D. Nuno instituiu um novo leitor e um novo acólito pedindo-lhes que aprofundem a sua fé

Nesta celebração o bispo do Funchal apelou à assembleia, e através dela a toda a diocese, para que reze pelo surgimento de novas vocações consagradas. 

Foto: Duarte Gomes

A Igreja do Funchal conta desde este sábado, dia 8 de agosto, com um novo acólito e um novo leitor, instituídos pelo bispo do Funchal, no decurso de uma Eucaristia a que D. Nuno Brás presidiu na Sé do Funchal.

Patrício Sousa, da Paróquia do Piquinho, foi instituído leitor e João Gonçalves, da Paróquia de São Roque (Funchal) instituído acólito, confirmando com mais esta etapa, a sua disponibilidade para serem ordenados sacerdotes, como viria de resto a lembrar o bispo diocesano.

Mas na homilia desta celebração, D. Nuno Brás refletiu sobre “a virtude fundamental da vida cristã que é a fé”, começando por explicar que a “fé começa por ser o modo humano e quotidiano de viver” e que “é a atitude de fé que permite a esmagadora maioria dos nossos gestos, das nossas decisões, do nosso viver”.

Por outro lado, na “fé, tomada agora na sua acepção mais comum de ‘relação com Deus’, consiste a essência da vida cristã”, tanto mais que “não existe cristianismo sem fé”, lembrou.

E essa fé é cristã “porque nós, cristãos, percebemos que não nos basta uma atitude humana (ainda que, humanamente, fosse a mais elevada possível) para chegarmos, com os nossos meios, a essa condição de interlocutores com Deus.” Se assim fosse, alertou.  “seríamos apenas imitadores baratos e incapazes da relação única e pessoal que Jesus tem com o Pai — essa sim, o lugar maior, infinitamente maior, de humanidade — lugar de encontro pleno e perfeito de Deus com o Homem”.

“Tudo o que é a vida cristã — todo e qualquer ministério a ser desempenhado na liturgia, toda e qualquer atitude de oração, toda e qualquer escolha moral realizada por um cristão apenas faz sentido no seio desta realidade grande (desta realidade “teologal”, quer dizer: que tem origem no próprio Deus) que é a fé”, frisou o bispo diocesano, para logo acrescentar que “sem a fé, sem a participação na relação única que Jesus tem com o Pai, as normas morais serão apenas regras exteriores a serem (ou não) cumpridas; sem a fé, a oração ficará reduzida a palavras sem sentido e artificiais; sem a fé, o testemunho cristão será sinónimo de arrogante presunção de quem procura impor aos demais as suas convicções”.

Dirigindo-se aos seminaristas que iam ser instituídos, D. Nuno Brás disse-lhes que hoje “a Igreja confia-vos algo de precioso, ao mesmo tempo que confirma os passos do vosso caminho e a vossa disponibilidade para, um dia, poderdes ser ordenados sacerdotes”.

A um confia “a missão de proclamar a Palavra de Deus na liturgia e de a ensinar, ajudando os outros fiéis a conhecer melhor a Jesus, Palavra de Deus feita carne, Salvador do mundo.” E a outro “a missão de ajudar os presbíteros e os diáconos no desempenho das suas funções, e de distribuir aos fiéis, como ministro extraordinário, a Sagrada Comunhão”.

Porém, sublinhou, “nada disso faz sentido sem a fé. Nada disso faz sentido sem progredirdes no caminho da fé, o mesmo é dizer: sem aprofundardes a participação da relação única que Jesus tem com o Pai”. Daí o apelo para que caminhem na fé e deixem que ”a fé seja o oceano divino em que navegais; a força que vos permite superar os obstáculos; o dom que vos faz membros de Cristo”.

No final da Eucaristia, concelebrada pelos bispos eméritos D. Teodoro de Faria e D. António Carrilho e por vários sacerdotes do clero madeirense, D. Nuno Brás aproveitou para agradecer “ao Seminário Diocesano e àqueles onde estão a ser formados estes nossos novos padres”, bem como às equipas formadoras, tanto a atual como a anterior, que acompanham nesta caminhada.

Por fim o bispo do Funchal apelou à assembleia, e através dela a toda a diocese, que continue a rezar pelas vocações, já que se assiste a “uma diminuição das vocações consagradas”.

“Rezemos para que este grito, este convite do Senhor a que muitos deixem tudo para o seguir, e para com Ele e Nele serem servos do evangelho como sacerdotes, seja escutado e que muitos se disponham completamente a servi-Lo e aos irmãos”, pediu D. Nuno Brás, que reconheceu que “precisamos de rezar muito e precisamos de abrir verdadeiramente o nosso coração ao Senhor para que Ele faça crescer em nós a fé, porque sem a fé tudo o resto é vazio”.

Instituídos falam em passo importante

Antes desta celebração o Jornal da Madeira falou com os seminaristas que iam ser instituídos sobre o momento que estavam preste a viver, tendo qualquer um deles considerado ser este um passo “importante”, do caminho que os vai levar à ordenação sacerdotal.

A propósito João Gonçalves, o novo acólito, referiu que “este passo tem uma importância mais vincada porque o horizonte do presbiterado vai sendo definido cada vez mais e ao se definir cada vez mais é um horizonte quase palpável”. A partir de agora, acrescentou, “vamo-nos aproximando do altar e o acolitado faz com que isso seja ainda mais uma realidade”.

Já Patrício Sousa diz que vê o leitorado como “mais um passo a juntar aos já dados”, mas desta vez com um outro nível de “comprometimento”, tanto mais que “é o primeiro mandato que recebo do bispo de olhar para a palavra de Deus, alimentar-me dela, mas também passá-la aos outros”.

Nestes tempos que vivemos, considera o seminarista, a “palavra de Deus é não só uma palavra atual, como é resposta para os nossos problemas interiores” e só por “preguiça ou desconhecimento é que não a olhamos como deve ser” permitindo que ela se revele fonte de respostas para a nossa vida.

Leia na íntegra a homilia de D. Nuno Brás: 

INSTITUIÇÕES DE LEITOR E ACÓLITO 

Sé do Funchal, 8 de Agosto de 2020  

“O justo viverá pela sua fidelidade” (Hab 2,4) 

A palavra de Deus que acaba de ser proclamada coloca diante de nós a virtude fundamental da vida cristã que é a fé.  

Na Iª Leitura, escutávamos o Profeta Habacuc (2,4): “O justo viverá pela sua fidelidade” — “O justo viverá pela fé”, dirá o Apóstolo Paulo na Carta aos Romanos (Rom 1,17), retomando Habacuc séculos mais tarde, para se referir ao modo como o ser humano se pode apresentar diante de Deus deixando que este o torne justo (o mesmo é dizer: o salve).  

A um povo que se lamenta porque pensa que Deus não escuta a sua voz (cf. Hab 1,13: “porque ficais em silêncio quando o ímpio devora o justo?”), o próprio Deus responde por meio do Profeta: “Põe por escrito esta visão e grava-a em tábuas com toda a clareza, de modo que a possam ler facilmente […]. Vede como sucumbe aquele que não tem alma recta; mas o justo viverá pela sua fidelidade” (Hab 2,2.4). 

No evangelho, escutávamos o Senhor Jesus que repreendia os discípulos: “Se tivésseis fé comparável a um grão de mostarda, diríeis a este monte: muda-te daqui para acolá, e ele havia de mudar-se” (Mt 17,20).  

Que virtude é esta que se mostra assim tão poderosa, a ponto de transportar montanhas ou de fazer que o ser humano se possa apresentar justo diante de Deus e viver? 

A fé começa por ser o modo humano e quotidiano de viver. É a atitude de fé que permite a esmagadora maioria dos nossos gestos, das nossas decisões, do nosso viver: como poderíamos sair de casa sem acreditar que, ao fazê-lo, não estaríamos a pôr em risco a nossa vida? Como poderíamos viver sem acreditar na palavra de um amigo? Como poderíamos sobreviver sem acreditar na bondade da esmagadora maioria dos seres humanos que nos rodeiam?  

A fé é, portanto, um modo de viver. Mas é também um modo de conhecer: acreditamos, por exemplo, que existe o sistema solar (nunca fizemos nós a experiência científica da sua existência: acreditamos porque outros nos disseram, e nós acreditamos naquilo que eles nos ensinaram); acreditamos na palavra de outros e nela jogamos toda a nossa existência. Convenhamos que seria impossível viver querendo ter acerca de tudo uma certeza científica. A fé, enquanto atitude meramente humana, é, portanto, aquele modo razoável de nos relacionarmos uns com os outros por meio do qual, mesmo sem fazermos uma prova científica, acreditamos naquilo que nos dizem. Sem essa atitude, a nossa vida tornar-se-ia impossível. 

Essa relação entre pessoas que caracteriza a existência humana adquire traços muito próprios no caso singular em que (continuando sempre numa relação de pessoas) uma delas é Deus.  

Na fé, tomada agora na sua acepção mais comum de “relação com Deus” consiste a essência da vida cristã. Com efeito, não existe cristianismo sem fé. O cristianismo não é a sujeição do ser humano a um qualquer ente natural, a uma qualquer força que o domina; o cristianismo não é o cumprimento de uma lei; o cristianismo não é a realização de um conjunto de actos que determinam ou que são consequência de uma atitude cultural perante a vida.  

Ou melhor: o cristianismo é uma obediência a Deus; é o cumprimento do mandamento novo do amor; é um conjunto de valores que orientam o ser humano mesmo no contexto da sua vida em sociedade. Mas é-o só depois (ou no seio) de uma relação pessoal, única e total com Deus — relação que, por integrar Deus como a sua origem e o seu todo, dá sentido a toda a existência. É nesta relação do homem com Deus que consiste a fé. 

Não se trata de uma relação em que as duas pessoas se encontrem, à partida, em pé de igualdade, como acontece quando dois seres humanos se encontram. Pelo contrário: na relação de fé com Deus existe uma radical desigualdade. A fé é uma relação em que Deus toma a iniciativa, se mostra, se revela — o mesmo é dizer: em que Deus procura e encontra o ser humano na sua situação concreta, na sua vida. Antes que pudéssemos dizer: “Deus”, Ele mesmo veio ao nosso encontro, se mostrou e nos dirigiu a palavra. 

Por isso, a fé é aquela relação de Deus com o homem, em que o ser humano responde, (cor-responde) ao convite divino porque o próprio Deus lhe ofereceu essa capacidade, lhe ofereceu a linguagem e a própria resposta. Desse modo, aquela que, à partida, era uma relação desigual (entre Criador e criatura) — eventualmente até com o risco de uma subalternização humana — transforma-se, graças a esta atitude misericordiosa de Deus que sai de si para vir ao nosso encontro, numa relação em que o ser humano se vê elevado à sua dignidade maior: parceiro de diálogo com Deus, interlocutor da comunicação divina, colocado por Deus em pé de igualdade com o próprio Deus. Por isso, longe de constituir uma diminuição da dignidade humana, a fé mostra-se como a relação onde o ser humano encontra uma dignidade nunca possível de ser adquirida pelas capacidades humanas. 

E essa relação de fé é qualificada como “cristã”. Ela não é a fé do João ou do Patrício. É fé cristã porque nós, cristãos, percebemos que não nos basta uma atitude humana (ainda que, humanamente, fosse a mais elevada possível) para chegarmos, com os nossos meios, a essa condição de interlocutores com Deus. Seríamos apenas imitadores baratos e incapazes da relação única e pessoal que Jesus tem com o Pai — essa sim, o lugar maior, infinitamente maior, de humanidade — lugar de encontro pleno e perfeito de Deus com o Homem. 

A nossa fé é dita “cristã” porque ela consiste na participação humana naquela atitude central da vida de Jesus Cristo que é a sua relação com o Pai. Em nós, a fé consiste em participarmos numa relação que já existe e que foi historicamente realizada em Jesus de Nazaré. 

A Jesus de Nazaré só o conseguimos compreender a partir desta relação. Tudo nele depende do Pai. Ele é “o Filho” por antonomásia. O seu alimento é fazer a vontade do Pai, como Ele próprio afirmou (Jo 4,34). Tal como disse também: “Ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar”. E ainda: “Se permanecerdes em Mim e as minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que quiserdes e ser-vos-á concedido” (Jo 15,7). 

O poder da fé não é, portanto, o poder das capacidades humanas, por maior que sejam. É o poder de Deus, do Deus feito Homem que é Jesus, que nos torna participantes do seu Espírito, quer dizer: da sua relação com o Pai. Felizes, verdadeiramente, os crentes, aqueles que “acreditam sem terem visto” (Jo 20,29), quer dizer: os discípulos de Jesus, os seus amigos, a quem Ele deu a viver a sua vida — participantes do mistério, da intimidade do Senhor com o Pai. Podemos, por isso, compreender que Jesus tenha dito aos discípulos: “Se tivésseis fé comparável a um grão de mostarda, diríeis a este monte: muda-te daqui para acolá, e ele havia de mudar-se” (Mt 17,20). 

Caros irmãos, caríssimos seminaristas João Gonçalves e Patrício Sousa, que estais prestes a ser instituídos nos ministérios dos acólitos e dos leitores, 

Tudo o que é a vida cristã — todo e qualquer ministério a ser desempenhado na liturgia, toda e qualquer atitude de oração, toda e qualquer escolha moral realizada por um cristão apenas faz sentido no seio desta realidade grande (desta realidade “teologal”, quer dizer: que tem origem no próprio Deus) que é a fé. Sem a fé, sem a participação na relação única que Jesus tem com o Pai, as normas morais serão apenas regras exteriores a serem (ou não) cumpridas; sem a fé, a oração ficará reduzida a palavras sem sentido e artificiais; sem a fé, o testemunho cristão será sinónimo de arrogante presunção de quem procura impôr aos demais as suas convicções. 

Hoje, a Igreja confia-vos algo de precioso, ao mesmo tempo que confirma os passos do vosso caminho e a vossa disponibilidade para, um dia, poderdes ser ordenados sacerdotes. Confia-vos a um a missão de proclamar a Palavra de Deus na liturgia e de a ensinar, ajudando os outros fiéis a conhecer melhor a Jesus, Palavra de Deus feita carne, Salvador do mundo. E a outro é confiada a missão de ajudar os presbíteros e os diáconos no desempenho das suas funções, e de distribuir aos fiéis, como ministro extraordinário, a Sagrada Comunhão. 

Nada disso faz sentido sem a fé. Nada disso faz sentido sem progredirdes no caminho da fé, o mesmo é dizer: sem aprofundardes a participação da relação única que Jesus tem com o Pai.  

Caminhai na fé. Deixai que a fé seja o oceano divino em que navegais; a força que vos permite superar os obstáculos; o dom que vos faz membros de Cristo.