Mensagem para o Dia Mundial do Turismo 2020 (texto integral)

D.R.

O Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral publicou, com data do passado dia 06 de Agosto, a sua nota para a celebração do Dia Mundial do Turismo 2020, que se assinalará no próximo dia 27 de Setembro. Tomou como tema da sua mensagem «Turismo e Desenvolvimento Rural» – tema já definido pela Organização Mundial do Turismo, em período anterior à eclosão da pandemia que nos assola. Como refere este organismo da Santa Sé, este tema parece ter sido providencial, pois «indica um dos caminhos para uma possível recuperação do setor turístico»[1]: na perspetiva da sustentabilidade, optando pela frequência dos espaços rurais e não apenas das grandes cidades; revalorizando as pequenas aldeias e povoados; numa maior justiça social e económica, na relação com as diversas comunidades; no maior respeito pelo ambiente e pela atividade rural; e no reconhecimento das comunidades como protagonistas do seu desenvolvimento sustentável e socialmente responsável, no próprio território; defendendo, ainda, um turismo «que favorece a positiva interação entre a indústria turística, a comunidade local e os viajantes»[2].

1. Turismo sob o signo da incerteza

A atividade turística continua a viver dias muito difíceis, quer com as quebras de receitas, quer com as dificuldades de manutenção dos postos de trabalho, precisamente por vivermos ainda uma mobilidade muito limitada. Segundo o Dicastério para Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, no documento já referido, a atividade turística poderá vir a sofrer globalmente, no cômputo final do ano de 2020, uma diminuição de mil milhões de turistas internacionais, com uma perda económica de 1.200 biliões de dólares [3], com as respetivas consequências para o equilíbrio financeiro dos estados, mas também para a manutenção dos postos de trabalho nesta área da atividade humana. Efetivamente, uma perda sem paralelo numa das atividades económicas e sociais que parecia das mais promissoras.

Portugal não fica fora destas estatísticas, prevendo-se quebras de 2% do PIB nacional, com uma perda de receitas 73% abaixo dos valores do ano transato. Naturalmente se esta é uma realidade económica, sabemos todos quais as suas implicações na manutenção de muitas empresas do setor e respetivos empregos. Sendo assim um problema económico, transforma-se igualmente num difícil problema social.

Portugal beneficiou, no verão que agora termina, de algum dinamismo interno, particularmente nas zonas mais interiores e de menor densidade populacional. Podemos dizer mesmo que aí a atividade económica até teve um dinamismo acrescido. Todavia, na generalidade do território, com destaque para os espaços geográficos que vivem essencialmente do turismo, as perdas foram muito grandes.

O futuro próximo do setor continua a ser marcado por uma grande incerteza, devido ao recrudescimento da epidemia e à capacidade de retoma e reorganização do setor. Não obstante, reafirmamos, como em nota anterior, que necessitamos de persistir na resiliência, na esperança de que novos tempos virão e na possibilidade de reorganizar alguns serviços, em ordem a um maior dinamismo e sustentabilidade da atividade turística.

2. Turismo e ruralidade

O conteúdo central do tema deste ano – «Turismo e Desenvolvimento Rural» -, definido pela Organização Mundial do Turismo, como referido, abre-nos já horizontes para uma nova perspetiva na atividade turística. Desde logo, conduz-nos à redescoberta e valorização de diversos locais, concretamente de algumas aldeias, desconcentrando o turismo dos grandes centros urbanos e permitindo que esses outros espaços beneficiem desta atividade económica e social, o que significa desmassificar a atividade turística, tornando-a mais sustentável, e promovendo novos critérios de justiça económica e social, que beneficiem a todos. Mais ainda: esta diversificação e investimento nos espaços agrícolas permitirá não só esse reequilíbrio social e económico, mas também a revalorização de toda a atividade agrícola, com as suas características, tempos e exigências próprias, fomentando a economia rural e a valorização dos seus trabalhadores.

Por outro lado, o contacto com a natureza e com os seus dinamismos de crescimento e desenvolvimento, dão-nos uma nova e redobrada consciência ecológica, capaz de nos levar a respeitar as suas leis, formando-nos na premente defesa da «casa comum» e abrindo-nos à possibilidade de adoção de novos estilos de vida, marcados por uma maior sobriedade, em vez do desperdício, e por uma maior tranquilidade, quando, não raro, as nossas vidas são marcadas por uma azáfama esgotante, própria das sociedades modernas.

Por fim, o contacto com o mundo rural permite a redescoberta de uma cultura própria, particularmente para as gerações mais novas, enraizada em valores ancestrais, sem desprimor para os avanços tecnológicos neste setor da atividade humana, transmitida, quantas vezes, pessoa a pessoa, ou em pequenos grupos. O turismo rural tem já estas virtualidades, quer na transmissão de alguns destes valores e sua cultura, quer na possibilidade de os fruir em espaço próprio. Como refere a nota do Dicastério, «o “turismo rural” converte-se, assim, no lugar onde se aprende uma nova forma de entrar em relação com o outro e com a natureza» [4].

3. Uma oportunidade para Portugal?

O nosso país, tão rico e diverso na sua geografia, apesar de ser um território relativamente pequeno, bem pode beneficiar de todas estas perspetivas, refletidas nestas notas. O Turismo Rural ou o Agroturismo, permitindo este contacto direto e mais genuíno com a natureza, com as culturas e tradições locais, em ambiente familiar ou de pequeno grupo, permite igualmente um reconhecimento e incremento da atividade agrícola, entre nós subalternizada nas últimas décadas, fomentando um reequilíbrio das diversas atividades produtivas, nomeadamente neste setor primário. Por outro lado, revaloriza a totalidade do território nacional, aproveitando das múltiplas riquezas que as nossas aldeias têm para oferecer. Cultiva-se assim, também entre nós, a referida justiça social e económica, que o turismo deve favorecer, ao mesmo tempo que se preservam e transmitem as culturas locais, que definem as múltiplas identidades regionais das nossas gentes.

O Turismo rural pode desempenhar também essa missão indireta de retoma de algumas atividades agrícolas, de desenvolvimento da pecuária e, particularmente, do incremento da silvicultura, num país tão assolado pelos incêndios, a necessitar de fazer uma profunda reflorestação, preferencialmente com a diversificação de espécies. Um turismo rural e de natureza exigirá, por certo, um maior cuidado na gestão dos nossos campos e florestas, com a valorização do património natural.

Esta diversificação da oferta de destinos turísticos permitirá uma resposta mais abrangente à procura dos visitantes e uma desmassificação de alguns destinos turísticos atuais, num maior equilíbrio entre o litoral e o interior.

Essencial é ainda a promoção de um turismo ambientalmente sustentável. E, neste sentido, nada melhor para o incrementar que o próprio contacto direto com a natureza, quer por via do turismo rural, quer por via do turismo de natureza. Assim, deixando à criatividade das comunidades a definição dos «produtos» turísticos a oferecer, em conformidade com o equilíbrio ambiental, cultural e social de cada lugar, há ainda espaço para uma grande diversidade de propostas turísticas que podem ser criadas e implementadas em território nacional.

Por último, Portugal compreende imensos espaços de lazer que permitem um verdadeiro repouso, conciliável com outras atividades, dependentes da criatividade local, que facultem ao visitante uma melhor fruição do tempo de descanso ou de visita. A promoção do turismo rural e de natureza pode ajudar a repensar o conceito de lazer, capaz de servir um descanso eficaz de quem nos visita; um desenvolvimento humano integral, no reencontro consigo, no encontro com os outros, partilhado com os amigos ou os familiares, na valorização das culturas locais e suas expressões materiais e imateriais; bem como no reencontro sempre renovado com Deus, através das suas criaturas, onde a natureza ocupa um espaço de excelência, pois, não raro, pela sua beleza nos eleva à contemplação da beleza do Criador.

Coimbra, 18 de Setembro de 2020
Pe. Carlos Alberto da Graça Godinho

[1] Cardeal Peter K. A. Turkson – Turismo e Desenvolvimento Rural. Mensagem do Dicastério para o Serviço dos Desenvolvimento Humano Integral para a Jornada Mundial do Turismo 2020 (27 de Setembro de 2020). Vaticano, 6 de Agosto de 2020.
[2] Ibidem.
[3] Ibidem.
[4] Ibidem.