Amazónia: risco de genocídio

Povo Yanomami, Amazónia, 2003 | Foto: Kristian Bengtson

5 milhões de casos 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) disse, em 22 de maio, que ultrapassados os 5 milhões de casos de covid-19, é essencial consolidar a união nacional e a solidariedade global para suprimir o vírus em todos os lugares.

O diretor-geral, Tedros Ghebreyesus, afirmou que uma parte importante da resolução da Assembleia Mundial da Saúde (MAS), é que além de combater a doença, os governos também precisam garantir a manutenção de serviços essenciais de saúde.

Em Genebra, o diretor executivo do Programa de Emergências em Saúde da OMS, Michael Ryan, lembrou que o Brasil com o aumento no número de casos para 300 mil e mais de 20 mil mortes, está atuando em cooperação com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), que “assiste diretamente governos de vários estados afetados, incluindo o Amazonas”. 

Sobre a situação na África, a OMS informou que apesar de um aumento de infeções nalguns países, não tem havido um alto número de mortes. Esses dados baixos sobre óbitos no continente, são para a agência um motivo de elogio.

Risco de genocídio

Os povos indígenas da Amazónia brasileira estão a ser dizimados há cinco séculos com as doenças trazidas pelos colonizadores, às quais se juntaram o desmatamento, os incêndios florestais, rios envenenados e a invasão das terras. 

Agora, a ausência de medidas para os proteger da Covid-19 deixa-os, nas palavras de Sebastião e Lélia Salgado numa carta aberta a Bolsonaro, “à beira de um genocídio”.

 “Os territórios reconhecidos para uso exclusivo de populações autóctones estão a ser ilegalmente invadidos por garimpeiros, madeireiros e grileiros. 

Os indígenas sofrem um risco real de genocídio, por meio de contaminações provocadas por invasores ilegais em suas terras.

Sebastião Salgado explica numa crítica a Bolsonaro: “as comunidades indígenas nunca estiveram tão sob ataque. O Governo não tem qualquer tipo de respeito pelos seus territórios.

Quando se aprova ou encoraja um ato que se sabe que vai eliminar a população ou parte da população, esta é a definição de genocídio…” 

De acordo com Sebastião Salgado, Bolsonaro poderá atuar sob forte pressão internacional, à semelhança do que aconteceu no ano passado com os incêndios na Amazónia.

“Na Amazónia, há 103 grupos indígenas com os quais nunca contactámos. Representam a Pré-História da humanidade. Não podemos permitir que tudo isto desapareça”, conclui.

A cidade mais afetada em todo o Brasil, com maior mortalidade e mais casos, é Manaus, capital da Amazónia.

Peru preocupante 

O país está em estado de emergência desde 16 de Março, três dias antes de se registar a primeira morte oficial por causa da pandemia, com fecho de fronteiras, cancelamento de viagens (aviões, barcos, comboios e automóveis particulares), isolamento social e recolher obrigatório uns dias depois. 

Ao contrário do Brasil, o Peru agiu cedo e em força. A sua debilidade em matéria de saúde pública assim o exigia. Com mais de 50% da sua mão-de-obra no sector informal, o Governo aprovou programas de ajuda social e empresarial.

Aprovou um decreto de urgência para mitigar os efeitos económicos causados nas indústrias culturais, nas artes e no património pela pandemia. Cerca de 13 milhões de euros para apoiar aqueles que trabalham nas atividades culturais, como artistas, artesãos, gestores culturais, empresários e associações.

Além disso, o Banco de Crédito do Peru conseguiu arrecadar a maior quantidade de fundos numa campanha de solidariedade na história do país. Em três semanas, a campanha #YoMeSumo juntou 33,3 milhões de euros distribuídos a milhares de famílias dos sectores mais afectados.

Os números continuam a ser preocupantes. Há casos de pessoas que morrem em suas casas por falta de assistência.

Os mais frágeis

Um grupo de representantes católicos da América Latina assinou um manifesto onde indicam como prioridade o “cuidado com os mais frágeis e vulneráveis”, e incentivam à cooperação internacional neste tempo de pandemia do Covid-19.

“O nosso olhar nasce da dor daqueles que sofrem e sofrerão mais por causa dessa pandemia: os pobres, os sozinhos e abandonados, os mais frágeis e vulneráveis, os mais pobres e indefesos”. 

Basta pensar no impacto dramático que isso terá para as multidões de irmãos latino-americanos que sobrevivem apenas graças ao trabalho não declarado e, em geral, ao trabalho de rua ou a tantos idosos abandonados. Os pobres precisam de sair de casa para ganhar o pão quotidiano e que muitas vezes não conseguem observar as regras de isolamento e quarentena”, lê-se no L’Osservatore Romano.

A iniciativa, promovida pela Academia de Líderes Católicos, nascida no Chile, é assinada por pessoas de renome nacionais e internacionais e deputados, indica o Vatican News’.

 “Certamente, nos encontramos numa situação muito grave no nosso planeta, provavelmente o maior desafio que nós, como geração, viveremos na nossa história”, afirmam.

Os 170 líderes indicam a importância de “enfrentar a difícil realidade atual, partindo do olhar cristão comum, tendo sempre como prioridade a tutela dos mais frágeis, e promovendo uma maior cooperação e integração internacional”, como caminho para superar as dificuldades presentes.