Ajuda informal aos pobres atípicos

D.R.

A pobreza e os pobres são muito estudados. Talvez, milhões de estudos. Ainda bem; é bom estudar os fatores de pobreza para remediar; fazer estatísticas e programas para abolir a pobreza. O Papa neste dia mundial dos pobres diz: “estende a tua mão ao pobre” (Sirac,7,32).

Pobres, não são números. Só a tua mão estendida para um deles, já é bom.   Alguns querem acabar com os milhões deles. Que bom! Jesus socorreu muitos e faz depender a entrada de muitos no reino do Pai do que cada mão leva ao pobre. “ Vinde Benditos do meu Pai porque tive fome…e tu deste-Me…”, Mt 25. Um só, dá, um só recebe e neste pobre está Jesus.

Este exame final na segunda vinda de Cristo, diz que todos passam por este ponto do exame. Não é possível passar no exame sem os cristos pobres. Inútil tentar. E Jesus escandaliza ao dizer: “pobres sempre os tereis” (Jo, 12, 8. Seria mais bonito ouvir: e sempre Me tereis. Estranho: se é tão importante, todos, darem sentido de eternidade à vida a socorrer os pobres, como é que nunca deixará de haver pobres? Jesus deixa-nos este desafio quebra cabeça: quem dá aos pobres, dá a Ele, partilha do que é de todos.

Já milhares tentaram outros métodos, mas não resolveram a pobreza. Resolver? O cristão e qualquer pessoa nunca dirá: pronto, já não há pobres, já não é preciso ajudá-los, posso guardar para mim e ser rico. Alguns programas técnico-científicas para reduzir o número dos pobres, são importantes mas não são as únicas boas maneiras de reduzir a pobreza e a miséria. Quase sempre por lhe faltar coração, não meios. Penso que nenhuma instituição substitui a ajuda in-for-mal aos pobres, a-tí-pi-cos, a que usa o coração e vai além das centenas de categorias de pobres e mais ainda os pobres da pandemia.

A ajuda, muito burocrática, gasta, talvez, mais meios com legalismos que na ajuda. Categorizar faz correr o risco fatal de dizer que alguns são pobres por quererem; culpados da sua miséria; querem ser eles a escolher o tipo de ajuda; ao passo que as organizações querem ser elas a decidir, sabem melhor que os pobres indignos.

A burocracia associa muitas dezenas de outros riscos: os pobres gastam no que lhe faz mal, não merecem apoio, querem coisas supérfluas, bens de luxo, não aceitam disciplina, são ignorantes e perturbados. Para a maior parte dos ricos e dos super ricos isso não seria problema: gastar mal, estragar a saúde com excessos, acumular milhares de luxos, fugir a horários e a imposições… Bem sabemos que pobres, desordeiros e desintegrados, não dá. Até o Papa recomenta: “acolher, proteger, promover e integrar”. É bom que haja instituições de ajuda metódica, científica, de qualidade aos pobres, mas com coração e simplicidade. Mas, e os pobres atípicos que precisam também de ajudas informais, de exceção? Será possível? Raramente.

Termino com dois casos de pobres atípicos que ajudaram mendigos: – O mendigo S. Bento José Labre; e o hospitaleiro mendigo S. João de Deus. Bento teimou e falhou ser trapista, cartuxo, trapista, cartuxo, trapista. Foi mendigo, sem abrigo, adorador do SS. Sacramento: mendigava e partilhava com outros mendigos. Nasceu na França, 1748, e morreu, novo, em Roma, 1783, foi santo em 1881. S. João de Deus, (1495-1550, santo 1690) teimou ser pastor, soldado, pastor, soldado, peregrino, pastor, pedreiro, livreiro, mendigo para ajudar mendigos e doentes sem abrigo; hospitaleiro amparou muitas categorias de pobres e doentes. Criticado por amigos, por dar ajudas sem critério, a gente que não merecia e abusava da sua bondade, respondeu: não sei nada, irmão, Deus sabe tudo. Peço por amor de Deus (fazei bem a vós mesmos com as esmolas aos meus pobres), por amor de Deus me dão, por amor de Deus mo pedem. Quando neste nome me pedem, tenho que dar, ainda que seja a vida. Os que recebem darão conta a Deus. E ao arcebispo que ouviu boatos semelhantes e o censurou, que era inconveniente manter indignos no seu hospital-abrigo, respondeu: não há lá indignos, todos são filhos de Deus. Indigno de comer o pão? Só um, o João de Deus!

Funchal, Dia mundial dos pobres, 15.11.2020