A arte como instrumento de evangelização (1)

Capela Sistina, Vaticano | D.R.

A Igreja necessita da arte como conteúdo da sua ação e da sua expressão1, sendo o agir da Igreja todo ele evangelizador2. Afirma ainda São Paulo VI, na Exortação Apostólica Evangelii Nutiandi:

«A comunidade dos cristãos, realmente, nunca é algo fechado sobre si mesmo. Nela, a vida íntima, vida de oração, ouvir a Palavra e o ensino dos apóstolos, caridade fraterna vivida e fração do pão, não adquire todo o seu sentido senão quando ela se torna testemunho, a provocar a admiração e a conversão e se desenvolve na pregação e no anúncio da Boa Nova. Assim, é a Igreja toda que recebe a missão de evangelizar, e a atividade de cada um é importante para o todo» (EN, 15).

A arte, especialmente a que se funda na revelação e a manifesta em contexto eclesial, é também parte desse todo, servindo o fim principal da Igreja, que é a evangelização3. A atividade missionária da Igreja brota intimamente da sua própria natureza (AG, 6),  que, chamada a «ser sacramento universal de salvação» (AG, 1; LG, 1), é enviada a «anunciar o Evangelho a todos os homens» (AG, 1).

Antes da publicação da referida Exortação São Paulo VI proferiu, a 23 de junho de 1973, um discurso por ocasião da inauguração da coleção de arte religiosa moderna nos museus vaticanos, onde frisava que as obras de arte que os mesmos acolhem são o génio expressivo do nosso tempo4. A Capela Sistina é o lugar por excelência onde a arte religiosa deu provas do seu poder, revelando nas suas imagens esse concerto de grandeza ideal e de beleza estética. Continua o Papa afirmando que vem da capela Sistina a ideia de honrar a arte e os artistas do nosso tempo, que dedicaram ao tema religioso obra livre e digna5. O mesmo Pontífice pergunta se  «hoje também há artistas capazes de mediar com a exigências dos temas religiosas, e há obras de arte religiosa, não propriamente sagrada, que com todo o direito fazem falar de si: mas onde se encontram artistas e obras desse género?»6. Continua o Papa dizendo que «a Igreja foi mestra de Arte, cultora no passado e conservadora do passado; a sua grande tradição foi-se depois afrouxando e quase esterilizando»7. Por isso, a nova coleção, abrindo as portas a obras modernas de arte religiosa, quer pôr em evidência alguns cânones do conceito que a Igreja tem da própria arte religiosa. Assim, não é verdade que só alguns determinados critérios de Arte dos tempos passados tenham livre e exclusiva entrada nos referidos museus. Além do mais, não é verdade, segundo o Papa, que os critérios orientadores da arte contemporânea estejam marcados apenas pela marca da loucura, da passionalidade, do abstratismo meramente cerebral e arbitrário8.