezes as suas dores e dificuldades. 

Apesar de residir numa paróquia do Funchal, fui tomando contacto com outras paróquias e realidades da diocese e encontrei sempre gente muito generosa, com uma fé sincera e um coração sedento de Deus. Encontrei jovens muito sensíveis, alegres, criativos, atentos e solidários, … terrenos férteis onde semear a Palavra.

Nalguns ambientes mais tradicionais, como são alguns lugares da Madeira, ser missionária é algo novo e às vezes estranho, pelo facto de não usar hábito, de não viver num convento, de não ter um estilo de vida semelhante às congregações tradicionais… 

Contudo, sinto o apreço de muitas pessoas que acolhem com muita sede a Palavra, a formação, a proximidade, o acompanhamento espiritual que nem sempre é fácil encontrar nos nossos contextos. 

“Ser missionária na Madeira também me tem dado a alegria de poder contar com alguns leigos comprometidos, que se deixam tocar pela Palavra e a querem transmitir com a sua vida”

Um desafio com que me tenho deparado é que depois de um primeiro contacto com o carisma VD, é preciso ir mais fundo e deixar penetrar a Palavra cada vez mais na vida e aí é que “a porca torce o rabo”. Ao ser um lugar pequeno, onde é muito fácil as pessoas conhecerem-se e terem contactos umas com as outras em diferentes contextos, as relações de confiança e amizade tornam-se por vezes realidades mais complexas e difíceis de gerir.

É preciso ser paciente pois um processo de crescimento espiritual implica tempo, e a construção de uma comunidade evangelizadora também. É preciso tempo para ganhar confiança, para fortalecer laços e isso, nem sempre é linear. Ser missionária é também entrar nesta “trama” de relações e por vezes, sofrer com isso. No entanto, o Evangelho continuará sempre a apontar o caminho do reino, como essa realidade que inicia pequena, como um grão de mostarda, até chegar a ser uma árvore que acolhe todo o tipo de pássaros!

Ser missionária na Madeira também me tem dado a alegria de poder contar com alguns leigos comprometidos, que se deixam tocar pela Palavra e a querem transmitir com a sua vida, seja nas suas paróquias, realidades familiares e trabalhos. Ser missionária é ser dom de Deus para este povo com tudo o que tem e é. 

Não nego que por vezes preciso de sair da ilha para ver mais “mundo” para lá do mar e encontrar-me com outras realidades e pessoas. O fazer parte de uma comunidade internacional também me dá um coração que pede ir além-fronteiras. 

4. Uma palavra final sobre o contexto de pandemia que estamos a viver …

Filipa Amaro – A situação atual deixa-me bastante preocupada com algumas realidades nomeadamente os desempregados, os profissionais de saúde, os idosos, os professores, as famílias, …  Precisamos de acreditar que temos ou encontraremos os recursos humanos, pessoais e sociais, para responder aos desafios que temos de enfrentar. Tal como tem referido o Papa Francisco, para além do coronavírus, é preciso combater contra outros vírus, como o egoísmo, o individualismo, etc. … E esta luta começa no coração e no dia a dia de cada um de nós.

Sem desvalorizar o sofrimento que tudo isto está a provocar, penso que também é uma oportunidade para tomarmos consciência de quem somos, do que estamos chamados a ser neste mundo. A nossa vida é mais do que poder trabalhar, sair, cultivar relações, etc. A nossa vida está nas mãos de um Pai que nos segura e não nos abandona, seja em que circunstância for. Aproveitemos para cultivar essa dimensão espiritual que tantas vezes desleixamos ou não damos atenção. Reconheçamos que temos sede de um descanso que só temos em Deus! “Fizeste-nos para ti, Senhor, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em Ti.” (Sto. Agostinho).

Pedras Vivas 17 de janeiro de 2021 (leitura A4)

Pedras Vivas 17 de janeiro de 2021 (impressão A3)