Duas globalidades com mortes, medo e pânico desiguais

Prof. David Jernigan no encerramento dos trabalhos | D.R.

Foram dias de globalidades diferentes. Conferência sobre políticas globais do álcool em tempos de uma pandemia também globalíssima. No Castelo de Dublin, especialistas e preletores de todo mundo, estiveram reunidos três dias. A presidente, Sally Cassel, de Nova Zelândia, especialistas dos Estados Unidos, da Africa do Sul, da OMS, da Suiça, etc. A conferência, de cerca de 500 participantes em sala de uns 1.500, propôs medidas legais eficazes de redução dos danos do álcool. Por causa do coronavírus propunha, ao mesmo tempo, jejum de álcool (não houve nos almoços volantes de sandes) e de apertos de mão, abraços e beijos; tudo para bem da saúde, ali e em todo o mundo. Permitiam-se só cotoveladas cordiais. 

As políticas de saúde relativas ao álcool era o objetivo, mas a guerra do Codiv-19 causava mais medo e pânico. No dia 11 passou a pandemia. A cada passo vinham as recomendações antivírus. Como o evento não foi adiado, agora, choviam as cautelas: lavar as mãos, manter distâncias, etc. Parece que não havia ninguém da China, da Coreia do Sul, da Itália…, mas havia da Tailândia, Sri Lanka, África e Américas e Europa. As perspetivas de os idosos serem o alvo preferido do inimigo Codv-19 deu o alerta a partir da Madeira. Os pareceres de entendidos reduziam o medo da viagem. Seria, pela idade, o elo mais fraco no congresso, ao lado de outros amigos idosos, mas isso não impediu a apresentação do tema que levava sobre o marketing dos muitos festivais, das e com bebidas alcoólicas, em Portugal, Açores e mais na Madeira. Foi agradável cumprimentar um casal inglês de amigos idosos, um jovem da Islândia, um professor do Uganda, parente de um cardeal e estar numa das mesas das sete salas simultâneas com um conhecido investigador holandês e outra neozelandesa.

O congresso foi um sucesso na perspetiva científica, ação de pressão e advocacia a favor da saúde. É um espanto que tivesse cerca de meio milhar de participantes e 116 papers e abstracts (livro online de mais de 200 pp.). As duas globalidades, álcool e vírus, relacionadas com a saúde e as medidas a tomar diferem pelo número de mortes e em termos de medo, pânico e de esperança. Alguns oradores mostravam pouca convicção. Um falar rotineiro, de voz sumida, sem alma, dava impressão de fazerem um frete em modo depressivo, de que não valia a pena defender-se do álcool. Outros, porém, aceitavam o desafio com ânimo de competentes contra a esperteza manhosa do marketing sabendo que a sua ação vai continuar a ser jogo do gato e do rato: defesa da saúde, truques que levam a consumir demais. 

O Prof. David Jernigan, de Boston, ao encerrar o encontro, disse que os trabalhos e as respostas foram mais adequadas que noutros congressos. Uma comunicação da Lituânia apresentou um parlamento curioso de alunos de escola para estudar os males do consumo de bebidas alcoólicas e tabaco. Convidam deputados, a sério, para lhes pôr problemas sobre como se podiam reduzir os males da bebida. Noutra, sobre a Africa, mostrava-se como o marketing da indústria explora o feminismo, aliciando as mulheres a beberem como os homens. Outra mostrou que a classe de baixos rendimentos bebe mais, menos a de médios, e menos ainda a de altos rendimentos. Defende-se melhor dos danos. Fica a perversidade: alguns de mais rendimentos são os donos das grandes indústrias do álcool e impedem medidas de redução do consumo dos menos capazes de optar pela sua saúde. E subornam até os fazedores das leis de controlo com falsas investigações, de que se deram exemplos. 

As mortes rápidas da pandemia viral causam mais medo e pânico levando, com razão, os governantes a leis drásticas de limitação das liberdades e garantias em favor do bem comum para limitar os danos (=mortes) que sobem já a milhares. Ao passo que, de forma incoerente, os três milhões anuais de mortes pelo álcool, no mundo, uma em cada 20, mais espaçadas, são banalizadas e não amedrontam. O Golias enfrenta os David, e amontoam lucros com excesso de consumo à custa da saúde. Para isso impõem os seus truques de menos impostos, preços baixos, mais horas de abertura dos locais de consumo, não a etiquetas de alerta dos riscos e fintam as leis da idade. Tudo isto resulta no drama dos cidadãos, e mais na África e na América Latina, vítimas de lucros à custa da sua saúde e vida e elos fracos mais explorados. Acentuou-se que a conclusões não deveriam ser palavras bonitas, mas ação forte de todos os que ali estavam para reduzir os danos. Por isso a ONG da conferência é de Ação, GAPA (Global Alcohol Policy Action).