Irmã Maria da Cruz: “Onde houver alguém a sofrer, há um coração contemplativo, junto dele, a rezar e a entregar a vida”

Vivemos atualmente num contexto marcado por uma pandemia que provoca graves consequências na vida pessoal e social. Uma das medidas de controlo e prevenção da doença é o isolamento ou  “confinamento profilático”. O Jornal da Madeira falou com a Irmã Maria da Cruz, das irmãs clarissas do Mosteiro da Caldeira em Câmara de Lobos que nos explicou o sentido da vida de clausura e a importância da oração.  

Jornal da Madeira – Quem são as irmãs Clarissas? 

Irmã Maria da Cruz – Esta vida de especial consagração pertence à plenitude da Vida da Igreja. É uma forma de vida, que se vive no silêncio, na entrega generosa e na alegria, em clausura. Identificadas com Cristo, orando no Monte ou passando a noite em oração, os contemplativos vivem uma vida de inteira doação e realizam trabalhos que se coadunam com o seu modo de viver. No nosso caso concreto, no Mosteiro de Nossa Senhora da Piedade, as Irmãs dedicam-se a trabalhos manuais e, para sua subsistência, ao fabrico das hóstias destinadas à Madeira e ao Porto Santo.

Este viver causa interpelações profundas nos crentes e não crentes, que buscam as razões da sua existência. Mas, afinal, porque estão as Irmãs “confinadas”? Uma opção livre e voluntária para servir a Deus e a humanidade. Como dizia Santa Teresinha do Menino Jesus: “No coração da igreja, minha mãe, eu serei o Amor”.

“O sofrimento humano, as dores, as alegrias e esperanças, encontram no coração dos contemplativos a ressonância e o acolhimento, que a todos envolve num abraço orante”.

Jornal da Madeira – A irmã podia explicar-nos o que é a clausura?

Irmã Maria da Cruz – Em primeiro lugar queria dizer-lhe que a clausura dos contemplativos não é um confinamento profilático. 

No caso de uma vida de especial consagração, em clausura, esta tem um significado teológico. É um afastamento voluntário do mundo, em ordem a uma maior intimidade com Deus, o Sumo Bem e com a humanidade, conforme o carisma contemplativo. Na Ordem de Santa Clara, a clausura tem força de voto. 

Todo o homem ou mulher, sente dentro de si uma ânsia de infinito, que só Deus pode preencher em plenitude. A Igreja, ao escutar e discernir este apelo dos seus filhos e filhas, manifesta uma grande estima por esta forma de vida e diz-nos com exultação e júbilo: “Quanta alegria e profecia grita ao mundo o silêncio dos claustros”!

Num mundo da cultura da indiferença, face à atual situação dramática mundial, da pandemia do coronavírus, os contemplativos olham com um coração compassivo para esta realidade tão dolorosa. O sofrimento humano, as dores, as alegrias e esperanças, encontram no coração dos contemplativos a ressonância e o acolhimento, que a todos envolve num abraço orante.

“Rezamos pelos profissionais de saúde, médicos, enfermeiros, pessoal auxiliar e todas os agentes de saúde, que na linha da frente, se esgotam junto dos doentes para os salvar”.

Jornal da Madeira – Qual o lugar da oração na vida contemplativa? 

Irmã Maria da Cruz – Pela oração, tomamos consciência da presença de Deus na nossa vida e percorremos os caminhos do mundo, para levar com Jesus, Luz, consolação e amor. Onde houver alguém a sofrer, há um coração contemplativo, junto dele, a rezar e a entregar a vida, em união com os sofrimentos de Cristo. Somente na Luz do mistério Pascal do Senhor, encontramos a resposta para todos os sofrimentos da humanidade. É o mistério admirável da comunhão e do amor compassivo de Jesus, que nos envolve e se manifesta ao mundo, no hoje da história.

Como sabe, a oração é um dom do Espírito Santo, que acende no coração uma luz imensa, que une o céu e a terra. De todos os lados, chegam pedidos de oração, quer a nível regional, nacional, mas também internacional. Lembro, sobretudo, os nossos emigrantes, que, cheios de saudade ou com as famílias confinadas pelo coronavírus, não podem visitar a sua terra, devido às contingências da pandemia. Dói-nos a alma, por tanto clamor e sofrimento. Sentimo-nos profundamente unidas a eles, em oração. 

Rezamos pelos profissionais de saúde, médicos, enfermeiros, pessoal auxiliar e todas os agentes de saúde, que na linha da frente, se esgotam junto dos doentes para os salvar. Lembramos os que partem para a eternidade, em solidão profunda, as famílias desoladas que choram os seus entes queridos e a dor imensa, que só o amor pode tocar delicadamente.

Não podemos esquecer, como é óbvio, os cientistas que se esforçaram para conseguir um combate eficaz com novo fármaco. A chegada da nova vacina lançou raios de esperança e de consolação nos corações desesperados. Pedimos a Deus que o novo medicamento seja eficiente e salve o maior número de pessoas. “A glória de Deus é o homem vivo”, afirma Santo Ireneu. 

“Sem querer minimizar os graves sofrimentos, que a todos atinge, em primeiro lugar, gostaria de vos dizer que a oração é uma boa terapia para a alma”.

Jornal da Madeira – Que mensagem deixa aos nossos leitores?

Irmã Maria da Cruz – Sem querer minimizar os graves sofrimentos, que a todos atinge, em primeiro lugar, gostaria de vos dizer que a oração é uma boa terapia para a alma. Nós não sentimos propriamente o distanciamento físico e material, que faz parte da nossa vida em clausura: uma vida simples, alegre, escondida e silenciosa. Nada nem ninguém nos pode separar do amor de Cristo. No silêncio, escutamos a voz de Deus e da humanidade. Exercemos a cultura do cuidado, como nos pede o Papa Francisco, através da oração. Os muros da clausura não impedem de levar o amor a todos os recantos do mundo, particularmente aos que mais precisam da nossa ajuda orante.

Sentinela na noite, que espera o raiar da nova aurora, o contemplativo mantém-se vigilante na oração e no sacrifício, gastando a sua vida, por amor, iluminando os outros.

Coragem. Não desanimem! Além dos cuidados de distanciamento e de higiene, queremos lembrar que Jesus Cristo permanece connosco! Conhece as nossas dores, os nossos sonhos e esperanças! O mundo está nas mãos de Deus, nosso Pai. 

Com Nossa Senhora do Monte e S. Tiago Menor, que através da sua poderosa intercessão, ajudaram a Madeira nos momentos de graves calamidades, pedimos a brisa suave do Espírito Santo para todos os corações, que sofrem a doença, os medos e a angústia do tempo presente.

Pedras Vivas 03 de janeiro de 2021 (leitura A4)

Pedras Vivas 03 de janeiro de 2021 (impressão A3)

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