Enlatados no relativismo

Estátua de Hipócrates | Academia National da Medicina, Paris | D.R.

Em muitos meios profissionais, familiares e académicos é altamente desaconselhável empregar os termos “valores”, “ética” ou “moral”. Provocam grandes alergias, desencadeadoras de conflitos e, por vez, até são estigmatizantes…

Opta-se, então, pelo mais fácil, mais cómodo, menos comprometedor, omitem-se estes incomodativos vocábulos. Em muitos ambientes até já são considerados démodé e são substituídos por relativismos superficiais, malabarismos argumentativos com interpretações muito contestáveis na essência da ética filosófica, quer kantiana quer utilitarista.

Maltratada a solidez dos valores na formação humana, sem referências balizadoras e superiores, coartado o recurso a uma alteridade transcendente, o homem fica à mercê de predadores, sem norte, sem bússola, sem caminho e sem saber como fazê-lo.

Enlatado pelo relativismo do tempo, perde dimensão superior, fica sem horizontes mais altos e sem asas para se poder elevar. Reduzido ao estado de mediocridade, não consegue permanecer muito tempo aqui, pelo que, facilmente, se bestializa, perde a audácia que o elevaria à escala da superioridade humana, fica disponível para ser usado e abusado como coisa e abdica do exercício da inteligência e da liberdade que o habitam. 

A inteligência é uma caixinha de surpresas. Para o bem e para o mal, a Ética é a grande criação da inteligência, acima da alta Matemática e da Física Quântica, pois indica-nos o caminho que devemos trilhar para construir um mundo melhor, ao serviço do bem de todos. A moralidade na ciência e na técnica não é um enfeite, um verniz, mas uma imperiosa marca de qualidade e excelência. 

A condição humana empobreceu, tornou-se frágil e abandonou-se nas mãos dos que, em nome duma falsa liberdade, esquecem ou ignoram a sua responsabilidade deontológica. Esta não é uma criação das religiões, uma variante filosófica ou moralista mas, simplesmente, um conjunto de princípios elaborados pelo ideal humano de se querer fazer mais homem, mais competente, mais perfeito, mais humano, tendo em conta a dignidade da Pessoa, em todas as circunstâncias, nomeadamente, nos momentos de maior fragilidade física e psíquica, nas crianças, nos adultos, nos idosos e nos mais desfavorecidos, quer na doença, quer na saúde.

Todos os anos os finalistas de Medicina têm uma solene sessão na qual é lido o Juramento de Hipócrates e ao qual todos dão o seu ámen, na presença das entidades superiores responsáveis pela medicina, dos seus familiares e amigos.

Em alguns casos esta promessa é efémera, ou tão pouco foi interiorizada e, com celeridade, a infringem, ignoram, atropelam, sob capa de falsos legalismos, distorcidos argumentos, aparente atitude de compreensão, mas traiçoeiras. 

Outros em seu redor, pactuam, facilitam, fecham os olhos e fingem ignorar, desconhecem o que é a verdade e, em vez de a procurarem, acomodam-se, afinal, “porque não”, “que mal tem”, cada um tem liberdade para proceder como quiser, como lhe der mais jeito ou mais lucro, consoante o grau da sua ausência de consciência bem formada e de sentido ético. É aqui que reside o problema, os valores estão para além de todo o homem e neles nada há de neutro: ou é bem ou é mal, não há meios temos, assim-assim, como se fossem uma peça de roupa que se modela ao corpo, à ocasião, ao momento ou às circunstâncias.

Matar é matar, mandar matar é matar, permitir ou instigar a que outros o façam é, também, matar. Abusar do alheio, apropriar-se do que não deve para benefício próprio é roubar, deixar roubar ou pactuar com quem o faz, é roubar, não recorramos a termos ambíguos, híbridos e perversos para confundir ou aliviar a culpabilidade. 

O ser humano é um equilíbrio de animal racional, todavia, porque nasce, cresce e vive em sociedade, tem a responsabilidade acrescida de zelar pela sua liberdade e pela dos outros, pois no todo se reflecte o lodo de uma só indigência moral. 

A ética é a virtude que nos permite ser mais humanos, mais perfeitos, menos maus, a caminho duma excelência que nos é inerente, mas que nos trai se dela fazemos tábua rasa, em prol de falsos ídolos ou de ausência de qualquer sentido superior de existência.

O mal é sempre mal, tolerá-lo, consenti-lo é tornar indistinto a sua separação do bem e, aí vão crescer e proliferar todas as atitudes, acções e reacções doentias, perigosas e nocivas, pois o terreno onde fermentam é indefinido, amorfo, falso e escorregadio, arrasta muitos e leva outros à predição.

É imperioso e urgente que a formação do carácter, da cidadania e duma segura educação no sentido de divinizar o humano seja aplicada a todos os cursos, inferiores ou superiores. Conhecer o bem, ter a liberdade e a inteligência de optar por ele é um acto moral obrigatório, é um dever.

Superar-se, porque a pessoa transcende a sociedade, é um valor absoluto, para tal deve o homem procurar a excelência, abrir os olhos, discernir, saber ver e lutar, refrear consequências, estar alerta e alertar, substituir a tibieza pela audácia, riqueza primeira e última de uma existência verdadeiramente humana, porque o seu valor é um dom, fundamento último do absoluto de Ser Pessoa.