Num mundo fechado, um coração aberto ao mundo inteiro

D.R.

“Admoestações” de São Francisco de Assis, sobre fraternidade e amizade social, é a referência da última Carta Encíclica do Papa Francisco, “Fratelli tutti”. Tem como objetivo suscitar uma aspiração global para a fraternidade e amizade social, as quais devem ser promovidas não só com palavras mas com factos, que se concretizem numa melhor política, não sujeita aos interesses económicos e orientadas para o serviço do bem comum, colocando no centro a dignidade de cada ser humano, garantindo o trabalho a todos, para que cada um possa desenvolver as suas próprias capacidades e aptidões. 

Um forte apelo a uma política sem manipulação e deformação de conceitos, que cerceia a liberdade e a justiça, provoca a perda de sentido social e histórico, é egoísta e ausente de interesse pelo bem comum, onde prevalece a lógica de mercado baseada no lucro e na cultura de descarte, o desemprego, o racismo, a pobreza, a desigualdade de direitos e conduz à escravidão. É mister da política encontrar uma solução para tudo o que viola os direitos humanos fundamentais, como a exclusão social, o tráfico de órgãos, de tecidos, armas e drogas, exploração sexual, terrorismo e crime organizado. 

Uma sociedade fraterna promove a educação e o diálogo, respeita a família e a sua “missão educacional primária e essencial”, convida à benevolência, ao desejo concreto pelo bem do outro, à solidariedade para com a fragilidade das pessoas, combate a pobreza e a desigualdade.

A Encíclica condena a guerra, as armas nucleares, químicas e biológicas, bem como a pena de morte, reafirmando a necessidade de respeitar “a sacralidade da vida”, dos nascituros, dos pobres, dos deficientes e dos idosos. Acresce ainda um apelo do Papa para eliminar a fome, pois a comida também é “um direito inalienável”.

Considerando que estes problemas são mundiais, requer-se uma acção global no sentido de evitar a deterioração da ética pessoal, social e mundial. Uma política centrada na dignidade humana que exige uma reforma das Nações Unidas, devendo valorizar o conceito de “família das nações”, trabalhando para o bem comum, erradicação da pobreza e proteção dos direitos humanos. 

Recorrendo incansavelmente à “negociação, bons escritórios e arbitragem” – afirma o Documento Pontifício –, a ONU deve promover a força da lei sobre a lei da força, favorecendo acordos multilaterais que melhor protejam todos, incluindo os Estados mais fracos, que fazem parte da “família humana”.

O Papa reitera ainda, que um caminho de paz entre as religiões é possível e que, portanto, é necessário garantir a liberdade religiosa, um direito humano fundamental para todos os crentes. Em particular, a Encíclica reflete sobre o papel da Igreja, reforçando que não deve ficar restrita à sua missão na esfera privada e à margem da sociedade. Embora não faça política, no entanto, a Igreja não deve renunciar à dimensão política da existência humana. A atenção ao bem comum e à preocupação com o desenvolvimento humano integral, dizem respeito à humanidade e “tudo o que é humano diz respeito à Igreja”, de acordo com os princípios do Evangelho. 

Não esquecendo o perdão, recorda-nos que este não quer dizer impunidade, mas justiça e memória, porque perdoar não significa esquecer, mas sim anular a força destrutiva do mal e o desejo de vingança. 

Viver indiferentes à dor não é uma opção possível; não podemos deixar ninguém caído “nas margens da vida”. Isto deve indignar-nos de tal maneira que nos faça descer da nossa serenidade alterando-nos com o sofrimento humano. Isto é dignidade.