Pandemia: remar juntos

Todos juntos

O cardeal António Marto, bispo de Leiria-Fátima falou, no dia 13 de maio, de um tempo de responsabilidade e solidariedade, diante das “terríveis consequências económicas, sociais e laborais” do  Covid-19

O vírus ultrapassa todas as barreiras geográficas e todas as condições sociais e hierárquica: ricos e pobres, grandes e pequenos, letrados ou iletrados, ninguém está imune. 

Sentimo-nos membros de uma humanidade comum, na fragilidade, mas também mais unidos na fraternidade e na solidariedade. E damo-nos conta de que somos interdependentes uns dos outros. Ou nos salvamos todos juntos ou nos afundamos todos juntos. 

Descobrimos a família como suporte humano e espiritual, como pequena Igreja doméstica nestes tempos de confinamento. A longa interrupção da vida normal, já está a gerar uma outra pandemia mais dolorosa, a da extensão da pobreza, da fome e da exclusão social, agravada pela cultura da indiferença e do individualismo. 

A este propósito, interpela-nos a impressionante visão da pequena santa Jacinta, que ela comunicou à Lúcia, nestes termos: “Não vês tanta estrada, tantos caminhos e campos cheios de gente, a chorar com fome, e não têm nada para comer? E o Santo Padre numa igreja diante do Imaculado Coração de Maria a rezar? E tanta gente a rezar com ele?”. 

Vírus da indiferença

Como cristãos, não podemos ficar indiferentes. É uma situação que já bate à porta das Cáritas diocesanas e das paróquias e soa a grito de alarme!

O Papa Francisco apela a um impulso de solidariedade que oriente uma resposta mundial perante a anunciada quebra, senão queda, do nosso sistema económico e social.

Estaremos dispostos a mudar os estilos de vida que mergulham tantos na pobreza, promovendo e animando-nos a levar uma vida mais sóbria e humana que possibilite uma divisão equitativa dos recursos? 

“A globalização da indiferença continuará a ameaçar o nosso caminho… Esperemos que nos encontre protegidos com os anticorpos necessários da justiça, da caridade e da solidariedade”.

Unidos e solidários

A Comissão dos Episcopados Católicos da UE (COMECE) e a Conferência das Igrejas Europeias (CEC) lançaram, no dia 2 de abril, um apelo a uma resposta unida e solidária, perante a crise.

“É o momento para que todos demonstremos o nosso compromisso conjunto com o projeto europeu e os valores europeus comuns de solidariedade e unidade, e não de capitular diante do medo e do nacionalismo”, assinalam os presidentes, cardeal Jean-Claude Hollerich e reverendo Christian Krieger, respetivamente.

Pedem “medidas criativas” para enfrentar novas dificuldades sociais, económicas e financeiras, que permitam ainda “reforçar os sistemas de saúde mais frágeis, nas regiões pobres do mundo”. 

Remar juntos

O cardeal Ayuso Guixot, presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, falando sobre “O papel dos líderes religiosos ao enfrentar os desafios ligados à Covid-19”, recordou as palavras pronunciadas pelo Papa Francisco, na Praça São Pedro vazia e flagelada pelo vento e a chuva, durante o momento extraordinário de oração em tempo de pandemia: “Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados mas ao mesmo tempo importantes e necessários: todos chamados a remar juntos, todos carecidos de mútuo encorajamento”. 

E o cardeal Guixot continuou: “Esta conscientização da nossa unidade – “fazemos parte da família humana e dependemos uns dos outros” – requer que nós, líderes religiosos, junto às nossas comunidades, sejamos solidários com a humanidade gravemente atingida.

 “Há que encontrar coragem para abrir espaço a novas formas de solidariedade”, e “para derrotar todas as injustiças e desigualdades”. 

“O mundo – afirmou Guixot – não deve voltar ao que era antes da pandemia, mas deve acolher a oportunidade de criar uma nova e melhor sociedade global”.

Neste tempo de incertezas, a nossa missão é a de difundir “o contágio da esperança”, “graças aos nossos valores espirituais.