Aniversário da morte da Serva de Deus Maria do Monte, irmã hospitaleira

D.R.

Nesta sexta-feira, dia 18 de dezembro, decorre o 57° aniversário da morte da Serva de Deus Maria do Monte Pereira, Irmã Hospitaleira, nascida na Madeira, cuja conclusão e apresentação da “Positio” na Congregação para a Causa dos Santos, decorreu em outubro deste ano. Publicamos um texto sobre a vida desta religiosa madeirense a caminho dos altares. 

Serva de Deus Maria do Monte
Irmã Hospitaleira do Sagrado Coração de Jesus

“A natureza é para mim um livro, onde leio as grandezas de Deus. Sempre, desde criança, me elevava tudo o que via. O sol, as estrelas, o mar, as árvores, as flores, o cantar das avezinhas, um cair da tarde, um romper da manhã, a solidão da noite, tudo me encantava!”. 

Assim começa um dos primeiros manuscritos da Irª Maria do Monte. É o olhar de quem vê para além da realidade, que poetisa a natureza e nela encontra o Deus da criação, neste livro infinito que é a vida, folheando-o com os dedos da contemplação e os olhos da descoberta. 

Nasceu em 1897, na freguesia de Santo António, no Funchal e foi batizada com o nome de Elisa de Jesus Pereira. Quando em 1927 entrou na Congregação das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus, deram-lhe o nome de Maria do Monte, a Senhora da sua devoção. A 18 de dezembro de 1963, aconteceu o seu dies natalis, após um percurso de 36 anos de hospitalidade.

Elisa, cresceu numa família simples e humilde. Órfã de mãe aos 15 anos e de pai aos 17, assume a responsabilidade da casa, cuidados e educação do irmão mais novo, juntamente com a sua irmã, que era uma pessoa frágil. Na paróquia era uma dedicada catequista. Falava de Deus às crianças. Um dos seus catequizandos proferiu as seguintes palavras: “(…) a Elisinha ensina-nos a falar com Nosso Senhor, estamos uns momentos a dizer coisas lindas a Jesus, e falamos dos nossos pais para que os ajude e abençoe, e que sejamos bons e obedientes, caritativos uns com os outros, que nos amemos a todos até àqueles de que não gostamos, e assim, seríamos felizes e alegrávamos o Coração de Jesus e o da Santíssima Virgem”.

Elisa conversava com Deus, sentia Deus, falava de Deus. Era uma apóstola do seu nome e da sua boa nova. Sentindo-se chamada por esse Deus que a foi habitando, encontrou forte oposição por parte dos seus familiares, que precisavam da sua presença, do seu conforto e ajuda. Mas Elisa sabia que poderia fazer mais e diferente e que a voz de Deus não lhe dava descanso. Perante os argumentos de que fazia falta à família, decidiu esperar mais alguns anos, até dar o salto para o seu sonho. Um sonho grande e incomensurável, de viver para os outros, de servir Jesus nos outros, de seguir a sua vocação. Revestida de coragem, ousou conquistar o mar imenso do seu futuro, que começava mesmo ali, no barco da vocação hospitaleira. Nossa Senhora do Monte, foi a sua protetora. O mesmo Deus de quem falava às crianças, que a cativou teimosamente, deu-lhe a garantia de uma aliança inquebrantável.  E mesmo sem ver, ela acreditou. Porque estava imersa na infinidade da sua fé e na certeza da voz de Deus que a chamava. 

A 3 de abril de 1927, inicia a sua caminhada ao entrar no Noviciado das Irmãs Hospitaleiras em Idanha-Belas, Concelho de Sintra. Mais tarde, quando fez a sua Profissão Religiosa, escreveu: “Eu, neste dia solene, me ofereço ao Vosso Coração como vítima de holocausto ao Vosso amor! Que todos os sofrimentos da Vossa alma e do Vosso Coração passem para esta pequenina hóstia que hoje se imola neste altar; ó Jesus aqui me tendes a vossos pés, pronta para sofrer na minha alma e, até se quiserdes, no meu corpo! Que eu seja outro Jesus Crucificado em reparação dos pecados de todo o mundo e para ajudar os missionários”. 

Tal como ao profeta Isaías (Is. 61,1-2), Deus consagrou-a e enviou-a para junto dos mais pobres, a curar os feridos de coração, a testemunhar o amor entranhável de um Deus misericordioso, que se faz gesto de presença no abraço humano de quem cuida. 

D.R.

A Irmã Maria do Monte na sua vivência do serviço hospitaleiro, experimentou também a densidade mística deste amor de Deus, que é o primeiro a escolher e a permanecer fiel, percorrendo com Ele o mistério da Paixão, numa ligação silenciosamente divina. Através dessa união com a divindade, caminha no mistério do transcendente, na busca contínua da vontade de Deus e dos seus segredos intraduzíveis em palavras, apenas percetíveis pela fé. É essa mística que lhe dá o alento para todos os dias, qual “bom samaritano”, debruçar-se sobre os feridos caídos no caminho do sofrimento, derramando sobre eles o óleo da misericórdia e o vinho da caridade. E é ancorada na força de Deus, que o seu coração se torna hospitalidade viva, incapaz de passar ao lado, porque ali, aqueles que sofrem, “são vivas imagens de Jesus”.

A sua experiência de Deus, traduz-se na sua vivência com os irmãos, seja com as Irmãs das Comunidades por onde passou, seja com as doentes, a quem se dedicou e a quem prestou cuidados.

Sobressai nos serviços simples, como trabalhar numa cozinha, nas Unidades de Internamento ou em serviços com outras exigências, como ser Vice Mestra, colaborando na formação das jovens candidatas à Congregação, onde esteve durante 8 anos. Com todas, revela atenção, amabilidade, compreensão, empatia, preparando-as para a difícil tarefa que implicava cuidar de pessoas com doença mental, num tempo em que a Psiquiatria ainda dava os primeiros passos, ao nível dos avanços terapêuticos a vários níveis. Facilmente conquista a confiança daquelas a quem formava, com os seus exemplos de cumprimento das regras comunitárias, atitudes de acolhimento, responsabilidade, sentido de humor, alegria e delicadeza. Por outro lado, a sua vida era tão simples e discreta! 

Ao serviço das doentes, traduz vivamente o carisma hospitaleiro do serviço gratuito, da compaixão, do respeito pelo outro e pela sua dignidade, tratando-as com carinho, fazendo da sua vida um eco das palavras da Fundadora, Maria Josefa Recio, que no seu testamento espiritual, pedia às Irmãs: “Sede muito caridosas com as pobres doentes”.

Existem testemunhos da sua doação e entrega, como uma mulher de coração grande, competente em tudo o que fazia, ocupando as doentes com trabalhos manuais adequados à sua capacidade, inovações decorrentes da sua criatividade, um vislumbre da terapia ocupacional, que surgirá muito mais tarde. Com arte e engenho, a Irmã Maria do Monte, dedicava-se ainda mais às doentes com menos capacidades, quase adivinhando as suas necessidades, numa profunda atitude compassiva.

Na humildade da sua entrega, é desmedida a consciência da sua fragilidade: Meu Jesus! Como me encontro tão rasteira na minha vida espiritual! Tantas fraquezas de momento na minha vida! Quem me dera meu Jesus, que a minha vida fosse doravante, uma irradiação da vossa! Sim, que fosse inteiramente transformada no meu Jesus! Sou pequenina demais para ser vossa esposa, mas procurarei pôr-me diante do divino Sol que sois Vós! Então eu diante do Sol divino, ficarei sendo outro sol. Ó Jesus meu divino eleito, ajudai-me no trabalho da minha santificação”. 

A atitude de abandono à vontade de Deus e o desejo arrojado de reparar o Coração de Jesus e de salvar almas, foi uma constante na sua vida espiritual. 

Entre 1948 e 1963 a Serva de Deus, Maria do Monte, viveu no Funchal, na Casa de Saúde Câmara Pestana. Faleceu no dia 18 de dezembro de 1963, dia da Festa de Nossa Senhora da Expectação… Maria, a mulher que traz a VIDA dentro de si, para partilhar com o mundo!

Tão humana e tão cheia de Deus, a Irmã Maria do Monte, deu de graça, o que de graça recebeu! (Mt. 10,8)

Délia Gomes