China: Padre da Igreja Clandestina diz que “há mais confusão e divisão” após acordo entre Santa Sé e Pequim

D.R.

“Mau e desumano.” É assim que um sacerdote pertencente à Igreja Clandestina classifica o regime comunista de Pequim numa mensagem enviada para a Fundação AIS. Nessa mensagem, a segunda que faz chegar ao secretariado da Ajuda à Igreja que Sofre em Lisboa no espaço de poucas semanas, este padre critica o acordo rubricado entre a Santa Sé e as autoridades chinesas com vista à normalização da relação entre os dois Estados, nomeadamente no que diz respeito à nomeação dos bispos católicos.

O Padre ‘Pedro’ – cujo nome verdadeiro não pode ser revelado por questões de segurança – mostra-se céptico, por exemplo, quanto à eficácia das pressões diplomáticas de países ocidentais para a resolução do problema da falta de liberdade religiosa na China. “Na minha opinião, não são poucos os cristãos europeus que acreditam que os governos europeus podem pressionar o Governo de Pequim para que garanta a liberdade religiosa e os direitos humanos. Porém, nenhum o fará, porque para os governos o interesse económico e político é, na prática, muito mais importante do que o interesse religioso.”

Na mensagem enviada para Lisboa, o Padre ‘Pedro’ tece também algumas críticas à forma como o acordo entre Santa Sé e Pequim tem vindo a ser implementado. “Aqui também expresso uma opinião pessoal: nem o Vaticano, seguindo este caminho descrito como ‘diálogo e colaboração’, poderá conseguir algo ‘verdadeiramente bom’ do Governo de Pequim para a Igreja na China.”

E acrescenta, com uma crítica muito forte ao diálogo com responsáveis de regimes comunistas: “A ‘unificação’ das duas Igrejas aparentemente é uma coisa boa e positiva mas, na realidade, há mais confusão e divisão, não apenas na esfera eclesial, mas também na questão da fé. A história é uma boa professora que nos ensinou que algo ‘realmente bom’ não pode sair do diálogo com o regime comunista, porque desde a raiz da sua práxis é mau e desumano.”

Nesta carta enviada para a Fundação AIS, o Padre ‘Pedro’ relata um caso de aparente conflito entre uma estrutura religiosa pertencente à Igreja Clandestina, que identifica como sendo “do norte” do país, e as autoridades. Trata-se de uma comunidade religiosa diocesana com “várias dezenas de religiosas [que] ultimamente tem passado momentos muito complicados e difíceis”.

O Padre ‘Pedro’, que está a completar a sua formação num país da Europa comunitária, explica que a referida comunidade religiosa cuida “há muitos anos” de um orfanato para crianças abandonadas com problemas físicos e mentais. Agora, diz, “o governo quer retirar-lhes o direito do orfanato, acusando-o de ser ilegal, ou seja, o mencionado orfanato não tem autorização do Governo”.

‘Pedro’ diz que a referida autorização destina-se a “submeter tudo e todos ao controlo do governo”. Agora, após a intervenção das autoridades, no sentido da “legalização” do orfanato, este, explica o padre na mensagem enviada para a Fundação AIS, “será do governo e as irmãs poderão cuidar dos órfãos, não como religiosas mas como operárias, ou seja, como qualquer pessoa que trabalha numa instituição estatal”.

O sacerdote diz que, neste caso, “o bispo não pode fazer nada” e que “a superiora” da congregação, “forçosamente, deve aceitar a proposta do governo”. Ao denunciar este caso, o Padre ‘Pedro’ pretende “demonstrar que o problema da Igreja na China é muito difícil”.

Apelando à oração “ sempre boa e eficaz” pelos “irmãos que sofrem por causa do nome de Cristo”, o Padre ‘’Pedro’, que se afirma como “amigo da AIS em Lisboa”, lança um repto: “como ajudar os Cristãos de Portugal e da Europa a crescer na fé e a ter uma verdadeira vida cristã através das notícias [e dos exemplos que chegam] da Igreja que sofre, seja na China ou em muitos países?”

Depois de constatar que, “na sociedade de hoje, denunciar o que é mau e injusto não é suficiente”, o Padre ‘Pedro’ responde que o caminho é a construção do que é bom e justo. “E o que é bom e justo? A salvação que Jesus Cristo nos trouxe, isto é, a Boa Nova. Quando alguém não tem uma verdadeira vida de fé, não lhe interessa o que é mau e injusto, é indiferente a tudo isso, porque não possui uma norma de vida clara.”

Esta é a segunda carta enviada por este sacerdote para Lisboa no espaço de apenas três semanas. Na carta anterior, ‘Pedro’ afirmava, sem margem para dúvidas, que, “ao longo dos 20 meses de Acordo Provisório” assinado entre a Santa Sé e Pequim, no sentido da normalização das relações entre os dois Estados, a situação “da Igreja perseguida veio a piorar”.

O Padre ‘Pedro’ acusa mesmo nessa carta as autoridades de Pequim de pretenderem “enganar” os membros da Igreja para aderirem à Associação Patriótica, criada pelo governo para a tutela dos assuntos relacionados com a comunidade católica.

“O Governo aproveitou este acordo para enganar os membros do clero, tanto bispos como presbíteros, para que acreditem que não faz sentido estar fora da igreja patriótica, isto é, que fazer parte dela é a única solução”, escreveu o sacerdote na carta enviada há cerca de três semanas, acrescentando: “os que não querem fazer parte da igreja estatal são mais perseguidos de várias formas”.