Missa dominical: D. Nuno diz que cristãos precisam continuar fazer a “apologia da esperança”

Foto: Duarte Gomes

Nestes tempos difíceis que vivemos é preciso fazer a “apologia da esperança”. Isso mesmo defendeu D. Nuno Brás, na Eucaristia dominical a que presidiu neste dia 17 de maio, na Igreja do Sagrado Coração de Jesus.

“Em tempos de desesperança como aqueles que vivemos e, sobretudo, aqueles que estamos para viver, não podemos deixar de a tornar presente, e de viver dela!”, frisou o bispo do Funchal na sua homilia.

A propósito, D. Nuno acrescentou mesmo que “não podemos deixar de fazer nosso o objectivo procurado por tantos homens e mulheres, ao longo de todos estes séculos, cristãos como nós, de carne e osso como nós, por entre dificuldades e canseiras por vezes bem maiores que as nossas, que são os santos. Hoje, é possível a esperança; é necessária a esperança!”

D. Nuno explicou que a esperança cristã é a meta para a qual caminhamos e que essa meta é a vida plena com Deus. E de acordo com o Evangelho, lembrou o prelado, “a ‘Boa Notícia’ é precisamente essa: é possível!”.

De resto “é por isso que os primeiros cristãos foram enviados ao mundo inteiro; por isso não podiam descansar; por isso continuamos hoje a não poder descansar enquanto existir alguém que não sabe. Todos precisam saber que é possível viver com Deus!”

As dificuldades e sofrimentos necessários para chegar a essa meta existem, mas “nós, seres humanos, fomos criados para o maior dos destinos possíveis: viver com Deus, partilhar da Sua vida.”

“Esperamos a vida plena com Deus (é a nossa meta); podemos alcançá-la porque Deus no-la dá; e vale a pena caminhar para ela — é mesmo a única coisa por que vale a pena lutar, sofrer, peregrinar: é o tesouro escondido que nos aguarda”, salientou.

Na véspera da celebração dos 100 anos do nascimento de São João Paulo II, o bispo do Funchal lembrou que é preciso não ter medo de acolher Cristo como dizia Karol Wojtyla: “Não tenhais medo de acolher Cristo e de aceitar o Seu poder! […] Não, não tenhais medo! Procurai abrir, melhor, escancarar as portas a Cristo! Ao Seu poder salvador abri os confins dos Estados, os sistemas económicos e políticos, os vastos campos de cultura, de civilização e de progresso! Não tenhais medo! Cristo sabe bem ‘o que está no interior do homem’. Somente Ele o sabe! Hoje em dia é muito frequente o homem não saber o que traz no interior de si mesmo, no profundo do seu ânimo e do seu coração; muito frequentemente se encontra inseguro acerca do sentido da sua vida sobre esta terra. E sucede que é invadido pela dúvida que se transforma em desespero. Permiti, pois — peço-vos e vo-lo imploro com humildade e com confiança — permiti a Cristo falar ao homem. Somente Ele tem palavras de vida; sim, de vida eterna”.

O bispo do Funchal terminou a celebração deste domingo pedindo para que “não nos esqueçamos de, amanhã, louvar a Deus por aquilo que foi e que é São João Paulo II e de pedir a São João Paulo II que nos ajude a ter esperança e a sermos anunciadores, presença da esperança cristã”.

Leia a homilia de D. Nuno Brás na íntegra:

VI Domingo da Páscoa (A)

17 de Maio de 2020

1. Na IIª Leitura que escutámos, S. Pedro convidava os cristãos a estarem “sempre prontos a responder, a quem quer que seja, sobre a razão da vossa esperança” (1Ped 3,15). 

Lendo o texto original, em grego, percebemos que o convite do Apóstolo é mais interpelador do que a tradução portuguesa deixa transparecer: estai “sempre prontos para fazer a apologia a todo aquele que vos perguntar a razão da vossa esperança”.

Fazer a “apologia da esperança” que nos habita, da esperança cristã diz Pedro. Mas será que, nestes tempos em que vivemos, podemos ainda fazer esta “apologia da esperança” que nos habita?

2. Num dos seus escritos mais importantes, intitulado “Salvos na esperança” (Spe salvi), o Papa Bento XVI dizia: “foi-nos dada a esperança, uma esperança fiável, graças à qual podemos fazer face ao tempo presente: o presente, mesmo que difícil, pode ser vivido e aceite se conduzir a uma meta e se pudermos estar seguros desta meta, se esta meta for tão grande que justifique a fadiga do caminho” (Spe Salvi, 1). 

Podemos, portanto, dizer que a esperança é possível se conduzir a uma meta, se esta meta for seguramente alcançável e se for suficientemente valiosa para nos fazer percorrer o caminho.

Em que consiste a esperança cristã? Qual é a meta da nossa vida cristã? No evangelho que escutámos, Jesus dizia: “É esta a própria vida: que Te conheçam a Ti, único Deus verdadeiro, e Aquele que enviaste, Jesus Cristo”. Conhecer Deus, viver com Ele! A esperança cristã, a meta para onde caminhamos é a de chegarmos à vida plena, a vida com Deus: “que Te conheçam a Ti, único Deus verdadeiro”.

Esta meta é alcançável? Poderemos chegar a viver plenamente com Deus? Temos forças para lá chegar? O mal que praticamos (todos somos pecadores!) não nos tornará indignos de chegar a essa união de vida com Deus? 

O Evangelho, a “Boa Notícia” é precisamente essa: é possível! E é por isso que os primeiros cristãos foram enviados ao mundo inteiro; por isso não podiam descansar; por isso continuamos hoje a não poder descansar enquanto existir alguém que não sabe. Todos precisam saber que é possível viver com Deus! 

Jesus ressuscitado apareceu aos discípulos (S. Paulo diz: “Apareceu a Pedro e depois aos Doze. Em seguida apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez […]. Depois apareceu a Tiago e, depois, a todos os Apóstolos. Por fim, apareceu também a mim” – 1Cor 15,5-8) Jesus ressuscitado apareceu aos discípulos com toda a vida de Deus e, ao dar-lhes o Espírito Santo, deu-lhes a participar desta vida. 

Viver com Deus, participar da Sua vida (a vida do Ressuscitado) é possível, não porque tenhamos forças para tal; não porque sejamos dignos de viver desse modo, mas porque o próprio Deus nos quer dar a Sua vida, mesmo sem o merecermos, de graça!

E será que vale a pena? Será que vale a pena o caminho necessário? Será que valem a pena as dificuldades e sofrimentos, sempre necessários para chegar à meta? Ao criar-nos, o próprio Deus colocou em nós o desejo de viver com Ele. “Criaste-nos para Ti, Senhor, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansa em Ti”, reconhecia S. Agostinho. 

Nós, seres humanos, fomos criados para o maior dos destinos possíveis: viver com Deus, partilhar da Sua vida. Só essa meta, só esse objectivo vale verdadeiramente a pena. Tudo o resto, tudo o que não contribui para o alcançarmos, é perda de tempo. Que pena quando alguém se contenta com um objectivo menor! Entendida deste modo, podemos, também nós, fazer nossa a célebre frase: “Sejam realistas, peçam o impossível”. Ou, dito de outro modo: “sejam realistas, peçam a vida eterna”!

Esperamos a vida plena com Deus (é a nossa meta); podemos alcançá-la porque Deus no-la dá; e vale a pena caminhar para ela — é mesmo a única coisa por que vale a pena lutar, sofrer, peregrinar: é o tesouro escondido que nos aguarda.

3. Mas podemos viver esta esperança que Deus colocou no nosso coração mesmo nestes tempos de pandemia e de medo? Nós, cristãos, não podemos deixar de viver esta esperança! E em tempos de desesperança como aqueles que vivemos e, sobretudo, aqueles que estamos para viver, não podemos deixar de a tornar presente, e de viver dela!

O mesmo é dizer: não podemos deixar de fazer nosso o objectivo procurado por tantos homens e mulheres, ao longo de todos estes séculos, cristãos como nós, de carne e osso como nós, por entre dificuldades e canseiras por vezes bem maiores que as nossas, que são os santos. Hoje, é possível a esperança; é necessária a esperança!

E como amanhã passarão 100 anos do nascimento desse grande santo dos nossos tempos que foi S. João Paulo II, recordemos aquelas palavras com que Karol Wojtyla iniciava o seu ministério como Papa: “Não tenhais medo de acolher Cristo e de aceitar o Seu poder! […] Não, não tenhais medo! Procurai abrir, melhor, escancarar as portas a Cristo! Ao Seu poder salvador abri os confins dos Estados, os sistemas económicos e políticos, os vastos campos de cultura, de civilização e de progresso! Não tenhais medo! Cristo sabe bem ‘o que está no interior do homem’. Somente Ele o sabe! Hoje em dia muito é muito frequente o homem não saber o que traz no interior de si mesmo, no profundo do seu ânimo e do seu coração; muito frequentemente se encontra inseguro acerca do sentido da sua vida sobre esta terra. E sucede que é invadido pela dúvida que se transforma em desespero. Permiti, pois — peço-vos e vo-lo imploro com humildade e com confiança — permiti a Cristo falar ao homem. Somente Ele tem palavras de vida; sim, de vida eterna”.