Cortejo Incompleto

Foto: Duarte Gomes

Por padre Martins Júnior

Ao Colega e Amigo que, partindo, nunca se apartará de nós

Fosse maior que o mundo
Esse barco que te leva
Nele não caberia  teu corpo escasso
Porque mais largo e alto e fundo
Foi o teu espaço
Onde habitava todo o universo

Filho das raízes milenares
Foste Mário, foste Mária, o pleno de Todos os Mares
No coração Francisco de Assis
No alma Teilhard de Chardin
Em cada ser que vias estava o teu país
E era tua a Terra-Mãe, a Terra-Irmã
Quanto mais agarrado a ela
Mais alto vogava a alma tua caravela

Pó caído nunca foste nem és
(Perdoe-me Vieira ‘Imperador´)
Pó erguido sempre
Bíblico rochedo contra ventos e marés
Na voragem das noites e dos dias
Davídico pastor serrano
Venceste sempre a caterva de todos os Golias

Vais para a tua casa
Dormir na tua  cama, a cama que fizeste
Os lençóis de verde vinha que teceste
Erva cidreira, flor da laranjeira
Almofada doce fruto da Figueira
E nos sete palmos do teu trono terreal
O perfume e o sabor daquele Sercial
Que trataste como quem ama
O filho a sua mãe, o amante a sua dama

Hoje é o teu cortejo triunfal
Que em vida sempre rejeitaste

Também vou contigo
Mas antes que eu vá, fica sempre comigo
Fica  connosco

E lá por onde caminhares
Feliz octogenário de sorriso infantil
Faz que cresçam mil cravos de Abril
Faz que renasçam mil Padres Tavares

O7.Jun.20