Pandemia: “redescobrir família Igreja doméstica”

D.R.

Quarentena em cima de quarentena

1. Conta um meu colega missionário: “cheguei hoje  a Maputo, vindo de Lisboa, no último voo que a TAP realiza até ao fim de Abril, e já estou a cumprir 14 dias de quarentena. É quarentena em cima de quarentena, pois a Conferência Episcopal de Moçambique (CEM) decretou uma quarentena de 30 dias para os seminários e casas de formação”.

“O coronavírus, pondo em perigo qualquer um, independentemente da sua riqueza ou estatuto, torna todos iguais – não perante a morte, mas perante o direito à vida, à saúde e à justiça.” Não põe em causa a nossa civilização, mas o desenvolvimento de laços sociais cada vez menos aceitáveis. 

A experiência que estamos a viver constitui apenas uma antecipação, e um aviso, do que nos espera com as alterações climáticas. O que fazer? Os políticos multiplicam normas e regras.  

Por um lado, dizem-nos que a luta contra a epidemia só terá êxito se juntarmos todos os nossos esforços individuais, na consciência de pertencermos à comunidade humana. Por outro lado, incitam-nos ao isolamento, a ficar em casa, a manter o distanciamento social requerido, a não beijar, não abraçar, não tocar. Cancelam-se os eventos e espaços de lazer, fecham-se as fronteiras. Reduzir-se-á então o nosso contributo a obedecer passivamente ao auto-isolamento anti-social? Não. É preciso cumprir, e olhar para diante…

Redescobrir os relacionamentos

2. A Federação das Associações de Famílias Católicas da Europa (FAFCE) incentiva à redescoberta dos relacionamentos no contexto da pandemia Covid-19 porque “é a solidão que corre o risco de se espalhar”.

“Não é fácil ficar juntos por um longo tempo em casas que logo se tornam demasiado pequenas. Mas, ao mesmo tempo, vivemos uma oportunidade para redescobrir os nossos relacionamentos humanos e reconhecer o papel essencial da família em nossas sociedades”, assinala o presidente da FAFCE.

Numa nota enviada à Agência ECCLESIA, Vincenzo Bassi, expressa os “mais calorosos desejos” a todas as famílias da Europa, a todas as mães e pais de famílias, sem as quais não se podia “superar essa fase” da prevenção do Covid-19.

“As medidas de emergência adotadas para as famílias devem ser universais e automáticas. Não devem envolver procedimentos burocráticos, mas devem ser facilmente acessíveis a todos”, alerta o responsável italiano.

Bassi salienta que nesta crise todos têm uma parte de “responsabilidade em relação ao bem comum” e chama a atenção para as palavras do Papa Francisco, em Santa Marta: “As famílias, são chamadas a redescobrir-se como igrejas domésticas, o principal local para a transmissão da fé. Os conselhos para a liturgia doméstica já são apresentados online e as novas tecnologias oferecem alternativas para permanecer ligado em oração”, acrescentou.

Nossos bispos e a solidão

3. Os bispos portugueses têm enviado mensagens de esperança e solidariedade em transmissões na TV e nas demais redes sociais. E acentuam o problema terrível da solidão.

D. Nuno Brás, bispo do Funchal: «Nesta Quaresma estamos condenados a reduzir as nossas atividades por causa desse invisível “corona vírus”. Esta vai ser, por isso, uma Quaresma como nunca a vivemos. Vai ser uma verdadeira oportunidade de “fazer Quaresma”! Convido a todos: fazer quaresma a sério! Quase prisioneiros em nossas casas, podemos escolher estar mais próximos de Deus e dos irmãos. E podemos ajudar os mais novos a perceber e a viver tudo isso como  cristãos!».

O cardeal D. António Marto, bispo de Leiria-Fátima, evocando “todos os que sofrem”, disse: “É uma situação dolorosa, dramática, mesmo, que nos convida a refletir sobre a nossa vida, a ir ao essencial” da condição humana, marcada pela “vulnerabilidade” e a “fragilidade”.

“Somos interdependestes e solidários, uns dos outros. Ou nos salvamos todos juntos ou nos afundamos todos juntos”, advertiu, para quem o isolamento deve ser assumido como “um ato de amor” pelos outros.

D. Francisco Senra Coelho, arcebispo de Évora, homenageou “todos os que, nas paróquias, se esforçam por manter viva a comunidade”, em particular com as novas tecnologias. E pediu: “Não deixemos ninguém só”.

D. José Ornelas, bispo de Setúbal, falou em “tempos especiais”, evocando as pessoas mais fragilizadas, em particular as pessoas que estão nos lares de idosos.

Família único remédio

Antoine Renard, presidente honorário da FAFCE, destaca o serviço prestado pela família à sociedade como um todo: “Em momentos de emergência, os médicos e toda a equipe de enfermagem são apoiados por suas famílias, assim como as pessoas mais vulneráveis, como os idosos. Hoje existem cerca de 44 milhões de famílias unipessoais na Europa e 32% das pessoas com mais de 65 anos vivem sozinhas.

As associações familiares devem ser apoiadas em seu serviço às famílias e àqueles que estão sozinhos: ” Devemos garantir, por todos os meios possíveis, esse contato das famílias com os idosos e ser muito pró-ativos para manter essas relações e evitar a solidão”.

Este tempo do coronavírus, faz-nos descobrir as famílias como igrejas domésticas e as novas tecnologias oferecem-nos alternativas para permanecermos conectados em oração.