Pe. Alberto Brito: Se a fé for só razão acaba por secar, se for só coração vira beatice

Foto: Duarte Gomes

Chegou ao fim esta sexta-feira, dia 11 de setembro, o último turno do Retiro para o Clero deste ano que reuniu no Terreiro da Luta 12 sacerdotes madeirenses.

O Pe. Alberto Brito foi o orientador deste terceiro turno que, como é hábito, terminou com a celebração de uma Eucaristia, presidida pelo bispo do Funchal.

Sobre o convite da Diocese do Funchal para orientar este momento de recolhimento, oração e meditação o sacerdote jesuíta disse ao Jornal da Madeira que o aceitou “com muito gosto” e lembrou que esta é a 17ª vez que vem ao Funchal, sendo que foi a primeira que veio com esta missão. Uma experiência que, no entanto, não é nova, uma vez que já teve ocasião de orientar outros retiros do clero, nomeadamente, nas dioceses da Guarda, Braga, Porto, Coimbra, Santarém, Lisboa e Évora.

Quanto à importância destas paragens na vida quotidiana dos sacerdotes o Pe. Alberto Brito, especializado em Relações Humanas e Comunicação Interpessoal, diz que elas são fundamentais para que os sacerdotes aprendam a se relacionar com Deus.

“Um cristão aprende na catequese coisas da doutrina, da bíblia, de Jesus Cristo, da Igreja, dos sacramentos, etc. Os senhores padres aprendem na Teologia tudo o que tem a ver com conceitos, a razão, a lógica, os conhecimentos”, explica o jesuíta que frisa que “tudo isso é ótimo, mas uma coisa é pensar sobre as coisas de Deus e outra é relacionar-se com Deus”.

De resto, lembra, “o próprio Jesus é o primeiro a dizer: quando orares entra no teu quarto, fecha a porta e reza ao teu pai em segredo”. Por outras palavras, “coloca as cartas em cima da mesa, viradas para cima, e fala de uma forma franca, aberta, direta confiante e chama os bois pelos nomes, seja o que for que acontecer, seja o que for que se passar”.

É esta verdade que, frisa o Pe. Alberto, “dá consistência às coisas”. Caso contrário “as coisas ficam ao nível das ideias, muitas vezes coladas com cuspo”, ou seja, sem a sustentabilidade necessária para que vinguem e possam ser transmitidas. Se quisermos, “não basta despejar aquilo que aprendemos nos livros de teologia aos fiéis”. É preciso pensar, “assimilar”. E a “assimilação não está sujeita à aceleração. É uma lei da física: não há formações aceleradas, nem assimilações aceleradas”. Estes tempos de retiro “são um bocado para isto”, frisa, embora reconheça que estes momentos são “uma agulha num palheiro, um tijolo de uma construção”.

Em síntese e tendo em conta o Primeiro Mandamento da Lei de Deus, que diz que devemos “Amar a Deus com todo o entendimento, todo o coração e com todas as forças, a verdade é que “se fizermos consistir a fé só à base da razão, do entendimento do raciocínio, da lógica, dos conteúdos, dos assuntos, fica uma fé racionalista ela às tantas mirra, seca. Se coloca a devoção e a piedade e muito coração, muito coração, sem a luz da razão, acaba na beatice”, que mais não é do que a “expressão selvagem do coração sem a luz da razão”.

Já amar com todas as forças significa “arregaçar as mangas, trabalhar, entregar-se, dedicar-se”. Porém, isto é algo que o sacerdote também não deve fazer sozinho, tanto mais que “a única realidade que é capaz de fazer crescer uma pessoa é outra pessoa, o que nos vale é que Deus são três pessoas”.

Este retiro serviu para, de alguma maneira, dar ferramentas aos sacerdotes para que encontrem o meio termo e concentrem “a razão, o coração e as forças no mesmo ‘cake’”, nesta época de grandes desafios.

“Este retiro foi para isso: para fazer a síntese. Se bem que, já dizia Platão, cinco séculos antes de Jesus, a síntese é uma ave que levanta voo ao cair da tarde. Isto para dizer que nunca se começa pelas sínteses. Mas chegamos lá e nessa altura diz-se: este tipo não fala como os livros. Aquilo que faz, vive e pensa e a forma como atua bate certo”, adianta ainda o Pe. Alberto para logo acrescentar que “isto dá credibilidade”.

O Pe. Alberto Brito é licenciado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa e em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma). Tem-se dedicado, para além da orientação de retiros de oração,  a cursos de relações humanas e a palestras nesta área que, inclusivamente, já o trouxeram a várias escolas do Funchal, nomeadamente à Francisco Franco, Levada e Jaime Moniz.

Neste âmbito, publicou o livro “Ouvir, Falar, Amar” sobre relações humanas e comunicação interpessoal, que resultou de uma entrevista à jornalista Laurinda Alves. E é defensor de que é “pelos frutos se conhecem as árvores”.  A metáfora “serve para pais e filhos, professores e alunos, chefes e subordinados, em todos os universos pessoais, familiares e profissionais que habitamos e onde temos um papel a desempenhar”.

Responsável pela formação dos novos candidatos a jesuítas, durante 12 anos, fez também um estágio de quatro anos em psiquiatria e tem dedicado grande parte do seu tempo a acompanhar pessoas com problemas nesta área.

[atualizado no dia 12.09.2020 às 09h15]