A linguagem da Criação, como lugar de Deus e projeto a cuidar (5)

D.R.

Ao longo da encíclica deparamos que a sensibilidade franciscana do Papa Francisco transparece em várias passagens. A título de exemplo, «Deus uniu-nos tão estreitamente ao mundo que nos rodeia, que a desertificação do solo é como uma doença para cada um, e podemos lamentar a extinção de uma espécie como se fosse uma mutilação» (LS, 89). «O mundo é algo mais do que um problema a resolver; é um mistério gozoso que contemplamos na alegria e no louvor» (LS, 12). «O universo desenvolve-se em Deus, que o preenche completamente. E, portanto, há um mistério a contemplar numa folha, numa vereda, no orvalho, no rosto do pobre» (LS, 233). «Todo o universo material é uma linguagem do amor de Deus, do seu carinho sem medida por nós. O solo, a água, as montanhas: tudo é carícia de Deus» (LS, 84).

De modo geral, os objetivos fundamentais da encíclica é alertar para a situação dramática em que se encontra o planeta Terra, entendido com casa comum, irmã e mãe; o estabelecimento de um diálogo entre todos que possa encontrar uma solução para um desenvolvimento sustentado do mundo; e quer-se «propor uma ecologia que, nas suas várias dimensões, integre o lugar específico que o ser humano ocupa neste mundo e as suas relações com a realidade que o rodeia» (LS, 15). 

A encíclica deve ser lida sem prejuízos, desde a sua intenção mais profunda, enraizada na teologia cristã da criação exposta no segundo capítulo (LS 62-100). Este segundo capítulo designado por O Evangelho da Criação diz-nos que “«Fomos concebidos no coração de Deus e, por isso, cada um de nós é o fruto de um pensamento de Deus. Cada um de nós é querido, “cada um de nós é amado, cada um é necessário”» (LS, 65). Afirma ainda que «somos chamados a tornar-nos os instrumentos de Deus Pai para que o nosso planeta seja o que Ele sonhou ao criá-lo e corresponda ao seu projeto de paz, beleza e plenitude» (LS, 53).

Ao longo do segundo capítulo, o Papa Francisco repete várias vezes, a expressão «tudo está interligado». De facto, esta interligação encontra-se na raiz do olhar teológico cristão que encontra uma vinculação entre Criação, redenção Cristo e a Nova Criação em leitura contemplativa, oblativa e comprometida na transformação do homem do mundo, a partir do mistério de Cristo. Assim, o capítulo 2 aprofunda sobre diálogo entre fé cristã e a realidade pragmática do mundo. Sua santidade faz uma leitura teológica do universo, oferece uma visão crística cósmica, no qual o conteúdo da nossa Revelação cristã surge como parceira de soluções e ações pragmáticas no mundo. Uma leitura da Revelação como mistério do Cristo cósmico, mostra-se a relação entre esta mensagem Revelada e os compromissos ecológicos que encerra. A Revelação é também ela, uma mensagem e uma proposta de ecologia integral.  

Perante a poluição, as mudanças climáticas, a perda da biodiversidade, a destruição da qualidade de vida humana, «há que assumir um Evangelho da criação, a partir da luz que nos oferece a fé, a sabedoria das narrações bíblicas, do mistério do universo, da mensagem da cada criatura na harmonia de toda a criação, bem como de uma comunhão universal, do destino comum dos bens e do olhar de Jesus». De facto, «a dignidade humana não é uma abstração, tem de se basear numa convergência entre o sentido crítico e de responsabilidade perante os outros e diante das gerações futuras».

Em resumo, Francisco propõe uma nova hermenêutica que interprete a doutrina sob a ótica do cuidado. Neste sentido, o Papa propõe que o ponto de partida teológico seja: o Deus dos cristãos, além de ser o Criador do universo, manifestado no Antigo Testamento, é o libertador dos pobres e oprimidos revelado no Novo Testamento e anunciado pela Igreja como salvação. Jesus no início do seu ministério deixou bem claro a sua missão: evangelizar os pobres, curar os sofredores, libertar os cativos, devolver a visão aos cegos e libertar os oprimidos (Lc 4, 15-21). Deste modo, a comunidade de fé é recetora a uma nova consciência.