Dia Mundial dos Pobres: Bispo exorta fiéis a erradicar do coração a indiferença que mata

Foto: Duarte Gomes

D. Nuno Brás presidiu ao fim da tarde de domingo, dia 15 de novembro, na Igreja do Colégio, à Missa do IV Dia Mundial dos Pobres, instituído pelo Papa Francisco, em 2017.  

Uma oportunidade para o prelado exortar os fiéis a pedirem ao Senhor que “nos ajude a erradicar de nós, do nosso coração, a indiferença que mata” e para que Ele nos dê “a força e a coragem para não desistirmos das atitudes concretas que se encontram ao nosso alcance e que constituem verdadeiras mãos estendidas que ajudam o nosso próximo”.  

Depois de constatar que “o tempo de pandemia por que estamos a passar faz-nos a todos, de um modo ou de outro, experimentar a pobreza” e “experimentar a fragilidade de quem se vê isolado, impedido de viver como estava habituado, impossibilitado de estar e conviver com os amigos, de viver nos seus ritmos quotidianos”, D. Nuno Brás lembrou que as limitações por que passamos “estão a dar origem a um número crescente de pessoas com dificuldade em encontrar recursos materiais para pagar a renda da casa, a escola dos filhos, o alimento para a sua família”.   

“Nestes meses, todos experimentamos a pobreza da solidão; a pobreza do medo do outro; a pobreza da incerteza diante do futuro”, disse. Daí o desafio para que peçamos ao Senhor para que “nunca nos deixe desanimar diante dos obstáculos que tantas vezes se erguem neste caminho de ajuda aos pobres, quaisquer que eles sejam e qualquer que seja a pobreza de que estes padecem”.  

O bispo do Funchal lembrou ainda à assembleia que “o Papa Francisco, na sua mensagem para este dia, convida-nos a estender a mão ao pobre”. Um gesto que, explicou, “faz bem, em primeiro lugar, àquele que a estende”, para logo acrescentar que “dar faz bem, em primeiro lugar, àquele que dá. Torna-o mais humano, dá-lhe consciência da importância do próximo, mostra o sentido que a sua vida pode adquirir”.  

Referindo-se ao Evangelho cuja leitura se acabara de escutar, D. Nuno defendeu que é preciso pôr a render os talentos que Deus nos dá. E o primeiro deles é a fé. A fé que, frisou, “exige de cada um que se deixe diariamente moldar por Deus”, a fé que nos “conduz ao amor do irmão: amor traduzido em obras, atitudes, ações concretas”, a fé que faz com que “não desistamos nunca de ninguém, porque apenas desse modo seremos o espelho do amor divino”.  

“Estender a mão e ajudar o próximo; deixar que as nossas sejam as mãos estendidas do Deus que cura, salva, ajuda e transforma: eis o pedido e a disponibilidade que queremos dizer hoje ao Senhor, nesta Eucaristia. E, ao mesmo tempo, a missão que queremos assumir”, concluiu.  

No início desta celebração, que contou com a presença de representantes de várias entidades, nomeadamente do presidente da Assembleia Legislativa e da secretaria regional da Inclusão Social, o presidente da Cáritas Diocesana do Funchal usou palavra para lembrar que a missão da instituição a que preside é “acolher a quem mais necessita”, seja por razões de ordem material ou de outra natureza.  

Depois de sublinhar que “ser pobre não é uma condição”, Duarte Pacheco explicou que muitas vezes a pobreza é “reflexo de uma sociedade onde falta atenção pelo seu semelhante”. Terminou citando a Madre Teresa de Calcutá que diz que “o importante não é o que se dá, mas sim a forma e o amor com que se dá”.

Leia na íntegra a homilia do bispo do Funchal: 

XXXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM 

Dia Mundial dos Pobres 

Igreja do Colégio 15 de novembro de 2020 

1. Mesmo neste tempo de pandemia, o Papa Francisco convida-nos a celebrar, uma vez mais, o Dia Mundial dos Pobres. Já em 2017, o Papa dizia: “Convido a Igreja inteira e os homens e mulheres de boa vontade a, neste dia, fixar o olhar em todos aqueles que estendem as suas mãos invocando ajuda e pedindo a nossa solidariedade. São nossos irmãos e irmãs, criados e amados pelo único Pai celeste”. 

E continuava: “Este Dia pretende estimular, em primeiro lugar, os crentes, para que reajam à cultura do descarte e do desperdício, assumindo a cultura do encontro. Ao mesmo tempo, o convite é dirigido a todos, independentemente da sua pertença religiosa, para que se abram à partilha com os pobres em todas as formas de solidariedade, como sinal concreto de fraternidade. Deus criou o céu e a terra para todos; foram os homens que, infelizmente, ergueram fronteiras, muros e recintos, traindo o dom originário destinado à humanidade sem qualquer exclusão” (Mensagem para o I Dia Mundial dos Pobres 2017). 

O tempo de pandemia por que estamos a passar faz-nos a todos, de um modo ou de outro, experimentar a pobreza. Digo-o não só porque as limitações a que a pandemia nos tem obrigado estão a destruir grande parte do nosso tecido económico; nem apenas porque aquelas 

limitações estão a dar origem a um número crescente de pessoas com dificuldade em encontrar recursos materiais para pagar a renda da casa, a escola dos filhos, o alimento para a sua família; mas porque este tempo de pandemia nos faz a todos experimentar a fragilidade de quem se vê isolado, impedido de viver como estava habituado, impossibilitado de estar e conviver com os amigos, de viver nos seus ritmos quotidianos. Nestes meses, todos experimentámos a pobreza da solidão; a pobreza do medo do outro; a pobreza da incerteza diante do futuro. 

Aquilo que, de algum modo, todos experimentámos nestes tempos, ainda que de forma passageira, experimentam-no os pobres todos os dias, mesmo quando não nos encontramos em emergência sanitária e de uma forma ainda mais profunda. E se, para a maioria dos madeirenses, aquelas limitações foram, graças a Deus, temporárias, para muitos que vivem ao nosso lado — madeirenses como nós e com a mesma dignidade de seres humanos que nós — elas são uma realidade permanente. E não é necessário ter qualquer bola de cristal para intuir que, nestes tempos que se avizinham, o número daqueles que irão cair em situação de pobreza vai aumentar exponencialmente! 

2. O Papa Francisco, na sua mensagem para este dia convida-nos a estender a mão ao pobre. Deste modo, o Papa faz-se eco dum mandamento da Sagrada Escritura (Sir 7,32). E acrescenta ainda 

Francisco, convidando-nos a superar as barreiras da indiferença: “A pobreza assume sempre rostos diferentes, que exigem atenção a cada condição particular: em cada uma destas, podemos encontrar o Senhor Jesus, que revelou estar presente nos seus irmãos mais frágeis (cf. Mt 25, 40)”. 

Mas o Papa vai mais longe e concretiza o que pode significar para cada um de nós “estender a mão ao pobre”. Diz ele: “Estender a mão leva a descobrir, antes de tudo a quem o faz, que dentro de nós existe a capacidade de realizar gestos que dão sentido à vida”. Com efeito, estender a mão faz bem, em primeiro lugar, àquele que a estende. Dar faz bem, em primeiro lugar, àquele que dá. Torna-o mais humano, dá-lhe consciência da importância do próximo, mostra o sentido que a sua vida pode adquirir. 

Depois, o Papa recorda que “Estender a mão é um sinal (…) que apela imediatamente à proximidade, à solidariedade, ao amor”. E acrescenta: “Nestes meses, em que o mundo inteiro foi dominado por um vírus que trouxe dor e morte, desconforto e perplexidade, pudemos ver tantas mãos estendidas!” E o Papa Francisco concretiza nas mãos estendidas dos médicos, enfermeiros, farmacêuticos, políticos, sacerdotes, membros das forças de segurança e da proteção civil, e tantos voluntários que, ultrapassando os medos, ofereceram apoio e consolação a quem deles necessitava. 

Finalmente, estender a mão, diz ainda o Papa, é “um convite à responsabilidade, sob forma de empenho direto, de quem se sente parte do mesmo destino”. Vivemos uns com os outros neste nosso mesmo mundo; somos responsáveis uns pelos outros. E, também aqui, o Papa concretiza usando palavras da Escritura: “Não fujas dos que choram” (Sir 7,34) e “Não sejas preguiçoso em visitar um doente” (Sir 7,35). 

Mas o Papa Francisco não termina aqui. Diz também: Tudo isto “faz ressaltar, por contraste, a atitude de quantos conservam as mãos nos bolsos e não se deixam comover pela pobreza, da qual frequentemente são cúmplices também eles. A indiferença e o cinismo são o seu alimento diário. Que diferença relativamente às mãos generosas que acima descrevemos!”. 

3. No Evangelho que acabámos de escutar, o Senhor Jesus convidava os seus discípulos a fazer render os talentos que tinham recebido de Deus. O primeiro deles é a fé. E a fé que recebemos de Deus havemos de a pôr a render. Com efeito, a fé exige de cada um que se deixe diariamente moldar por Deus, como o barro nas mãos do oleiro. E isso significa sempre viver o amor de Deus — aquele amor com que o Criador a todos ama e a todos quer salvar. Não existe fé em Deus que não conduza também e sempre ao amor do irmão: amor traduzido em 

obras, atitudes, acções concretas. Poderá alguma vez alguém que acredita ficar indiferente aos irmãos sem abrigo para dormir, sem pão para se alimentar, sem roupa digna para se vestir, e desviar deles a sua atenção? 

Alguém dirá que, com todas as ajudas sociais que existem, muitos dos que se encontram nessa situação a escolheram. Mesmo que isso fosse verdade — e creio que todos nos interrogamos se isso será mesmo verdade — mesmo que isso fosse verdade, como podemos ficar indiferentes, sem fazer nada, diante da pobreza de quem assim realiza a escolha da sua vida e prefere para si condições objectivamente menos dignas? A nós cabe-nos sempre propor; a fé faz que não desistamos nunca de ninguém, porque apenas desse modo seremos o espelho do amor divino. 

Hoje, neste Dia Mundial dos Pobres, queremos pedir ao Senhor que nos ajude a erradicar de nós, do nosso coração, a indiferença que mata. E queremos pedir-lhe, igualmente, a força e a coragem para não desistirmos das atitudes concretas que se encontram ao nosso alcance e que constituem verdadeiras mãos estendidas que ajudam o nosso próximo. 

Tal como queremos também pedir a Deus para que nunca nos deixe desanimar diante dos obstáculos que tantas vezes se erguem neste 

caminho de ajuda aos pobres, quaisquer que eles sejam e qualquer que seja a pobreza de que estes padecem. 

Estender a mão e ajudar o próximo; deixar que as nossas sejam as mãos estendidas do Deus que cura, salva, ajuda e transforma: eis o pedido e a disponibilidade que queremos dizer hoje ao Senhor, nesta Eucaristia. E, ao mesmo tempo, a missão que queremos assumir.