Faleceu a Irmã Luisa, religiosa clarissa do mosteiro de Santo António

Foto: Jornal da Madeira

Faleceu na quinta-feira, dia 12 de novembro, no Mosteiro das Irmãs Clarissas de Santo António, a Irmã Luisa do Espírito Santo de Almada. A celebração das exéquias foi realizada este sábado, 14 de novembro, na igreja do mosteiro, seguindo-se o funeral para o cemitério de Santo António.

Publicamos na íntegra, o texto da Abadessa do Mosteiro de Santo António:

Notas biográficas da Irmã Luisa do Espirito Santo de Almada

Irmã Luisa, osc

Luísa do Espírito Santo de Almada nasceu na freguesia do Campanário, no dia 05 de dezembro do ano 1932. Era filha de José Luís Almada e Augusta do Espírito Santo. Recebeu o Batismo e os demais sacramentos da iniciação cristã. No dia da sua primeira comunhão, disse aos seus pais que queria ser toda de Jesus e manifestou-lhes o desejo de ir para o convento da Caldeira para ser religiosa. Aos 21 anos, pôde realizar o seu desejo. Entrou no mosteiro de N. Sra da Piedade no dia 09 de janeiro do ano 1953. Aí iniciou sua formação: aspirantado, postulantado, noviciado, e fez sua consagração religiosa. Mais tarde, veio para o mosteiro de St. António, onde viveu os últimos 29 anos.

A Irmã Luísa sempre se distinguiu pela sua simplicidade e alegria; era de uma grande caridade fraterna e de uma dedicação incansável à comunidade. Tinha um carinho muito especial pelas mais novas, a quem gostava de transmitir o que sabia e, sobretudo, incentivava-as a amar muito a Jesus Sacramentado. A Eucaristia foi sempre o centro da sua vida! Alma profundamente eucarística, fez da sua vida uma perene adoração ao Santíssimo Sacramento. Era fervorosa e perseverante na oração. Era sempre a primeira a chegar ao coro, logo de madrugada. Durante muitos anos, era ela quem despertava a comunidade para a oração. Antes das 6 horas da madrugada, lá ia ela, cantando pelos corredores, convidando as Irmãs para a oração da manhã. 

A Irmã Luísa era, no mosteiro, mestre de toda a obra: era “o eletricista, o sapateiro, o ferreiro, o pintor, o carpinteiro, o pedreiro, o canalizador” … (e podíamos continuar a lista)! “Com o seu cestinho de ferramentas acudia a todos os acidentes e necessidades”. Ao longo de muitos anos foi também a dispenseira da comunidade. De salientar o carinho e a atenção que tinha para com cada Irmã! A Irmã Luísa não se limitava ao serviço que lhe era pedido, sempre ia mais além, pois a caridade não conhece limites. Cuidava do jardim com muita dedicação e dizia-me, toda feliz: “Madre, não se aflija! O meu jardim está cheio de flores para a Madre enfeitar nosso Senhor!” E não sabia que, a mais bela flor do jardim, era ela mesma!

A Irmã Luísa nunca foi à escola mas o Senhor concedeu-lhe uma grande sabedoria, uma sabedoria que não se aprende nos livros mas de joelhos diante do sacrário! Para ela, não havia causas perdidas ou impossíveis pois acreditava que, com a oração, tudo pode mudar! Dizia: “Vamos rezar, vamos rezar! Temos que rezar e fazer sacrifícios pelos pecadores”. A oração era a sua respiração; não conhecia tempos nem lugares! Quantas vezes a surpreendíamos nos corredores do mosteiro, sozinha (pensava ela!), a rezar algumas jaculatórias, o Pai-nosso, a Avé-Maria!… 

O seu corpo foi marcado pela doença mas não se resignava a ela. Mulher de garra, lutadora, com uma vontade enorme de viver, quando todos pensavam que ela já não seria capaz de ultrapassar os obstáculos, ela surpreendia tudo e todos! Quando, no ano 2000, os médicos disseram que ela já não ia mais andar, por causa de uma fratura na coluna, ela, em pouco tempo, se pôs de pé, contrariando todos os prognósticos! 

Quis o Senhor associá-la à Sua Paixão, por meio do sofrimento, e a Irmã Luísa aceitou tomar, até à última gota, o “cálice amargo” que é dado a beber aos amigos íntimos! Este último ano foi, particularmente, doloroso! Sofreu dois edemas pulmonares agudos, várias infeções respiratórias, insuficiência cardíaca, úlceras gástricas, anemia, cancro, cirurgia, trombose… Tudo isto, apenas num ano! Quase a chegar ao fim deste ano, seu corpo frágil já não aguentava mais! Nesta última fase, quando ainda se encontrava hospitalizada e já não falava, disse-lhe: “A Irmã vai melhorar e vai ficar bem, ainda vai voltar para casa, para junto suas Irmãs”! Ela olhou para mim e abanou a cabeça, querendo dizer que “Não”. Eu continuei: “A Irmã não quer ir para casa, para o seu mosteiro?” Ela voltou a abanar a cabeça que “Não”. Eu insisti: “Então para onde quer ir?” Ela, com o dedo indicador, apontou para o Céu. Ainda no hospital foi reconfortada com o sacramento da santa unção.

Os médicos, reconhecendo que já não podiam fazer mais nada, acharam que era melhor a Irmã Luísa passar os seus últimos dias com as suas Irmãs. Teve alta hospitalar e regressou a casa, onde procuramos dar-lhe todo o apoio, conforto, amor, que nos foi possível. No passado dia 12, às 8h, na enfermaria do nosso mosteiro, acompanhada por mim e pela minha vigária, como uma vela que se gastou totalmente e, serenamente se apaga, a sua bela alma partiu para o Céu.

Irmã Luísa, OBRIGADA pelo testemunho da sua vida! Obrigada por tudo o que foi e por tudo o que fez pela nossa comunidade, pela Igreja, por toda a humanidade. Que, junto de Jesus, a quem tão ternamente chamava de “Amigo”, continue a interceder por todos nós que ainda peregrinamos; e que, um dia, todos juntos, possamos cantar eternamente as misericórdias do Senhor, na Pátria Celeste.

Mosteiro de Santo António, 14 de Novembro de 2020

Ir. Patrícia Rocha, osc
Abadessa