Arte e Pensamento

Guernica, Pablo Picasso, pintura a óleo, 1937

Por Ana Maria Figueiredo

Quando olhamos para uma obra de arte, por exemplo no contexto de uma visita a um museu, podemos colocar-nos muitas questões sobre a obra em si, sobre a técnica e a intenção do artista, sobre o impacto histórico que a obra teve, e muitas mais. Hoje, gostaríamos de chamar a atenção para um tema que nem sempre é focado: Será que o pensamento condiciona a arte? Uma obra de arte refletirá o pensamento do artista?

Podemos começar por refletir sobre o que é o pensamento de cada um de nós, isto é, o conjunto de ideias que cada um tem na sua mente, e que nos permitem olhar o mundo de uma determinada maneira, ter do mundo uma certa interpretação. E chegamos à conclusão de que esse pensamento individual conjuga elementos da natureza e da aprendizagem individual, mas também é o reflexo da sociedade onde cada artista está inserido.

Sabemos que a filosofia é o amor pela sabedoria e o estudo das questões gerais e fundamentais da existência humana: a verdade, os valores morais e estéticos, a mente e a linguagem, assim como o universo. O filósofo, por assim dizer, busca o conhecimento da condição humana, e esse conhecimento é construído por via do raciocínio lógico e da argumentação. 

Mas esse tipo de raciocínio não é o único que o ser humano pode ter; e esse tipo de raciocínio não lhe permite ter acesso a toda a realidade. Há uma série de elementos da realidade humana que conhecemos e partilhamos através da sensibilidade, e que não têm a ver apenas com a experiência individual, mas com a experiência coletiva em determinado momento histórico. 

A arte é uma atividade humana que está ligada quer à criação estética, quer à comunicação entre as pessoas. Enquanto tal, a arte procura dar a conhecer o mundo próprio do artista, e por vezes a comunidade em que ele está inserido; e essa produção é também uma parte da verdade, mesmo que não seja a verdade toda, uma vez que é dada em perspetiva. “Se houvesse uma única verdade, não se poderiam pintar cem telas sobre o mesmo tema”, dizia Pablo Picasso.

A arte é a expressão individual do artista (perspetiva individual), mas também reflete o seu pensamento e o pensamento da sociedade a que ele pertence (perspetiva comunitária); neste sentido, a arte mostra à filosofia que o raciocínio lógico e a argumentação têm os seus limites, não podendo alcançar tudo aquilo que é propriamente humano.

Voltando a Pablo Picasso, no seu quadro Guernica (pintado em 1937, no contexto da Guerra Civil de Espanha), podemos observar o que é uma guerra, que é fruto das ações de uma sociedade, e o pensamento ou interpretação que Picasso faz da mesma. A interpretação do artista é forte e poderosa, de tal maneira que este quadro é considerado um importante manifesto antibélico. A obra permite-nos perceber que o sentido da arte enquanto via de sensibilização da sociedade está presente nas grandes obras, sempre que os artistas não se esquivam a essa tarefa de transporem o seu pensamento para a tela.

Mas este pensamento pessoal, sendo fruto da história individual e da história coletiva, não deixa de estar condicionado pela formação do poder e da ideologia. Deste modo, a sensibilidade, pela qual o artista é responsável, resulta sempre numa visão não universal.