Carta infinda a todos os povos com proposta de acordo global

D.R.

O Papa escreveu Fratelli tutti, carta infinda. Para quê? Nela aparece 468 vezes a palavra para; talvez metade das vezes a referir propostas e objetivos da mesma. É difícil resumir. Em dia mundial das Missões, perguntemos antes se discípulos de Jesus evangelizados são chamados a evangelizar o mundo e testemunhar o Reino de Deus? Jesus disse: “Ide… por todo o mundo…anunciai o Evangelho a todos…os povos” (cf Mc 16,15-20). Basta acolher a chamada para essa missão. (cf. Mensagem do Dia Mundial das Missões, 2020). E muitos o fizeram desde há dois mil anos, testemunhando Jesus com a própria vida.  E hoje, se fossem os 1.380 milhões a evangelizar e a ser missionários? O Vaticano deu há dias o número de católicos, só católicos, em todo o mundo: 1.380.000.000! Aumentaram 6% de 2013 a 2018 (cerca de 80 milhões), passando de 17,68% a 17,73% da população mundial. Na Europa, uma queda de 0,4% num aumento de 0,2% da população. Na América cresceram mais que a população (4,6% para 4,4%). Na Ásia, mais 7,6% para 4,4%; Oceânia 9,6% para 8,1%, e na Africa, 18%. Os outros cristãos serão cerca de 800 milhões e muitos também evangelizam. Na carta o Papa pede anúncio indireto porque fala para todos. Pode dizer-se que Papa ora se dirige apenas à Igreja católica, ora a todos os cristãos ou a todos os povos, como faz na carta Fratelli tutti. Será sempre para evangelizar? Em clima de secularização, pode perguntar-se quando fala como papa católico, como cristão ou como cidadão líder mundial.

A carta encíclica Fratelli tutti dirige-se a todos os homens, ou talvez não, “a todos os homens de boa vontade”, como se expressa no nº 6. 56 e nº 165. O joio na seara não será ouvinte de “de boa vontade”. O Papa é talvez o único líder mundial que ousa falar a toda a humanidade e nesta carta não se poupa a ser frontal para defender os mais frágeis. Se todos o ouvem é outra questão. A encíclica dirige-se a todos, até usa este termo 147 vezes! Invoca Deus, o Único, 81 vezes. Para proclamar a igual dignidade de todos, usando dignidade 65 vezes, fraternidade, 56 v, irmão e irmãos, 53v e 26 v, filhos 22v (singular e plural, filhos de Deus Pai), por isso irmão do seu Filho único Jesus Cristo (ou só Jesus), 30 vezes. A Mãe destes filhos para os católicos é a Igreja (33v.) ou Igreja católica (4v.). Mas o Papa não se dirige só aos que professam o monoteísmo bíblico, do A. e N. T. A carta constitui um forte apelo a realizar o “bem comum”, referido 32 vezes; apelo a todos os cristãos e homens de boa vontade para abolir a pena de morte (nº268); abolir, hoje, a escravatura de “milhões de pessoas – crianças, homens e mulheres de todas as idades”, estas escravas usadas para abortos e venda dos órgãos dos corpinhos – (nº24). Faz um apelo a todos os cristãos e homens de boa vontade para abolir a pena de morte (nº268). Enfim, apela, de muitos modos, para o fim das guerras, racismos e violências, a favor de direitos humanos iguais. Alerta para o retrocesso civilizacional. Reconhece que só um esforço global com acordos de toda a humanidade é possível pôr fim a tantos males. No capítulo II propõe o paradigma-programa da parábola do estranho ferido (Lc, 10). Será que esta parábola também ilustra o “dar a Cesar o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22, 15-21), Pai de todos os feridos de hoje? E ninguém pode descartar ninguém, e menos ainda os corruptos super ricos deste mundo? Mas isso ficar para outra leitura da carta infinda.