Novo Ano litúrgico vai ser conduzido por São Marcos, “evangelista das periferias”

«Discipulado» e «relação com Jesus» são eixos centrais no Evangelho que vai ser lido nas missas do Ano B

P. Mário Sousa, Casa de Retiros, Terreiro da Luta, 2017 | Foto: Jornal da Madeira

“Marcos não narra nada da infância de Jesus, a sua obra não foi escrita para satisfazer a nossa curiosidade, ele vai ao essencial. Marcos diz-nos logo ao que vem. O início da sua obra aponta Jesus como o Cristo, filho de Deus. O essencial é a identidade de Jesus e a relação com ele”, explica à Agência ECCLESIA o padre da diocese do Algarve e professor de Novo Testamento no Instituto Superior de Teologia de Évora.

O especialista reconhece que ao longo do Evangelho de São Marcos, o leitor que, “desde o início sabem quem é Jesus”, vai-se “deparando com respostas incorretas como também acontece “serem os espíritos impuros a proclamar quem Jesus é”, factos que podem confundir e “criar tensão”.

Indica o padre Mário de Sousa que Jesus procura “respostas por dentro”.

“«E vós? Quem dizeis que eu sou?», é a pergunta, refere o professor de Novo Testamento.

Perante respostas intelectuais ou que indicariam o poder de Jesus, evidencia o padre Mário de Sousa, “Ele quer que percorram, o caminho” e percebam a diferença entre ser “religioso ou discípulo”.

“O grande convite é o confronto do nosso discipulado e das motivações profundas da nossa relação com Jesus, porque podemos ser religiosos sem nunca ser discípulo. Quer isto dizer que Jesus não quer profissões de fé apressadas, é preciso um caminho, um amadurecimento da fé”, indica.

O padre Mário de Sousa indica São Marcos como o evangelista das “periferias”.

“Quando Jesus se aproxima dos desvalidos e desconsiderados, os que estavam à margem da sociedade há uma grande reação, porque uma grande incapacidade de aceitar a Boa Nova, que indica que, em Jesus, Deus se fez próximo de todos, e de uma forma particular, dos que estavam à margem da vida social e até da vida religiosa. Isto não é do Papa Francisco, ele é que é tremendamente cristão e por isso convida-nos à purificação do discipulado”, sublinha.

O padre Mário de Sousa refere também a importância de todos se “reconhecerem a caminho”.

“Todos estamos a caminho e quando nos achamos feitos, fechamos as portas a Deus, perdemos a capacidade de nos deixarmos surpreender. Já temos as respostas e já sabemos as perguntas. Nem estamos abertos à novidade nem nos deixamos surpreender pelas perguntas e provocações que Deus nos faz”, lamenta.

A conversa com o padre Mário de Sousa pode ser acompanhada no programa de rádio da Ecclesia, no domingo de manhã, às 6h, na Antena 1.

LS