A linguagem da Criação, como lugar de Deus e projeto a cuidar (10)

D.R.

Definitivamente é necessária uma severa reflexão sobre o homem. Por esta razão, o Papa Francisco afirmava que «O homem não se cria a si mesmo. Ele é espírito e vontade, mas é também natureza». Na verdade, a criação é afetada e o homem é a última instância. Deste modo, «A casa comum de todos os homens deve continuar a erguer-se sobre uma reta compreensão da fraternidade universal e sobre o respeito pela sacralidade de cada vida humana». Além disso, «A casa comum de todos os homens deve edificar-se também sobre a compreensão duma certa sacralidade da natureza criada». Note-se que: «tal compreensão e respeito exigem um grau superior de sabedoria, que aceite a transcendência, própria de cada um, renuncie à construção duma elite omnipotente e entenda que o sentido pleno da vida individual e coletiva está no serviço desinteressado aos outros e no uso prudente e respeitoso da criação para o bem comum». 

Neste discurso, o Papa Francisco cita as palavras de Paulo VI, «o edifício da civilização moderna deve construir-se sobre princípios espirituais, os únicos capazes não apenas de o sustentar, mas também de o iluminar e de o animar».

Na Mensagem do Santo Padre Papa Francisco para a Quaresma de 2019 designada: «A criação encontra-se em expetativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus» (Rm 8, 19), sua Santidade afirma que todos os anos, por meio da Mãe Igreja, Deus concede aos seus fiéis a graça de se purificarem, para melhor celebrar as festas pascais, e participarem nos mistérios da renovação cristã. Neste sentido, Francisco diz-nos que «se o homem vive como filho de Deus, se vive como pessoa redimida, que se deixa guiar pelo Espírito Santo (cf. Rm 8,14), e sabe reconhecer e pratica a lei de Deus, a começar pela lei gravada no seu coração e na natureza, beneficia também a criação, cooperando para a sua redenção». Deste modo, S. Paulo afirma que a criação deseja de modo intensíssimo que se manifestem os filhos de Deus (Rm 8,19), isto é, que a vida daqueles que gozam da graça dos mistério pascal de Jesus se cubra plenamente dos seus frutos, destinados a alcançar o seu completo amadurecimento na redenção do próprio corpo humano. Devemos recordar que a harmonia gerada pela redenção está e estará sempre ameaçada pela força negativa do pecado e da morte. 

Por outro lado, Francisco afirma que muitas vezes o ser humano adotou comportamentos destruidores, no que toca ao próximo, as outras criaturas e até a nós próprios. Na verdade, o pecado é causa de todo o mal, no qual interrompe a comunhão com Deus. segundo Francisco essa comunhão acaba também por fracassar a relação harmoniosa dos seres humanos com o meio ambiente. De facto, quando se abandona a lei de Deus, a lei do amor, acaba por se afirmar a lei do mais forte sobre o mais fraco. Portanto, «a criação tem urgente necessidade que se revelem os filhos de Deus, aqueles que se tornaram “nova criação”: “Se está em Cristo, é uma nova criação. O que era antigo passou; eis que surgiram coisas novas” (2 Cor 5,17). Com efeito, com a sua manifestação, a própria criação pode também “fazer páscoa”: abrir-se para o novo céu e a nova terra (Cf. Ap 21,1)».

Assim, nesta Mensagem, Francisco apresenta o caminho rumo à Páscoa, que nos chama precisamente a restaurar a nossa fisionomia e o nosso coração de cristãos. Os cristãos são chamados a encarnarem, de forma mais intensa e concreta, o mistério pascal na sua vida pessoal, familiar e social. De igual modo, ao percorrermos este caminho, somos convidados a levar esperança também à criação, que «será libertada da escravidão da corrupção, para alcançar a liberdade na glória dos filhos de Deus» (Rm 8,21). Por último, sua Santidade Francisco desafia todo o cristão a acolher na sua vida concreta a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, no qual poderá atrair também sobre a criação e a sua força transformadora.   

A encíclica Laudato Si` apresenta e interrelaciona um conjunto de noções cuja compreensão precisa e é necessária para captar toda a profundidade das afirmações propostas e as suas implicações. “Cuidar é um ato de desvelo pela vida, pela sua realização e expansão harmónica. Arte de cuidar é vista como serviço de amor ao Deus que está presente no dinamismo criacional, do equilíbrio dos sistemas que formam a casa, dos seres que os compõem e das suas necessidades, tendo em vista uma perspetiva de comunhão”. O cuidar convida à evangelização. Por isso, nesta encíclica encontramos um conceito operativo, renovado, de evangelização: receção e transmissão da autocomunicação de Deus presente no mistério de Cristo através dos dinamismos socioculturais e científicos presentes na história, que implica duas atitudes: receber e transmitir. Deste modo, «a conversão contínua do evangelizador é condição necessária para o sucesso da evangelização». A LS defende que tanto a evangelização como a conversão têm de ser ecológicas, isto é, têm de passar por dialogar e respeitar com todas as áreas do saber para servir a vida na casa comum que é a Criação. 

«Deus comunica-se pela matéria e faz o Corpo do Seu Filho. Usa a matéria como sinal sacramental por onde Ele mesmo se comunica. Necessitamos de sinais sensíveis e visíveis, de sermos afetados na nossa condição encarnada e corporal pela presença de Deus». A Eucaristia é e será sempre a mais clara e eficaz forma de afetação profunda da nossa própria existência humana e divina. A Eucaristia é um sacramento cósmico: é a celebração de um Cristo morto e ressuscitado que se apresenta como primícias de um nova Criação (LS, 236). Estas linhas nos recordam os ecos de Teilhard de Chardin, que nos abrem para uma presenta do Cristo ressuscitado e cósmico.