Pandemia das surpresas e esperanças

D.R.

No ano 2020 sucederam-se muitas surpresas em contexto de pandemia, continuadas no ano novo com celebrações de 3-4 pessoas, e solidões murchas da passagem do ano. Esperança de sentido novo das intromissões inesperadas na vida dos crentes a evocar as palavras de Jesus: «entra no teu aposento e ora ao teu Pai, a sós»;  e as questões a retenir: para que serve a vida, para onde vamos? «E vós quem dizeis que eu sou?» (Mt15-23). 

Há tempos do acontecer o esperado, normal, sem questões. De repente, como agora, surgem surpresas singulares e questões insistentes. As vítimas do vírus e familiares, em aflição, gemem: mas, porquê, a mim? E alguns levantam suspiros de esperança e de gratidão aos seus cuidadores, em contentamentos contidos e lágrimas. Muito se fala, se lamenta e se chora a segunda vaga do Covid-19 e suas variantes a chamar entes queridos e amigos. À mistura, esperanças  depositadas nos testes e nas vacinas. Muito se discutem os lares sem condições, as camas ocupadas e em falta nos hospitais. Muito se opina sobre a data das eleições, os acertos e erros do ano findo e o que mais virá. 

As emergências, repetidas, já não surpreendem, para que isto mude, para que parem os efeitos teimosos deste impertinente covid-19. Quem imaginaria que na Festa do Ano Novo se vissem apenas 3-4 pessoas em capelas de mais de 200? E iguais cenas se repetissem nas festas da Epifania, do Batismo do Senhor e, talvez, nos domingos que aí vem. Quem imaginaria, há dois anos, que idosos, crianças, profissionais, iriam viver dias em sobressalto: sós, separados, distantes, proibidos de circularem, abraçarem e beijarem?  Solidão de multidões!

A pandemia de tantos números já conta quase dois milhões de mortos, (8 mil por cá),  hospitais cheios de infetados, pessoal de saúde, generoso e esgotado; stresse de corpo  e alma. O vírus vai interromper e parar quase tudo «o agradável» e indispensável na vida quotidiana. Obriga a dispensar coisas que milhões de irmãos no mundo sempre tiveram que dispensar por pobreza e miséria. Centenas de coisas «indispensáveis» dispensadas. Aqueles a ficar mais pobres e, talvez, mais ricos de dedicações essenciais esquecidas; e estes, agora, ainda mais pobres do que nunca tiveram. 

Dá que pensar que cerca de metade da população esteja a ficar mais pobre, enquanto poucas centenas de super ricos já multiplicaram e fizeram crescer 800 mil dólares por dia à sua riqueza! E como já não surpreende que os média, mais poderosos, os favoreçam? Não seria de esperar mais fraternidade e menos ditadura mediática? E surpreende que super capitalistas manipulem a esquerda extremista que se apregoa de oprimida?

Bem deseja o Papa promover a fraternidade global, fratelli tutti, e o bem comum. Afinal, entre tanta coisa boa, abundam sinais de regressão civilizacional de uns mais irmãos que outros: nas extremidades do arco da vida tantos irmãos são descartados na rua, em lares sem condições, em hospitais com «cuidados» de tirar a vida e em clínicas equipadas para não deixar nascer os mais frageizinhos de todos. Espera-se que na Europa da Bazuca não irá haver, de novo, desvios descarados de dinheiro comum, que faltará aos mais afligidos da pandemia e da pobreza a que os reduziram. Esperança maior precisa-se: a família de todos os irmãos,  filhos de Deus, o Pai de todos.

Funchal, 13 de janeiro de 2021

Aires Gameiro