Surpreendida e Perplexa

Cartaz

Tendo tido conhecimento duma série televisiva: Filosofia – A Mentira da Verdade – Infantis e Juvenis – RTP2, procurei ver o episódio sobre o amor, uma vez que todos os temas me atraiam – Filosofia, Amor, sobretudo numa abordagem infantil, que para mim seria uma novidade.

Sabendo que o protagonista é um “filósofo de profissão”, o qual atravessa a cidade correndo e refletindo num acto de se questionar, procurando dar respostas às suas interrogações, nomeadamente “para que serve o amor”.

Porém, a realidade afigurou-se-me de forma muito estranha, perplexa e perturbada. Numa aparente reflexão filosófica, com recursos pouco adequados e imprecisos à mitologia Grega, a Epicuro e a Platão, numa paupérrima citação do “Banquete”, aparentando uma pedagogia erudita, recorrendo a um vocabulário enganador e com sentido inadequado, este improvável filósofo, tece considerandos gravíssimos, distorcidos e maléficos. 

Claro que não se faz um programa destes “com boa-fé”, o que o personagem conclui e afirma, com um ar perentório de verdade, com divagações delirantes, despidas de seriedade lógica e muito menos filosófica, uma vez que ali não se encontra o prazer da busca da Verdade, o verdadeiro espírito da Filosofia, mas somente um trocadilho de acções e frases, forjadas para serem transmitidas e vendidas em jeito leve de pensamento, maquilhadas com falsos laivos de erudição. 

Mensagem clara e afirmada ao longo do episódio, com novo recurso a dois filósofos actuais, Simone Veil e Michel Foucault: a “monogamia é insustentável”, logo há que partir para “novo paradigma do amor”, a “poligamia”, “o amor fora do normativo”, da “instituição do matrimónio”. “Um novo plano e ordem poderiam funcionar, sem o objectivo da reprodução”, “deixar de nos assumirmos como animais reprodutivos” e “dizer não à metafisica do amor”, “com o avanço da ciência e da técnica não é preciso sexo para criar”.

 “O que resta então do amor? Resta desconstruí-lo, “ir contra si próprio”, “fora de toda a lógica”, “porque não?”

Surpreendida com todo o teor do episódio, com uma continuidade de palavras desconexas, de pensamentos perturbados e perturbadores, de afirmações inadequadas e perversas, resta-me ainda a maior de todas as perplexidades: porquê e para quê esta opção na RTP2 e a sua inserção às 12,30h, num contexto de grelha de programas orientada para uma audiência, infantil e juvenil? 

A Mentira da Verdade, se é como explica o cartaz – Filosofia a golpes de martelo, para que serve então o programa? Para desconstruir o quê? Na verdade não tem nada de positivo, nem de valor filosófico, nem de bom senso, nem de pedagogia ou de entretenimento.

Fica a expressão da minha perplexidade partilhada, tal como o sentido do meu desagrado, que já fiz seguir para o Senhor Provedor do telespectador. provedor.telespectador@rtp.pt